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Edição 1 771 - 2 de outubro de 2002
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Claudio de Moura Castro

Tecnologia sem engenheiros?

"Falta-nos a crença obstinada de que os
produtos simples
podem e devem ser
melhorados e que a criatividade não
pode ficar só na música
e no futebol"



Ilustração Ale Setti


Na empresa americana onde comprei uma asa-delta, o currículo do vice-presidente citava sua passagem pela McDonnell Douglas e sua experiência de vôo. Só não dizia que lá transportava mercadorias e apenas sabia de vôo como falconista. O australiano Moyes – o primeiro a rebocar com barco uma asa-delta – era dono de uma oficina mecânica (dele vem o uso de ferragens navais nas asas). Muitos fabricantes de asas e parapentes começaram fazendo velas de barco. Aliás, o parapente foi inventado no vilarejo de Mieussy por um francês que era carteiro, cozinheiro e poeta.

Jamais houve um só engenheiro aeronáutico desenhando asas-deltas ou parapentes. Eles entram somente na hora da certificação de qualidade. Os desenhistas, construtores e pilotos de provas aprenderam olhando os pássaros e experimentando.

E assim foram criadas as centenas de fábricas espalhadas pelo mundo afora, abastecendo um mercado com bem mais de 100.000 praticantes, que trocam de equipamento a cada dois ou três anos. No conjunto, a indústria cria milhares de empregos e gera milhões de dólares. Ademais, é uma indústria moderna, empregando novos materiais, como fibra de carbono.

O progresso é permanente e perceptível a cada ano. Minha primeira asa tinha um planeio de 1:3, isto é, avançava 3 metros para cada metro de altitude perdida. Hoje elas planam acima de 1:11. Meu primeiro parapente dava 1:3. Meu atual já está em 1:8. Além disso, a segurança de vôo aumenta a cada ano.

Como se desenha um parapente (ou uma asa)? Primeiro, copiando do concorrente. Depois, experimentando obsessivamente, introduzindo pequenas modificações, testando e voltando para a máquina de costura, para redesenhar o perfil da vela. O piloto de provas dá o feedback ao desenhista, que volta a fazer alterações. Em período de desenvolvimento de um novo modelo, chega-se a produzir três versões em um mesmo dia. Até no Brasil já há uma fábrica experimentando e inovando.

O que aprendemos com um bando de malucos que voam, sustentados por um pano enorme, amarrado em um maço de barbantes? Afinal, a Embraer faz tudo diferente.

Não falamos, porém, das proezas tecnológicas de fazer um avião e sim de engenhocas tão simples como a maioria dos produtos que compramos nas lojas. Não precisam de engenheiros aeronáuticos, túneis de vento ou modelos matemáticos de simulação de vôo. Mas neles vicejam os progressos técnicos, graças à inventividade compulsiva dos fabricantes desses brinquedos voadores.

Nossa indústria de produtos simples – como vasos sanitários, tomadas, trincos de porta, mochilas, sapatos, doces de coco, torneiras e armários – não opera com a mesma obsessão do aperfeiçoamento, da busca de melhores soluções e dos pequenos avanços. Há progressos vindos dos departamentos de pesquisa e desenvolvimento da nossa grande indústria, seja do álcool, automobilística, de papel ou petróleo. Mas é um erro lamentável achar que P&D e avanço tecnológico têm de estar em departamentos de P&D, só encontradiços nas grandes indústrias. Quando Amaro Lanari, da Usiminas, criou um programa de incentivos às patentes dentro da fábrica, verificou-se que muitas das idéias patenteáveis vinham de técnicos e operários.

Mas nos produtos mais simples falta a inventividade que borbulha em nosso povo. Há até exceções, como a doutora Ana Cristina Kolbe, que levou três anos aperfeiçoando o desenho e a manufatura de um instrumento para limpar a língua. Custa 5 reais na farmácia e dá a essa dentista criativa um bom dinheiro. Contudo, é a exceção, quando deveria ser a regra.

Podem faltar meios materiais, informação e mais educação. Mas, acima de tudo, falta-nos a crença obstinada de que os produtos simples podem e devem ser melhorados e que a criatividade não pode ficar só na música e no futebol. Claro, poderíamos esperar mais inovação dos engenheiros se nossos cursos andassem em outras direções. Mas para experimentar e inventar não é preciso carteira do Crea. Nosso desafio é canalizar maciçamente nossa criatividade para o setor produtivo, não ficando nos espasmos ocasionais.

 

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)


 
 
   
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