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Democracia
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"A democracia não é credencial para um país crescer. O que mais conta é a qualidade do governo e sua capacidade de gerar bem-estar" |
O economista canadense John Helliwell sempre foi um estudioso das democracias. Rodou o mundo durante quinze anos fazendo pesquisa de campo, dos quais cinco permaneceu sediado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Ali, Helliwell deu aula e mergulhou num amplo levantamento sobre os efeitos do regime democrático em 125 países. Produziu um trabalho polêmico, que já serviu de combustível para debates nos principais centros de pesquisa especializados no assunto. Aos 65 anos, é atualmente professor de economia na Universidade de British Columbia, no Canadá, de onde pouco se afasta. Casado e pai de dois filhos, diz que só fica longe de seu escritório para participar de regatas, um hobby que passou a cultivar quando morava próximo às águas da Baía de Boston, vizinha a Harvard. Ele considera o Brasil, país sobre o qual adora ler, uma de suas lacunas. "Todo economista precisa conhecer o Brasil", diz. Helliwell deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja O que o senhor descobriu depois de estudar a relação
entre democracia e crescimento econômico em 125 países?
Helliwell
Descobri que não há nenhuma evidência de que o regime
democrático por si só estimule o crescimento econômico.
Esse é um mito moderno que quando você vai investigar a fundo
conclui que é simplista demais. As pessoas partem da idéia
de que uma nação aberta, inserida no mundo globalizado e
que fale a cartilha do mercado internacional caso de grande parte
dos países democráticos , está mais apta a
crescer que um país fechado e totalitário. Esse mito impera
e se perpetua porque é alimentado pelo fato de as pessoas repudiarem
as ditaduras. Coloquei 125 casos diferentes na mesa e fiz o cruzamento
entre os direitos políticos conquistados por um país e sua
riqueza. Não há comprovação de que uma coisa
leve à outra. O que minha pesquisa mostra é que democracia
não é credencial para crescimento econômico, mas o
que realmente conta é a qualidade do governo.
Veja E os países democráticos tendem a ter
governos melhores?
Helliwell
Isso é verdade, o que aponta para uma relação indireta
entre democracia e crescimento econômico. Todos os rankings que
medem a qualidade de um governo mostram que as democracias estão,
em geral, à frente das ditaduras. O que entra na conta é
a solidez das instituições, o grau de corrupção
do país e o nível de bem-estar da população.
Um regime democrático tende a proporcionar às pessoas mais
água, esgoto, hospital, escola, lazer. Dá para afirmar que
alguns desses aspectos da democracia são favoráveis ao crescimento
econômico. Olhe as organizações políticas e
financeiras. Em uma democracia, são mais fortes e transparentes
e por isso produzem um bem impagável para qualquer nação
enriquecer: o capital social. É uma medida de confiança
da população em seu país. Numa nação
de capital social alto, as pessoas sentem-se seguras para comprar, apostar
e investir. Não têm a incômoda sensação
de que estão matando a grama do próprio jardim.
Veja Países mais pobres, como o Brasil, estão
ainda longe dessa realidade. Isso quer dizer que democracia boa é
a dos países ricos?
Helliwell
Quer dizer que as melhores e mais evoluídas democracias são
as dos países ricos, com certeza. A pesquisa mostra que as nações
que chegaram à democracia e já tinham um patamar de renda
alto são, de modo geral, as mais bem-sucedidas. Isso acontece porque
riqueza alimenta democracia. Quando há mais dinheiro em jogo, o
governo torna-se mais importante, e as pessoas passam a ambicionar e a
valorizar o acesso a tudo o que ele pode proporcionar. É nesse
ciclo que a democracia ganha vitalidade e melhora. Em muitas conferências
internacionais as pessoas me perguntam: "Qual é então a
renda mínima que um país deve ter para viabilizar uma democracia
de alto nível?". Não existe um número mágico,
e os exemplos espalhados pelo mundo mostram que é muito perigoso
fazer esse tipo de simplificação. Os países do Oriente
Médio estão cheios de dinheiro, mas têm democracias
que tirariam nota vermelha em um exame escolar. Pegue o caso da Rússia.
Quando os russos fizeram sua abertura política, tinham uma população
com dinheiro no bolso, mas isso não foi garantia para conquistar
uma democracia de boa qualidade.
Veja O que deu errado no caso da Rússia?
Helliwell
A
Rússia fez sua transição democrática antes
de possuir instituições sólidas e pessoas com confiança
nelas. Não tinha estruturas fortes a ponto de suportar uma economia
de mercado funcionando com a eficiência que a cartilha internacional
exige. Por isso os bons investidores olharam para o país com ceticismo.
No lugar de uma General Motors entrou a máfia. As atividades criminais
proliferam nos vácuos institucionais porque as pessoas ganham espaço
e se sentem confortáveis para criar as próprias regras.
Uma comparação que os especialistas gostam de fazer é
entre o caso russo e o dos países bálticos que compunham
a antiga União Soviética. A Rússia levou a pior,
e isso aconteceu porque os vizinhos demonstraram ter estruturas mais firmes
para virar a esquina e desenhar um novo governo. Os números comprovam
que o país está pior que antes da transição.
O mais sintomático de todos é a renda, que foi reduzida
à metade. Os cientistas políticos dizem que a Rússia
ingressou cedo demais na democracia.
Veja Mas a democracia não é um regime desejável
sob qualquer preço?
Helliwell
A
democracia é o sistema que tem mais condições de
melhorar a vida das pessoas, e por isso ela é desejável
em qualquer circunstância. Pesquisas importantes feitas em países
ditatoriais mostram que a resposta à pergunta "O que é mais
importante num país?" é sempre a mesma: a liberdade individual.
Então a democracia é um bem pelo qual as pessoas estão
preparadas a pagar, um luxo. O que minha pesquisa aponta é que
em alguns casos concretos a transição veloz para o regime
democrático custou caro demais. A África é um exemplo.
Nos anos 60, vários países africanos desataram o laço
com a Europa e trocaram sistemas coloniais por democracias que eram lindas
no papel. O problema é que não havia nenhuma base real para
que esses regimes ficassem de pé. Faltava o básico: renda,
confiança nas instituições e níveis mínimos
de cidadania. O resultado foi desastroso, porque a democracia prematura
custou a própria democracia. Num efeito dominó, muitos desses
países africanos viraram ditaduras horripilantes. Se a transição
tivesse sido mais gradual, talvez essas nações não
precisassem ter voltado tanto para trás.
Veja Em sua opinião, os países da América
Latina fizeram transições democráticas prematuras?
Helliwell
O
caso da América Latina é diferente. Nas escalas internacionais
que medem a qualidade dos governos, países como o Brasil e o Chile
aparecem no nível intermediário. Estão bastante à
frente dos africanos e muito atrás dos suíços. Então
as condições que tinham no momento em que iniciaram sua
transição democrática eram mais sólidas que
as dos africanos. Outro ponto é que a passagem à democracia
na América Latina não foi decidida pelos governantes reunidos
à mesa para discutir os rumos de seu país. Ela aconteceu
como resultado do esgotamento dos regimes ditatoriais, e por isso não
dá para dizer que foi prematura foi necessária. Se
valeu a pena? Claro que sim. As pessoas passaram a viver sem o peso daquelas
ditaduras sobre sua cabeça. Do ponto de vista econômico,
até hoje falta às democracias da América Latina um
conjunto de coisas que as fariam dar um salto de crescimento. Não
dá é para estender um tapete vermelho à ditadura
nesses países só porque eles conseguiram crescer muito naqueles
tempos. E por uma razão simples: se elevar o padrão de sua
democracia, o Brasil e os outros têm muito mais chance de enriquecer
do que quando eram países totalitários.
Veja O que falta à democracia brasileira para que
seja mais eficiente?
Helliwell
Ela ainda manca em pontos básicos. Um calcanhar-de-aquiles é
a questão partidária. No Congresso brasileiro há
espaço para celebridades só porque elas são famosas
e aparecem na televisão, não porque têm idéias
e vão contribuir para o debate político. Esse é um
reflexo de fraqueza do Parlamento. Outro aspecto do mesmo problema é
que leis que poderiam tornar a vida das pessoas melhor ficam paralisadas
porque há discordâncias demais e elas não têm
desfecho rápido e produtivo. Nas escalas que medem a qualidade
de um governo, o Brasil tem como pontos negativos a presença de
corrupção e a falta de confiança em suas instituições.
São vulnerabilidades que têm impacto muito menor nas democracias
consideradas exemplares para o mundo.
Veja O México ultrapassou o Brasil e tornou-se dono
do maior PIB da América Latina. O país tem uma democracia
de nível mais elevado?
Helliwell
Brasil e México ocupam o mesmo patamar mediano de qualidade de
suas democracias. O governo mexicano tem uma fragilidade grave, porque
comanda o país e conta apenas com uma reduzida minoria no Parlamento.
É um regime ainda frágil. O México é sempre
lembrado nos principais congressos mundiais como a nação
que passou por uma transição acelerada demais. Os mexicanos
fizeram tudo ao mesmo tempo. Implantaram regras claras e transparentes
para conquistar o dinheiro estrangeiro e organizaram suas instituições
financeiras. A idéia era chamar a atenção do mundo:
"Olha, somos o melhor e o mais barato lugar da cidade, visitem-nos e gastem!".
Deu parcialmente certo. O problema é que a expectativa ficou alta
demais para um país que ainda apresenta sintomas e defeitos de
uma democracia em formação. Aí, de tempos em tempos,
os investidores ficam decepcionados. O México é protagonista
de uma versão moderna da Idade do Ouro. Às vezes está
na moda nos círculos de investimento e outras vezes fica out. Essa
instabilidade é absolutamente indesejável. Ela dá
o tom da complicação na transição mexicana.
O Chile soube pisar mais no freio.
Veja Como?
Helliwell
O
Chile saiu de uma ditadura bastante violenta e quando chegou à
democracia soube controlar o ritmo da abertura da economia. Para evitar
que o dinheiro estrangeiro entre e saia num estalo, impôs restrições.
Os investidores são estimulados a vir e a colocar dinheiro no país.
Mas, se decidirem retirar tudo o que depositaram no banco chileno num
prazo muito curto, terão de pagar uma taxa por isso. Foi uma regra
bastante criticada no mercado internacional, mas acho que funciona. Afinal,
esse capital que chega e sai sem que nenhum chileno veja a cor dele contribui
para desestabilizar o crescimento e a própria democracia. Taxá-lo
foi uma forma que a nação encontrou de não escancarar
suas portas e fazer as coisas de modo mais gradativo. A investigação
da transição democrática em 125 países mostra
que essas passagens mais gradativas tendem a ser menos traumáticas.
Veja O senhor acha que a China é um bom exemplo de
transição gradativa?
Helliwell
Estive na China em 1986 e 1989 e conversei com muitos burocratas que trabalham
no governo para entender o ponto de vista deles sobre a transição
do país. Eles argumentam que os chineses só conseguiram
crescer porque, sob a tutela de uma ditadura, conseguiram segurar a migração
da população do campo para a cidade. Privando as pessoas
dessa liberdade individual, argumentam eles, impediram que a China tivesse
uma dúzia de conglomerados urbanos com índices sociais tão
baixos quanto os da Cidade do México. O fato, concreto, é
que desde que estive na China sua renda per capita dobrou, o que demonstra
que a tática não foi tão ruim. O país está
passando, sim, por uma transição que de tão suave
é lenta demais. E ainda testemunha horrores, como as execuções
que o colocaram na liderança do ranking da Anistia Internacional.
Se a China não mudar, pode até sofrer restrições
no moderno comércio internacional, que rechaça essa violência,
e comprometer seu crescimento.
Veja Os especialistas dizem que a educação
é um dos pilares da boa democracia. O senhor comprovou isso em
sua pesquisa?
Helliwell
Há uma relação bastante clara entre educação
e democracia. Todos os países que estão no topo dos rankings
de qualidade de governo são regimes democráticos em que
a população tem altíssimos índices de ensino.
É um dos componentes da democracia que potencializa o crescimento.
Quanto mais escolaridade tem um povo, mais o país tem chance de
ficar rico, e essa relação é matematicamente comprovável.
Existe uma polêmica acalorada em torno desse ponto porque, do mesmo
modo que as democracias investem em escola, algumas ditaduras também
seguiram a trilha. A China, quando era um dos regimes mais duros do planeta,
investiu pesado na política de colocar crianças e jovens
em sala de aula. A diferença básica e fundamental é
que os chineses massificaram a educação básica, enquanto
os países democráticos valorizam níveis mais elevados
de ensino, da universidade para cima. Esse é o pulo-do-gato para
uma nação disparar, e os países da América
Latina precisam apostar todas as fichas nisso.
Veja As democracias da América Latina estão
muito distantes das européias?
Helliwell
Não
estão engatinhando, como a África, mas estão aprendendo
a andar. A Suíça e os países nórdicos são
os líderes no ranking da democracia. Eles resolvem tudo de forma
civilizada e na base do plebiscito. Acho que o Brasil tem mais chance
de virar uma democracia com sabor francês. Qualquer insatisfação
é motivo para os franceses fazerem greve e passeata nas ruas de
Paris.
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