A orquestra
é amante
O maestro alemão diz que perder
o comando
da Filarmônica de Nova York doeu como o
fim de um amor clandestino, mas que reger
em Paris e Londres vai recompensá-lo
Tania Menai
Chris Lee
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"Evito
reger uma orquestra que não me adore. Sempre
procurei
ser amado pelos músicos. Minha regência
não é
a de um ditador"
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O
alemão Kurt Masur, 73 anos, teria sido um grande
pianista não fosse um problema no dedo mindinho de
sua mão direita. Logo na infância, foi proibido
de tocar o instrumento. Mas sua frustração
durou até ser levado pelos pais a seu primeiro concerto.
Não tirou os olhos do maestro. Ele descobrira ali
a forma de não romper seu caso de amor com a música.
E não parou mais. Durante o hiato cultural europeu
provocado pela II Guerra, Masur se enfurnava nas bibliotecas
para estudar Beethoven. Ele ainda atraiu holofotes ao participar
ativamente da reunificação de seu país,
em 1989. Dono de títulos de honra nas melhores orquestras
do mundo, divide seu tempo entre Manhattan e Leipzig, onde
foi regente da tradicional orquestra de Gewandhaus. Há
dez anos ele é o celebrado diretor musical da centenária
Orquestra Filarmônica de Nova York, a mais antiga
dos Estados Unidos. Mas, a contragosto dos músicos,
do devoto público nova-iorquino e dele mesmo, no
ano que vem Masur se despede de Nova York. Passará
a reger a Filarmônica de Londres e a Orquestra Nacional
da França, em Paris. Antes, porém, ele vai
dirigir a turnê da Filarmônica de Nova York
pela América Latina, em junho, com apresentações
marcadas para São Paulo e Rio de Janeiro. Casado
há 25 anos com uma violinista japonesa, Masur tem
boas recordações do Brasil: "Eu a conheci
no Rio de Janeiro". O maestro recebeu VEJA para a seguinte
entrevista:
Veja O senhor foi uma criança muito
tímida. Hoje conduz orquestras de centenas de músicos
perante milhares de pessoas. Como superou a timidez?
Masur
Isso veio com a necessidade. Na época em que
tocava piano, eu podia ser tímido. Mas ao saber do
médico que eu não tinha chance de ser um pianista
ou organista, que era o meu sonho tive de
pensar numa alternativa. Quando decidi ser maestro, por
mais que todos gostassem da idéia, incluindo minha
mãe, acho que ninguém acreditava que eu tinha
uma personalidade forte e convincente para tal. Então
comecei a desenvolver essa parte, aprendendo a falar com
cuidado e fluência, a fim de ser compreendido, evitando
soltar os "eh, eh, eh" típicos da insegurança.
Gradualmente, aprendi a ser mais forte, mais aberto, a alcançar
as pessoas e a não ser tímido.
Veja Como foi o começo dessa nova carreira?
Masur
Ingressei
num coro de meninas, e elas gostaram bastante de mim. Percebi,
então, que a idéia poderia funcionar. Desde
o começo, essa forma de fazer música foi puro
contentamento para mim. Nunca senti como um trabalho árduo
ou uma obrigação era simplesmente a
minha maneira de viver. Só queria fazer música
e encantar outras pessoas. É o que acontece até
hoje. Para isso, eu me aprimorei, fazendo coisas que naquela
época eram quase impossíveis para mim, até
sentir que uma orquestra poderia me aceitar como personalidade
e como pessoa. Até hoje evito contatar uma orquestra
que não me adore. Sempre procuro fazer com que a
orquestra me entenda e que minha regência não
seja a de um ditador, mas a de um amigo. E, estando entre
amigos, levar uma mensagem que soe humana, amigável
e conectada com o público.
Veja Como o senhor se impõe à
orquestra?
Masur
Em primeiro lugar, a orquestra deve sentir que o maestro
a escuta. Um maestro não deve controlar os músicos.
Se eles sentirem que podem confiar no maestro, então
você acaba fazendo parte do processo deles de alcançar
a qualidade. Mas, para mim, não há nada mais
importante do que ser honesto, mesmo se a honestidade machucar.
Se a orquestra tocar mal, é preciso dizer "vocês
têm de melhorar". Ser apenas educado não ajuda.
As orquestras só aceitam os maestros quando sentem
que podem tocar melhor com ele do que sem ele. Às
vezes ser honesto é difícil, claro.
Veja Diz-se que o senhor sorri muito diante
dos músicos, ou pelo menos agia assim no começo
de sua carreira. O senhor mudou?
Masur
Não, de jeito nenhum. Um amigo chegou a me alertar
para o fato de manter um sorriso permanente nos lábios
enquanto conduzia a orquestra. Mas isso foi mais intenso
no começo. Eu estava muito feliz por estar regendo
e era extremamente amigável. Mas a orquestra esperava
que eu fosse mais crítico, a fim de aprimorá-la.
Continuo feliz e amigável quando os músicos
tocam bem, e nem tão amigável em caso contrário.
É uma coisa normal, doar e receber impulsos. A Filarmônica
de Nova York é uma felicidade para mim.
Veja O principal papel do maestro é
interpretar o que o compositor deixou registrado na pauta
musical?
Masur
Claro. Beethoven (1770-1827) era muito conectado
aos acontecimentos de seu tempo. Apesar de ser ligado a
Napoleão, ele ficou furioso ao saber que o francês
iria se tornar imperador. Beethoven não queria um
ídolo ou um imperador ditando regras para o povo.
Ele esperava pela propagação da idéia
básica de igualdade e fraternidade da Revolução
Francesa. O compositor não aceitava o conceito de
superioridade inata das pessoas. Para ele nem um rei era
superior aos demais. Até mesmo Deus, na concepção
de Beethoven, era um parceiro, não uma devoção.
Sentimos a atividade do espírito de Beethoven em
suas sinfonias. O maestro não pode ignorar essa realidade
histórica em torno do compositor. Tem de refleti-la
em sua interpretação da música. Temos
o dever de tentar encontrar o significado dessas composições.
Veja Maestros como Arturo Toscanini foram totalmente
fiéis às composições. Já
o austríaco Herbert von Karajan destroçava
as partituras originais, enquanto o alemão Wilhelm
Furtwängler quase reinventou Franz Schubert ao reger
sua música. Qual sua opinião sobre esses diferentes
estilos de regência?
Masur
Nunca reinvento. Estudo as peças cuidadosamente,
tentando ressaltar as intenções dos compositores.
Mas, claro, tenho personalidade, então há
uma diferença natural. Mas eu não tenho de
fazer algo para torná-la diferente. Não quero
corrigir os compositores, e sim compreender a mensagem que
eles queriam comunicar ao público. Esse é
o nosso dever como maestros. Não podemos fazer mudanças
achando que somos melhores. Em determinada época,
Schumann era muito corrigido pelos maestros eles
mudavam aqui e ali. Isso é uma pena. Não deveria
ser permitido. É um crime.
Veja Provavelmente o senhor já teve
de lidar com músicos de ego inflado. Como proceder
para que isso não afete o resultado do trabalho?
Masur
Isso não é difícil para mim, porque
já chego sorrindo. Os ególatras são
pessoas pobres. Levam-se a sério demais. Isso é
uma demonstração de que não acreditam
em si mesmos, são inseguros. Tento ajudá-los.
Artistas que são realmente bons e se sentem responsáveis
pelas interpretações jamais podem ser assim.
Veja o exemplo do violoncelista Yo-Yo Ma. Ele é um
artista maravilhoso. Assim como o violinista Isaac Stern
e o pianista Alfred Brendel. Que homens fantásticos
e sérios!
Veja Com tanta gesticulação no
palco, é importante que um maestro pratique esportes?
Masur
Claro.
Um maestro não deve ter um corpo rijo. Antes de reger
é importante se exercitar. Ao fazer movimentos errados,
é comum que as pessoas machuquem os braços
e rompam ligamentos dos ombros. Durante a infância,
eu praticava muito esportes, mas não era um grande
atleta, nem muito forte. No começo de minha carreira
aconteceu algo estranho: depois do primeiro movimento da
Quinta Sinfonia de Beethoven, eu não conseguia
continuar a regência por falta de fôlego e estrutura
física. Tive de treinar meu corpo. Hoje disponho
de energia suficiente para reger grandes peças. Já
fui nadador, esquiador, piloto de avião planador,
e pratico voleibol. Ah, jogo bastante pingue-pongue!
Veja Músicos dizem que os olhos do maestro
são tão importantes quanto as mãos.
É verdade?
Masur
Sim, claro. As mãos podem comunicar, mas acredito
que a respiração, a maneira de ser, o rosto,
a expressão podem fazer muito pela orquestra.
Veja O humor afeta sua regência de alguma
forma?
Masur
Não. Concentro-me totalmente na regência. Foco
na peça e suas exigências e me desligo do resto.
Veja Além de não usar batuta,
o senhor é famoso por reger sem partitura. Isso é
uma habilidade fora do comum?
Masur
Tenho 200 peças de cabeça e sou conectado
a todas elas. Isso me dá maior liberdade, além
de passar algo mais convincente.
Veja A música erudita pode ser popularizada?
Masur
Temos de educar as crianças nas escolas. Se não
lhes dermos as diretrizes, iremos perder público
e empobrecer a música. Elas vão crescer e
escutar apenas a "música fácil", sem significado.
Essas crianças nunca irão entender uma boa
música. Todos os governos e todos os professores
têm o dever de ensinar música nas escolas.
É uma coisa muito fácil de fazer. Cantando
uma música a cada manhã já é
possível fazer as crianças felizes e tornar
a escola menos sisuda. Muitos professores ainda não
sabem que a forma mais fácil de unir os jovens é
por meio da música.
Veja O senhor conhece compositores brasileiros?
Masur
Conheço muito bem Villa-Lobos. Gosto muito de samba
e dos sons das músicas brasileiras. Eles sempre me
tocam muito porque são expressões de pessoas
maravilhosas que, mesmo quando vivem na pobreza, encontram
maneiras de ser felizes. Claro que elas são afetadas
por problemas como criminalidade, mas são pessoas
muito calorosas, humanas e que buscam contato.
Veja O senhor admira algum compositor erudito
contemporâneo?
Masur
O japonês Masaru Sato escreveu uma peça que
ninguém jamais compôs uma música
silenciosa. Algo milagroso e quase inexplicável,
um som que soa como o silêncio. Isso é muitíssimo
interessante. Depois de doze minutos de música, temos
a impressão de estar numa sessão budista.
É uma experiência muito especial para o público,
além de ser bastante intelectual. Acho-o maravilhoso.
Veja Que tipo de música o senhor escuta
em casa?
Masur
Todos os tipos. Principalmente por causa de meu filho, que
está terminando a faculdade, tenho ouvido os estilos
mais diversos. Por sinal, ele vai ser maestro.
Veja Em breve, o senhor vai reger a Filarmônica
de Londres e deixará a orquestra de Nova York. Essas
mudanças são boas?
Masur
Foi uma tolice do conselho da filarmônica. Elas não
têm sentimentos. Se o casamento vai bem, para que
mudar? É uma tristeza. Somos como uma família.
Mudar de orquestra é como mudar de amante. Não
de esposa. Eu ficaria em Nova York se o conselho da filarmônica
não tivesse tomado decisão contrária.
Se alguém tem o poder e o dinheiro, temos de aprender
a lidar com isso. Vou sempre voltar como convidado e espero
que tenhamos boas experiências juntos novamente. Ser
maestro é uma profissão maravilhosa, pois
você passa a vida toda se aprimorando. Não
tem limites. Ela dura até o fim da vida.
Veja Que contribuição pessoal
o senhor deixou para a Filarmônica de Nova York?
Masur
Um maestro não tenta mudar a característica
de uma orquestra. Apenas faz com que ela aprenda um novo
estilo. Cada diretor musical que passou pela Filarmônica
de Nova York deixou sua marca. Gustav Mahler (1909-1911)
conduzia suas próprias sinfonias. Até hoje
a orquestra as toca muito bem. Leonard Bernstein (1958-1969)
também deixou heranças. Além disso,
essa orquestra ainda toca música contemporânea
americana com tremenda precisão. Ao chegar, tentei
dar-lhe um contorno mais europeu. Ao tocar Brahms, por exemplo,
ajudei a fazer com que as composições soassem
germânicas, como se tivessem sido tocadas pela Filarmônica
de Berlim. Dei o máximo de meu conhecimento e de
minha imaginação sobre o som. E eles me acompanharam.
Acredito que essa orquestra alcançou tanta flexibilidade
que é capaz de tocar Bach com a mesma beleza e correção
de uma orquestra alemã. Tenho orgulho de dizer que
ela pode satisfazer os desejos de qualquer maestro.
Veja O senhor será ao mesmo tempo regente
da Filarmônica de Londres e da Orquestra Nacional
da França. O que os músicos lá podem
esperar?
Masur
Estive
em Londres, onde regi como convidado no ano passado. O convite
veio logo depois. Tenho de admitir que aquela orquestra
tocou esplendorosamente sob meu comando. Pretendo elevar
ainda mais o nível, aproveitando a vasta cultura
que ela já tem. Quanto a Paris, bem, vou dar-lhes
um pouco mais de disciplina. Tenho de conseguir que eles
me amem. Caso contrário, tocarão catastroficamente.