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Edição 1 771 - 2 de outubro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

O país do "tudo bem"

Na corrida para ser feliz, apesar
da miséria, da violência, do dólar,
e do risco país, largamos
na frente

Como vai você?

Considerada em seu sentido literal, esta que é a mais banal das perguntas, não mais do que uma convencional fórmula de cortesia, contém uma pesada carga inquisitorial, só possível de ser satisfeita com auto-exame profundo. Como estou eu? Estarei bem de saúde? E aquela pontada que senti no couro cabeludo ao acordar? E a micose entre os dedos do pé? Estarei bem no trabalho? Mesmo com aquela última observação do chefe? Estarei bem com a mulher, os filhos, os pais, irmãos, cunhados, amigos? Comigo mesmo? Em paz com a vida, resignado com a inevitabilidade da morte, satisfeito na ânsia de justiça e de liberdade, pacificado com relação aos projetos não realizados e aos desejos não satisfeitos, vacinado contra os aguilhões da cobiça, da inveja e do ciúme?

A pergunta, interpretada dessa forma, é acachapante. Para respondê-la com precisão, seria necessário ter sempre em mente, ou trazer no bolso, rabiscado no papel, o rol de itens que cumpre repassar – saúde, vida profissional, relações pessoais, vida sexual e afetiva, grau de satisfação nas posições políticas e convicções filosóficas, equilíbrio psíquico, qualidade do desempenho das funções fisiológicas, grau de satisfação nos desejos de consumo, entre muitos outros – e, como diante do rol de compras no supermercado, conferir um a um. Naturalmente, requer tempo. Ainda mais que raro será o item cuja avaliação se resolverá com um simples sim ou não. A maioria suscitará dúvidas, hesitações, ambigüidades. As respostas serão necessariamente nuançadas, às vezes longas, requerendo esmiuçadas explicações. Será necessário convidar o conhecido a acomodar-se e reservar algumas horas de seu tempo para ouvir a resposta. Uma opção será trocar o exame item por item por uma fórmula curta e grossa. O preocupado com a justiça social responderá: "Como posso ir bem, num mundo de miséria e iniqüidades?". O angustiado com a efêmera condição humana repicará: "Como posso ir bem, se tenho diante de mim o imperativo inelutável da finitude?". Felizmente o que se requer, diante do "como vai?", não é nada disso, mas uma polida mentira: "Vou bem, obrigado".

O hábito de as pessoas se cumprimentarem dizendo "como vai?" ocupa breve trecho de um curioso livro lançado recentemente no Brasil, A Euforia Perpétua, do francês Pascal Bruckner (Difel). O livro é sobre esta praga do nosso tempo que é impor a cada um, como máximo padrão de realização, o dever de ser feliz. "Sejam felizes", desejam os pais aos filhos. Mas... Como ser feliz? Como saber o que é ser feliz? Como saber se somos felizes? Qual o critério? A obsessão por esse impossível graal, essa miragem chamada felicidade, impõe um peso difícil de suportar. Mas todos apregoam que ser feliz é o que importa, e de medo de não ser, ou parecer que não se é, responde-se ao cumprimento do amigo recitando: "Vou bem". No máximo, quando a situação do inquirido é incontornavelmente má, seja por um sofrimento físico, às vezes até evidente na aparência, seja por um sofrimento moral, como a morte de um próximo, se dirá: "Vou indo". Ou, então: "Mais ou menos".

Nem sempre, lembra o autor do livro, se usou a fórmula "como vai?". Houve tempo em que expressões de cunho religioso, que invocavam a proteção divina, eram empregadas pelas pessoas ao se encontrarem. No Brasil, era corrente entoar, especialmente entre os negros e seus senhores, ou os negros entre si, "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo", ao que se sucedia a resposta "Para sempre seja louvado". Certas comunidades evangélicas atuais utilizam fórmulas semelhantes. Em Israel cumprimenta-se dizendo "Shalom", paz, e entre os árabes o quase igual Salam. Nas línguas ocidentais prevalece o "como vai?". Na França, acrescenta o autor, em outra preciosa informação, a expressão teria origem nos consultórios médicos. O médico costumava indagar ao paciente "Como vai?", querendo saber como iam as funções intestinais, chave da saúde e do bem-estar.

O que o autor não sabe, e se soubesse teria acrescentado precioso reforço à sua argumentação, é que no Brasil já se foi além do "como vai?". Estamos na era do "tudo bem". Já não se pergunta como vai, e sim, numa antecipação da resposta positiva: "Tudo bem?". Estreita-se a opção do interlocutor. Não se deixa a questão em aberto. Joga-se desde logo diante dele, insidiosa e irrecusável, ainda que na forma interrogativa, a alternativa correta, que não pode ser outra senão a da felicidade, do prazer e do bem-estar. Ninguém ousará cumprimentar explicitando a alternativa oposta: "Tudo mal?". A maneira de cumprimentar com o "tudo bem?" nasceu entre os jovens, nos anos 60. Depois expandiu-se para o conjunto da sociedade. Somos um povo abençoado. Claro que há o dólar e o risco país desfavoráveis, a miséria e a violência. Mas, por aqui, nem se precisa perguntar como vai. Já avançamos o alegre, jovial e travesso "tudo bem?", na certeza de que, da parte do interlocutor, não virá senão a confirmação.

   
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