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Roberto
Pompeu de Toledo
O
país do "tudo bem"
Na
corrida para ser feliz, apesar
da
miséria, da violência, do dólar,
e do risco país, largamos na
frente
– Como
vai você?
Considerada em seu sentido literal, esta que é a mais banal das
perguntas, não mais do que uma convencional fórmula de cortesia,
contém uma pesada carga inquisitorial, só possível
de ser satisfeita com auto-exame profundo. Como estou eu? Estarei bem
de saúde? E aquela pontada que senti no couro cabeludo ao acordar?
E a micose entre os dedos do pé? Estarei bem no trabalho? Mesmo
com aquela última observação do chefe? Estarei bem
com a mulher, os filhos, os pais, irmãos, cunhados, amigos? Comigo
mesmo? Em paz com a vida, resignado com a inevitabilidade da morte, satisfeito
na ânsia de justiça e de liberdade, pacificado com relação
aos projetos não realizados e aos desejos não satisfeitos,
vacinado contra os aguilhões da cobiça, da inveja e do ciúme?
A pergunta, interpretada dessa forma, é acachapante. Para respondê-la
com precisão, seria necessário ter sempre em mente, ou trazer
no bolso, rabiscado no papel, o rol de itens que cumpre repassar
saúde, vida profissional, relações pessoais, vida
sexual e afetiva, grau de satisfação nas posições
políticas e convicções filosóficas, equilíbrio
psíquico, qualidade do desempenho das funções fisiológicas,
grau de satisfação nos desejos de consumo, entre muitos
outros e, como diante do rol de compras no supermercado, conferir
um a um. Naturalmente, requer tempo. Ainda mais que raro será o
item cuja avaliação se resolverá com um simples sim
ou não. A maioria suscitará dúvidas, hesitações,
ambigüidades. As respostas serão necessariamente nuançadas,
às vezes longas, requerendo esmiuçadas explicações.
Será necessário convidar o conhecido a acomodar-se e reservar
algumas horas de seu tempo para ouvir a resposta. Uma opção
será trocar o exame item por item por uma fórmula curta
e grossa. O preocupado com a justiça social responderá:
"Como posso ir bem, num mundo de miséria e iniqüidades?".
O angustiado com a efêmera condição humana repicará:
"Como posso ir bem, se tenho diante de mim o imperativo inelutável
da finitude?". Felizmente o que se requer, diante do "como vai?", não
é nada disso, mas uma polida mentira: "Vou bem, obrigado".
O hábito de as pessoas se cumprimentarem dizendo "como vai?" ocupa
breve trecho de um curioso livro lançado recentemente no Brasil,
A Euforia Perpétua, do francês Pascal Bruckner (Difel).
O livro é sobre esta praga do nosso tempo que é impor a
cada um, como máximo padrão de realização,
o dever de ser feliz. "Sejam felizes", desejam os pais aos filhos. Mas...
Como ser feliz? Como saber o que é ser feliz? Como saber se somos
felizes? Qual o critério? A obsessão por esse impossível
graal, essa miragem chamada felicidade, impõe um peso difícil
de suportar. Mas todos apregoam que ser feliz é o que importa,
e de medo de não ser, ou parecer que não se é, responde-se
ao cumprimento do amigo recitando: "Vou bem". No máximo, quando
a situação do inquirido é incontornavelmente má,
seja por um sofrimento físico, às vezes até evidente
na aparência, seja por um sofrimento moral, como a morte de um próximo,
se dirá: "Vou indo". Ou, então: "Mais ou menos".
Nem sempre, lembra o autor do livro, se usou a fórmula "como vai?".
Houve tempo em que expressões de cunho religioso, que invocavam
a proteção divina, eram empregadas pelas pessoas ao se encontrarem.
No Brasil, era corrente entoar, especialmente entre os negros e seus senhores,
ou os negros entre si, "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo", ao que
se sucedia a resposta "Para sempre seja louvado". Certas comunidades evangélicas
atuais utilizam fórmulas semelhantes. Em Israel cumprimenta-se
dizendo "Shalom", paz, e entre os árabes o quase igual Salam. Nas
línguas ocidentais prevalece o "como vai?". Na França, acrescenta
o autor, em outra preciosa informação, a expressão
teria origem nos consultórios médicos. O médico costumava
indagar ao paciente "Como vai?", querendo saber como iam as funções
intestinais, chave da saúde e do bem-estar.
O que o autor não sabe, e se soubesse teria acrescentado precioso
reforço à sua argumentação, é que no
Brasil já se foi além do "como vai?". Estamos na era do
"tudo bem". Já não se pergunta como vai, e sim, numa antecipação
da resposta positiva: "Tudo bem?". Estreita-se a opção do
interlocutor. Não se deixa a questão em aberto. Joga-se
desde logo diante dele, insidiosa e irrecusável, ainda que na forma
interrogativa, a alternativa correta, que não pode ser outra senão
a da felicidade, do prazer e do bem-estar. Ninguém ousará
cumprimentar explicitando a alternativa oposta: "Tudo mal?". A maneira
de cumprimentar com o "tudo bem?" nasceu entre os jovens, nos anos 60.
Depois expandiu-se para o conjunto da sociedade. Somos um povo abençoado.
Claro que há o dólar e o risco país desfavoráveis,
a miséria e a violência. Mas, por aqui, nem se precisa perguntar
como vai. Já avançamos o alegre, jovial e travesso "tudo
bem?", na certeza de que, da parte do interlocutor, não virá
senão a confirmação.
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