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Roberto
Pompeu de Toledo
A
política da histeria
e
seus perigos
Se
é fácil criar um clima de fim do mundo
contra o atual governo, que dizer de um
futuro governo do PT?
Ao
manter a política de adesão sistemática
às tentativas de atear fogo ao quadro político,
o PT trabalha contra os próprios interesses. Na presente
brigalhada entre partidos, pessoas, grupos e grupelhos acomodados
e mal no condomínio do poder, o PT mais
uma vez se deixou levar por seus reflexos condicionados. Não
resistiu a aproveitar-se da ocasião para abraçar
a causa de uma CPI no Congresso ainda que uma CPI tão
carregada de suspeitas manobras e particulares objetivos que
de saída punha em dúvida a sinceridade dos alegados
propósitos moralizadores.
O que estas últimas semanas evidenciaram foi que o
Brasil não se livrou dos acessos de histeria que lhe
marcam a vida política. Antes de 1964, tais acessos
tinham, a energizá-los, a linha direta entre os políticos
e os quartéis. O fim último era "derrubar",
dar o golpe, revogar o resultado eleitoral. Hoje caiu em desuso
o atalho dos quartéis, mas ainda se apresenta viva
a idéia de "derrubar". O "Fora FHC" apresenta-se em
faixas da CUT e já fez parte de discursos petistas.
Numa CPI como a proposta, por entre o caos dos interesses
específicos, insinua-se o desejo de puxar o tapete
do presidente. Isso pode interessar a muita gente, não
ao PT. No momento em que o partido se consolida como poder,
em Estados e municípios, e prepara-se para mais uma
cartada nacional, em 2002, não lhe calha bem o clima
de histeria, muito menos seu corolário, que são
as ameaças à estabilidade institucional.
A barulheira em torno da CPI da corrupção abafou
aquele que, de longe, foi o mais importante fato político
da semana o discurso de Luís Inácio Lula
da Silva no seminário sobre socialismo que o PT promove
em São Paulo. "Eu tenho dúvidas quando dizem
que, para construir o socialismo, você tem de fazer
a revolução primeiro", disse Lula, entre outras
declarações que só não merecem
a classificação de "históricas" porque
não traduziam uma resolução do partido,
mas apenas avançavam idéias para reflexão
dos militantes. "O projeto socialista vai se construindo ao
longo de muitos anos", disse ainda, adiando para um horizonte
distante aquilo que a mística da "revolução"
julga capaz de ser implantado de um golpe. Para culminar,
Lula descartou o controle dos meios de produção
como essencial ao socialismo. "Eu não chego a tanto",
disse.
A um observador da trajetória dos partidos de esquerda,
mundo afora, ocorreriam paralelos como a rejeição,
pelo Partido Social Democrata alemão, no famoso congresso
de Bad Godesberg, em 1959, dos conceitos de "luta de classes"
e "economia planificada", ou a decisão do Partido Socialista
francês, em 1991, muito depois de isso já ter
ocorrido na prática, de renegar o marxismo. Se o discurso
de Lula foi informal, aponta para um futuro que soa quase
como um destino, para o PT: a social-democratização.
Não por acaso, os partidos europeus citados, e a eles
poderiam ser acrescentados os partidos socialistas ou social-democratas
da Áustria, da Escandinávia e da Península
Ibérica, bem como o Partido Trabalhista inglês,
só se transformaram em membros efetivos do clube do
poder depois que fizeram os respectivos ajustes antimarxistas
e anti-revolução. E não se diga que com
isso viraram inócuos convivas do festim capitalista.
Pelo contrário, esses partidos são os responsáveis
diretos pelo mais bem-sucedido empreendimento de igualitarismo
e proteção social da História, que são
as atuais sociedades da Europa Ocidental. No caso do PT, o
ato de abandonar sua característica indecisão
entre virar a mesa e sentar-se a ela, em favor da segunda
alternativa, preencherá o vazio deixado no espectro
político brasileiro desde que o PSDB, em que pese a
social-democracia que ostenta no nome, se revelou liberal
no poder, em parte por opção, em parte por contingências
históricas.
Não combina com o processo de social-democratização
do PT a campanha que pretende pintar o atual governo como
um antro de corrupção, o que é uma injustiça,
e o atual presidente como a reencarnação de
um Fernando Collor, o que é uma injúria. Ao
fornecer combustível para a eternização
da histeria como estratégia política, o PT condena-se
a, no futuro e é sobretudo por isso que contraria
os próprios interesses , ser vítima dela.
Se é fácil criar um clima de fim do mundo contra
o atual governo, que dizer de um futuro governo do PT? Se
se permite que o "Fora FHC" circule como banal instrumento
político, que dizer de um "Fora Lula", que, potencializado
pelos recursos da direita, terá a seu tempo
não se duvide efeito desestabilizador muito
maior? A ameaça de CPIs por motivos fúteis o
PT já sente na carne com os movimentos nesse sentido
que se articulam contra a prefeita de São Paulo. Claro
que, a um partido de oposição, cabe pintar o
governo como o pior possível e embaraçar-lhe
os passos. Quando esse partido tem no horizonte a possibilidade
concreta de chegar ao poder, no entanto, cabe-lhe mais ainda
cuidar de não ultrapassar o limite que banaliza a retórica
golpista e flerta com a ruptura institucional.
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