Gaiola
das loucas
Mulheres
que não batem bem quebram a
monotonia da novela Porto dos Milagres
Marcelo Marthe
Mulheres extravagantes estão longe de ser uma novidade
na dramaturgia. Imprevisíveis, elas servem para desencadear
reviravoltas num enredo, como já sabiam os escritores
de folhetim do século XIX. Os autores de telenovelas
brasileiras sempre aproveitaram bem esse recurso. Exemplos
notáveis são as irmãs Cajazeiras de O
Bem-Amado (1973) e a viúva Porcina de Roque
Santeiro (1985). Nunca, porém, um programa concentrou
tantas esquisitonas como a atual produção das
8 da Rede Globo, Porto dos Milagres. Esquisitonas é
pouco. Cinco personagens centrais encaixam-se perfeitamente
nos casos descritos pelos manuais de psicologia. A vilã
Adma é uma psicopata clássica. Desconhecendo
os bons sentimentos e os códigos morais, mata sem pestanejar
seu método preferido é o envenenamento.
A ricaça decadente Augusta Eugênia, com seus
faniquitos, tem perfil de psicótica. "Ela vive fora
da realidade", resume Aguinaldo Silva, autor do folhetim juntamente
com Ricardo Linhares. O bloco das doidas inclui ainda a perua
Amapola, a beata reprimida Genésia e a insegura Leontina
(Louise Cardoso), que mal surgiu na trama e já revela
traços de uma maníaco-depressiva.
As loucas de Porto dos Milagres estão segurando
a média de audiência e tendem a crescer no enredo,
como revela Aguinaldo Silva. A novela estreou com baixos índices
no Ibope, mas hoje se estabilizou na faixa dos 42 pontos.
A trama central a luta do herói Guma e de seus
amigos pescadores contra um prefeito autoritário e
mau-caráter continua sem empolgar. Toda vez
que uma das doidas aparece em cena, entretanto, a audiência
sobe. Foi assim, duas semanas atrás, quando a perua
Amapola beijou alucinadamente a mão de um bispo, só
para chamar a atenção na coluna social da cidade
de Porto dos Milagres. Foi assim também na semana passada,
quando Augusta Eugênia teve um ataque. Interpretar uma
figura tão descontrolada tem seu preço. "Saio
completamente extenuada das gravações", diz
Arlete Salles. Não há dúvida de que as
loucas são engraçadas e turbinam as cenas. Mas,
de acordo com Aguinaldo Silva, boa parte do sucesso dessas
personagens também se deve à atração
que elas exercem sobre o público feminino. "Elas chegam
a extremos a que as mulheres de verdade não ousariam
chegar, embora possam até ter vontade. E, ao fazer
isso, promovem uma espécie de catarse", acredita ele.
Aguinaldo Silva, reconheça-se, tem uma habilidade especial
para criar ou realçar personagens femininas
bastante fortes. Quem não se lembra da beata Perpétua,
a megera de Tieta, que foi ao ar em 1989? "Sempre que
me ponho a escrever uma novela, elas vão surgindo naturalmente
em minha imaginação", diz o autor. Verdade seja
dita, as mulheres são a única coisa que se salva
em Porto dos Milagres. Mesmo as menos desvairadas da
trama, como a heroína Rosa Palmeirão (Luiza
Tomé) e a vice-prefeita Epifânia (Claudia Alencar),
são muito mais expressivas do que os personagens masculinos.
Compará-las aos apagados galãs Marcos Palmeira
e Leonardo Brício chega a ser covardia. Nem mesmo Antonio
Fagundes é páreo para elas.
Fotos TV Globo/divulgação
 |
A
COMPULSIVA
Amapola
(Zezé Polessa)
Sintomas:
Fútil e
obcecada com o
corpo, é capaz de passar uma madrugada
inteira malhando.
|
|
A
PSICOPATA
Adma
(Cássia
Kiss)
Sintomas:
Desconhece sentimentos como afeto e compaixão.
A
vilã já envenenou dois
personagens e
vai seguir matando.
|
|
 |
A
PSICÓTICA
Augusta Eugênia
(Arlete Salles)
Sintomas:
A ex-ricaça vive fora da realidade. Acha
que o mundo gira em torno de seu umbigo e está
sempre de olhos esbugalhados.
|
|
A
HISTÉRICA
Genésia
(Julia Lemmertz)
Sintomas:
De tão reprimida, a beata regurgitou
pitombas durante uma crise de soluços.
No fundo, precisa só se liberar sexualmente.
|
|
|
|