Edição 1 647 -3/5/2000

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O Leão quer mais

O secretário da Receita diz que os empresários
reclamam dos impostos que não podem sonegar,
como a CPMF e a Cofins

Nilson Vargas


Ana Araújo
"Eu também sou contribuinte. Não tenho satisfação em aumentar impostos. Isso não me dá prazer nenhum"

O secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, tem 53 anos de idade, trinta dos quais passados em repartições públicas. É um homem discreto, que ocupa um apartamento funcional numa quadra comum de Brasília e é definido, por quem o conhece bem, como um administrador competente e muito vaidoso. Todo mundo, inclusive o governo, sabe que o Brasil precisa de uma reforma tributária capaz de tornar o recolhimento de impostos uma operação mais organizada e menos injusta. Everardo Maciel, que não é legislador, não tem poder de acabar com o caos tributário brasileiro. Mas sabe muito bem como elevar a arrecadação dentro da bagunça dos impostos nacionais. Sempre que se fala em reformar o sistema de tributos, o governo treme, com medo de uma queda na arrecadação. Com isso, o secretário da Receita tornou-se um dos homens mais poderosos da Esplanada dos Ministérios.

Veja — Encerrado o prazo para a entrega da declaração do Imposto de Renda, há muita gente revoltada com a mordida do Leão...
Everardo — Também sou contribuinte e acho que existe um desequilíbrio entre a cobrança do imposto e a prestação do serviço público. Mas nada me autoriza a concluir que a redução da tributação vá melhorar o serviço público. São duas coisas distintas. No Brasil nós temos enormes problemas não resolvidos. A começar pela definição das responsabilidades pelas políticas públicas. Os problemas têm de ser resolvidos por quem os criou, não por nós que cobramos impostos. O que eu posso dizer é que não se melhora a prestação de serviços deixando de pagar tributos. Se o serviço não funciona, a pessoa tem de se queixar ao prestador do serviço.

Veja — Reclamações não faltam, mas os problemas continuam e mais impostos, como a CPMF, estão sendo criados...
Everardo
— Volto a dizer que a reclamação deve ser feita contra os responsáveis pela qualidade do serviço público, e não contra o cobrador de imposto. Qualquer que seja o imposto, ele não é a base da má qualidade dos serviços prestados à população. Sempre digo que o fator determinante da alíquota do imposto está numa ponta que eu não controlo, a da despesa. Não tenho nenhum prazer especial em aumentar imposto. Isso não me traz satisfação. Às vezes sou obrigado a aumentar imposto para enfrentar um problema de desequilíbrio fiscal. Mas o foco da ação está na despesa. Foi porque ela aumentou que os tributos subiram.

Veja — Os empresários reclamam muito de impostos como a CPMF e a Cofins, que tiram a competitividade do produto brasileiro.
Everardo
— Isso é o que eles dizem. Mas os empresários têm uma agenda oculta. Eles reclamam desses impostos porque são implacáveis. Não há como escapar deles.

Veja — O sistema tributário pune o honesto bom pagador de impostos com alíquotas altas para compensar o calote dos sonegadores. Resultado: o empresário que paga imposto sofre a concorrência de outro que não paga. Não há remédio para isso?
Everardo
— É verdade que há maior carga fiscal sobre certos setores para compensar maus pagadores e renúncias fiscais. Um caso clássico é o setor de combustíveis, no qual a indústria de liminares isenta certas empresas e faz com que outras acabem de certa forma pagando pelos que não pagam. Estes perdem competitividade. Concordo que em muitos casos os bons pagam pelos maus, mas não é apenas a Receita que pode resolver essa distorção. A Justiça é lenta. Temos liminares que suspendem o pagamento de impostos há dez anos. No caso do imposto de renda, é claro que se a sonegação fosse menor o imposto também poderia cair.

Veja — Existe alguma perspectiva de redução do imposto de renda ou de aumento das deduções ou isenções?
Everardo
— Nenhuma. Primeiro porque o Estado não gera riqueza nem renda. Ele aloca. A alíquota máxima do imposto de renda já foi de 35%. Hoje está em 27,5%. A carga já diminuiu um pouco. Mas se aumentarmos as deduções, por exemplo, de quem tem despesas escolares estaremos tirando recursos que são aplicados no sistema educacional para os mais pobres para favorecer os mais ricos. Isso não faz muito sentido.

Veja — O que o senhor está dizendo é que se o governo aplicar bem o que arrecada os impostos podem cair?
Everardo
— É isso mesmo. As pessoas com a chave do cofre de dinheiro público supõem que existe almoço de graça. Aumentam despesas e não pensam que com isso estarão provocando aumento no imposto ou gerando inflação. O número absurdo de municípios criados depois da Constituição de 1988 elevou a despesa nacional e explica em grande parte a alta da carga tributária brasileira atual, de 30% do produto interno bruto.

Veja — O senhor já levou essa questão, nesses termos, aos ministros?
Everardo
— Não, só como comentários. Mas o fato é que se a arrecadação de impostos não tivesse se tornado mais eficiente o Brasil teria tido problemas sérios. A eficiência da Receita foi um contraponto ao descrédito internacional a respeito de nossa capacidade de enfrentar o problema fiscal. Corríamos o risco de nos tornar uma Rússia americana.

Veja — Ainda tem muita gente devendo imposto no Brasil?
Everardo
— Muita gente e muita empresa. Temos uma estimativa baseada na CPMF. Eliminando os empréstimos e as aplicações financeiras, circulam 2,4 trilhões de reais pelo país. Se subtrairmos da base declarada do imposto de renda de pessoas físicas os isentos, o faturamento das empresas, o que foi pago de impostos, as transferências entre pessoas da mesma família e as transferências entre empresas, desses 2,4 trilhões sobram 825 bilhões de reais que foram efetivamente tributados apenas pela CPMF. É lícito supor que esses 825 bilhões deveriam ter sido pegos por algum outro imposto.

Veja — Ainda há muito dinheiro de brasileiro irregularmente no exterior, ou isso é lenda?
Everardo
— Não sabemos com certeza. Utilizando alguns indicadores indiretos, calculo que deva haver 20 bilhões de dólares mandados irregularmente para paraísos fiscais. É um valor semelhante à arrecadação de imposto de renda de pessoa física e jurídica no ano passado.

Veja — Quais os paraísos fiscais preferidos pelos brasileiros?
Everardo — Primeiro Cayman, depois o Uruguai. Existe também dinheiro decorrente de lavagem de atividades ilícitas nos Estados Unidos. Há instituições financeiras sendo investigadas pelos americanos para onde tem ido muito dinheiro de brasileiros. Nós temos tentado firmar acordos com os países sócios do Mercosul para troca de informações financeiras, mas nossos acordos esbarram nas resistências do Uruguai. Os uruguaios querem ser no Mercosul o refúgio fiscal que Luxemburgo é na Europa.

Veja — Ultimamente têm sido levantadas muitas denúncias contra fiscais da Receita. O que está acontecendo?
Everardo — Temos coibido a corrupção na Receita com mais rigor do que qualquer outra instituição. Desde dezembro está em vigor uma medida muito eficiente de prevenção da corrupção. É o mandado de procedimento fiscal. Todo fiscal é obrigado a apresentar ao contribuinte que está sob sua inspeção um papel lacrado que informa o prazo que ele tem para realizar a tarefa, o que ele está fiscalizando, quem é o supervisor, seu número de telefone e, o mais importante, uma senha para o contribuinte verificar na internet se o que está escrito no papel é a verdade. Isso evita o achaque. Evita que apareça o falso fiscal ou fiscalizações não autorizadas.

Veja — Essa medida sugere que haja desconfiança a respeito do comportamento dos fiscais...
Everardo
— Algumas organizações sindicais de funcionários da Receita entraram na Justiça contra essa medida. Mas, sem fazer suposição nenhuma, o que se quer é estabelecer uma relação de equilíbrio, de cidadania. O contribuinte tem de ter garantias. Afinal, quem o guardará dos guardas?

Veja — O senhor é a favor da quebra do sigilo fiscal das pessoas suspeitas de irregularidades?
Everardo
— As pessoas que ocupam cargos na administração pública estão obrigadas a encaminhar ao Tribunal de Contas sua declaração de renda. Essa lei foi resultado de um projeto do senador Pedro Simon. Mas acho que ela é exagerada. Acho que a declaração deve estar disponível e não ser entregue obrigatoriamente. Deve-se partir do princípio de que a maioria das pessoas são honestas e que não é necessário expor a intimidade dessas pessoas se não houver proveito no combate à corrupção. Mais do que isso. As informações fiscais devem estar disponíveis para as autoridades especializadas na matéria. Não se recomenda dar publicidade a essas informações. Só sob suspeição o órgão especializado na fiscalização utilizará todos os meios necessários para a investigação. Se algo for descoberto, daí então é correto dar publicidade à história.

Veja — Mas entre as pessoas sobre as quais se tem levantado suspeita ultimamente há vários fiscais...
Everardo
— É verdade.

Veja — E a própria Receita vai investigar essa gente? O senhor não teme que as pessoas percebam essa atitude como corporativista?
Everardo
— Não há alternativa. Não se pode imaginar que uma pessoa não especializada vá investigar um funcionário da Receita. Nos Estados Unidos, os assuntos internos das instituições de governo são cuidados por gente das próprias organizações. E essa gente, por sinal, é muito temida. A nossa corregedoria também é formada por gente bastante dura, bastante respeitada. O corregedor tem mandato, não é demissível por autoridade, e os servidores que trabalham na corregedoria podem escolher para onde querem ir quando saírem desse setor. É claro que poderia ser melhor. No Brasil somos ainda crianças nessa matéria de auditoria e correição. Mas desde 1995 tivemos 91 fiscais cassados e demitidos, 46 foram suspensos e 97 receberam advertência. São números significativos. Tivemos dois casos de prisão no Rio Grande do Sul, um inspetor de aeroporto preso. Ao todo, foram presos catorze fiscais. Isso mostra que temos controles que funcionam. Todo sistema no mundo é vulnerável, toda fortaleza é devassável, mas nos preocupamos em dar publicidade aos casos de fraude que descobrimos para mostrar que estamos de olho e identificamos problemas.

Veja — Reduzindo a questão a índices estatísticos, qual a margem para fraudes na Receita?
Everardo
— Isso é difícil avaliar. Faz parte do domínio do subterrâneo, do invisível. A vanguarda do marginal está sempre à frente da fiscalização da Receita em qualquer lugar do mundo.

Veja — As últimas CPIs só deram algum resultado quando o Ministério Público encontrou problemas no imposto dos suspeitos de outros tipos de crime...
Everardo
— Assassinos devem ser punidos por assassinato. Se além disso são sonegadores, devem ser punidos por sonegação. Não se pode, de repente, numa situação criminosa qualquer, esperar que o imposto de renda venha a ser a tábua de salvação para a punição de todos os criminosos. Sonegador é sonegador, criminoso é criminoso. Existem criminosos que pagam impostos. Existem pessoas que não pagam impostos e não são criminosas. Há que separar uma coisa da outra.

Veja — Mas os envolvidos no narcotráfico, no contrabando não são potencialmente sonegadores?
Everardo
— Essas são situações muito peculiares. Quem é investigado pela Receita é investigado por ilícitos fiscais. Mas é perigoso imputar uma enorme responsabilidade ao Fisco pela apuração de todos os crimes. Nós temos tido uma interação fortíssima com as CPIs. Elas acabam sendo um instrumento para a Receita encontrar brechas no sigilo bancário.

Veja — O senhor faz restrições à abertura do sigilo fiscal, mas é favorável à abertura do sigilo bancário?
Everardo
— Um auditor tem de ter acesso a informações bancárias, não só de suspeitos. Nós fiscalizamos por amostragem. Se fôssemos investigar só os suspeitos teríamos um funil muito estreito. Quando aparece algum sinal exterior de riqueza, é preciso examinar. E hoje, para abrir o sigilo bancário de alguém, necessitamos de uma ordem judicial. Quer dizer, o funcionário da instituição financeira, o gerente da conta, o presidente do banco, o funcionário do Banco Central que trabalha na supervisão bancária, todos conhecem os dados bancários das pessoas. Mas o auditor fiscal precisa da ordem de um juiz para isso. Como é quase impossível conseguir essa ordem, o que fica protegido é a sonegação, e não o sigilo.

Veja — Uma boa reforma tributária poderia transformar o caótico sistema de recolhimento brasileiro numa coisa mais simples e mais justa para os contribuintes e menos prejudicial para a produtividade nacional. Por que a reforma não sai?
Everardo
— Os impostos incidem sobre renda, patrimônio e consumo. No que diz respeito a renda e patrimônio, o sistema brasileiro tem padrão internacional. O problema está na tributação do consumo, em impostos como o ICMS, que têm diversidade de alíquotas, diferenciações entre Estados, isenções. Se a lei fosse cumprida e a guerra fiscal não existisse, já seria um grande passo. Esse é o ponto da questão tributária em que é mais difícil mexer, pois envolve divergências e até brigas entre Estados. O país tem chance de progredir nessa área. Mas, por uma questão de agenda dos políticos que logo estarão envolvidos com as eleições municipais, é pouco provável que as mudanças venham ainda neste ano.

 
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