Desejo,
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Em Dr. T e as Mulheres, Robert Altman
mexe
em um vespeiro: a eterna insatisfação feminina
Isabela
Boscov
Divulgação
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| Helen
e Gere: Dallas como retrato do mundo |
Se
a babel de vozes femininas que ecoa em Dr. T e as Mulheres
(Dr. T and the Women, Estados Unido/Alemanha,
2000) pudesse ser resumida em uma única frase, ela
provavelmente seria "Eu quero". O americano Robert Altman,
porém, não é um diretor dado a soluções
fáceis. Por isso nem tenta entender o que as mulheres
querem exatamente. O propósito de sua nova comédia,
que estréia nesta sexta-feira no país, é
apenas constatar que, mesmo quando não têm a
mínima idéia do que desejam, elas continuam
querendo outra coisa, mais, tudo. Não é
um retrato lá muito gratificante da alma feminina.
Mas é tremendamente perspicaz e, nas mãos de
Altman, bem mais cavalheiresco do que se possa imaginar. Afinal,
se o mundo é constituído basicamente de caos
e anarquia (como o diretor não se cansou de documentar
ao longo de sua carreira), as mulheres são sua expressão
maior e mais cativante. É o que diz Dr. T.
O doutor do título é Sullivan Travis, o ginecologista
mais popular da endinheirada cidade de Dallas, no Texas. Interpretado
com inesperada leveza por Richard Gere, o Dr. T vive cercado
de mulheres pacientes, filhas, amigas, sobrinhas, funcionárias.
Cada parto que ele faz aumenta o seu "harém": só
meninas nascem, nunca um varão. Em casa ou no consultório,
o médico testemunha diariamente as profundezas abissais
da insatisfação feminina. Ansiosas e carentes,
as suas pacientes quase se matam na sala de espera. Sua mulher
(Farrah Fawcett) é acometida por uma estranha síndrome,
resultado de felicidade demais, que a leva a agir de modo
infantil e recusar qualquer contato físico. Sua cunhada
(Laura Dern), que não larga da garrafa, mudou-se com
as três filhas pequenas para a sua casa. Sua primogênita
vai se casar e a caçula, enciumada, lança dúvidas
sobre a orientação sexual da irmã.
Ainda assim, o Dr. T acha que compreende as mulheres. Considera-as
até meio sacrossantas, como tenta explicar aos seus
poucos amigos homens. Num toque típico de Altman, sutil
e ao mesmo tempo contundente, a confraternização
dos "rapazes" se dá sempre em situações
que lembram os primórdios da condição
masculina, como caçadas e pescarias. Só que
nem um mero peru de Natal os amigos conseguem abater
o que, de certa forma, configura a falência do macho.
Dr. T se encanta ao conhecer a jogadora de golfe Bree (Helen
Hunt), a única mulher que, em sua experiência,
entende o significado da camaradagem. Nesse sentido, ela se
parece mais com um homem o que, segundo o diretor,
também não é muito auspicioso.
Poucos cineastas ainda na ativa são tão influentes
quanto Altman. Aos 76 anos, ele pode se gabar de nunca ter
feito o jogo dos estúdios nem tampouco se ter curvado
à pressão da bilheteria. Mais importante: é
o fundador de um estilo muito peculiar de fazer cinema, em
que a platéia é convidada a espionar os personagens
a meia distância, quase sem close-ups ou outros
recursos que a tornem "íntima" dos protagonistas. Dr.
T e as Mulheres segue esses fundamentos. Não pode
ser contado entre as suas obras maiores, como Mash, Nashville
ou O Jogador. Mas o consagra mais uma vez como observador
arguto da natureza humana e certifica aquele que é
seu dom mais raro: o de abordar temas vastos a partir de um
microcosmo. Em Nashville, por exemplo, ele usava o
estilo de vida associado à música country para
dissecar as vicissitudes do sonho americano. Em O Jogador,
usou Hollywood para tratar de ganância e poder. Em Dr.
T, ele elege as peruíssimas ricaças de Dallas
para falar de mulheres. Pode não parecer um modelo
muito representativo de cidadã do sexo feminino, mas
acredite: trata-se do artigo genuíno.
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