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Edição 1 771 - 2 de outubro de 2002
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O país dos incluídos

Do lado de dentro dos shopping
centers, até a economia vai bem

José Edward

 
Marisa Vianna
Aeroclube Plaza Show, em Salvador: área de 28 000 metros quadrados, com clima de festa e ruas de cidade cenográfica

Segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), o faturamento e o total de visitantes a esse tipo de estabelecimento triplicaram em uma década. Isso dá ao país a décima posição no ranking mundial do setor. Nesses dez anos, foram construídos 134 novos shoppings, que ajudaram esses empreendimentos a chegar a 434 000 empregos diretos, equivalentes aos postos de trabalho oferecidos pelos bancos. Pode-se considerar o dobro disso se a contabilidade incluir as pequenas galerias e os chamados shoppings ambulantes, que funcionam em espaços alternativos. Trata-se de uma evolução que está longe de alcançar o auge. Neste momento, há outros 22 shoppings sendo construídos no Brasil e projetos para a edificação de outros tantos.

Há dezenas de razões que explicam esse crescimento – uma delas é que ele acontece à custa de uma diminuição no comércio de rua, que junta desconforto com insegurança. A melhor explicação, porém, está no casamento das ofertas disponíveis nesses centros comerciais com os interesses das pessoas que vivem do lado de fora. Não existem mais shoppings que tenham apenas lojas de roupas nem gente que os freqüente somente para fazer um tipo de compra. É até comum encontrar nesses lugares indivíduos que saíram de casa sem a menor intenção de consumir alguma coisa – e que acabam consumindo lazer, uma mercadoria cuja oferta está em alta.


Aderi Costa
West Shopping, em Campo Grande, no Rio de Janeiro: seis salas de cinema


A médica carioca Cláudia Sousa, de 38 anos, faz compras pessoais, abastece a despensa e corta o cabelo no BarraShopping. Seus três filhos adolescentes estudam inglês, divertem-se e encontram os colegas de escola na lanchonete – no shopping. Cláudia e o marido, o psicólogo Carlos Oliveira, também freqüentam os restaurantes da praça de alimentação e de vez em quando pegam um cineminha. Somadas as visitas, a família inteira passa mais de vinte horas por semana no shopping. "É a nossa segunda casa", diz Cláudia.

Na pré-história dos shoppings, eles eram construídos para ser templos do consumo de luxo em regiões nobres das cidades, nas quais a única alternativa para aproveitar o alto poder de consumo local era empilhar as lojas. Foi assim com o pioneiro Shopping Iguatemi de São Paulo e também com o Rio Sul, no Rio de Janeiro. Alguns novos ainda vão nesse rumo, mas as possibilidades se ampliaram muito. No Shopping Taboão, inaugurado recentemente em São Paulo, o público alvo é a classe C. Enquanto o lojista do carioca Fashion Mall paga 10 000 reais por metro quadrado alugado, seu colega do Taboão desembolsa um quinto desse valor. E todos, comerciantes e clientes, seguem felizes com seus negócios.

Em cidades médias e também em algumas capitais, os shoppings se incorporaram ao processo de urbanização. Construídos em áreas distantes, praticamente vazias, a maior parte deles deu origem a grandes bairros de classe média nos quais os moradores não vêem nenhuma desvantagem em viver longe da igreja matriz. Qualquer shopping tem agência bancária e postos de serviços públicos, os últimos serviços que ainda eram capazes de levar as pessoas a cruzar cidades. Um dos mais valorizados bairros de Belo Horizonte, o Belvedere, foi erguido na última década em torno do BH Shopping. "As propriedades localizadas no entorno dos shoppings valorizam-se no mínimo quatro vezes", afirma Carlos Eduardo Gomes, presidente da Atrium Consultoria e Planejamento de Shopping.

Engraxates e academias de ginástica existem em dezenas de shoppings. O complexo do BarraShopping ocupa o equivalente a oito quarteirões e tem, além das lojas, dezenas de escritórios, trinta clínicas médicas e um hospital para pequenas cirurgias. Em Porto Alegre, o Moinhos Shopping, inaugurado em maio de 2000, abriga um hotel cinco-estrelas com 174 apartamentos, com centro de convenções e centro esportivo.

Nos últimos cinco anos, as áreas de lazer aumentaram sua participação no faturamento dos shoppings de 5% para 20%. Nos empreendimentos novos, andares inteiros são reservados para os cinemas. Nas ruas, velhos cinemas viram templos de igrejas evangélicas. Nos shoppings, em vinte anos, o total de salas de exibição subiu de 100 para 1000 unidades – mais modernas e confortáveis que os cinemões de antigamente. Surgiram também os shoppings temáticos, como o New York City Center, inaugurado há três anos no Rio de Janeiro, com 4.500 poltronas distribuídas em dezoito cinemas, além de um teatro. O Pier 21, localizado à beira do Lago Paranoá, em Brasília, é especializado em lazer e gastronomia e abriga uma boate com capacidade para 750 pessoas. São Paulo tem o Mart Noivas, com dezenas de lojas de produtos para quem vai casar – do vestido aos pacotes para lua-de-mel –, e o Auto Shopping, todo ocupado por concessionárias, oficinas, lojas de autopeças, seguradoras, financeiras, despachantes, auto-escola, agência do departamento de trânsito e pista de test drive com mais de 3 quilômetros.


Divulgação
Pátio Higienópolis, em São Paulo: com bebedouro para cães


Planejados como resorts de consumo, os shoppings são lugares em que nada acontece por acaso. Para sortear um carro, pesquisa-se antes qual modelo é o sonho dos freqüentadores. Lojas geradoras de alto tráfego estão preferencialmente instaladas do lado oposto às entradas, fazendo os clientes passarem antes por dezenas de vitrines. "A maioria das pessoas compra por impulso", explica o consultor Alberto Serrentino, especialista em varejo. Estabelecimentos de um mesmo segmento, como o de roupas juvenis, são postos lado a lado. "Homens, principalmente, não gostam de bater pernas nos shoppings", explica o presidente da Abrasce, Paulo de Barros Stewart. "É aconselhável reunir na mesma área o que pode interessá-los." Ele conta que a rede americana de lojas de conveniência 7-Eleven descobriu que após as 9 da noite as vendas de fraldas coincidiam com as de cerveja. Só homens compram fraldas à noite. A rede então passou as gôndolas de cerveja para perto das de artigos para bebês.

A arquitetura dos shoppings é cheia de truques. Floreiras, banners e quiosques limitam o campo de visão, impedindo que o cliente tenha noção da limitação do espaço. Luz natural e luz artificial se confundem, e quem não está atento pode não se dar conta da passagem do tempo. Até provadores de roupa têm ciência. "No provador, não pode haver lâmpadas com luz direta, de cima para baixo", ensina a arquiteta Laura Falzoni, especialista em ambientação de lojas. "Isso realça marcas de celulite e também deixa a pessoa mais gorda." A nova tendência nessa linha da chamada "experiência prazerosa de compra" vai além do cliente. Na região de Campinas, no interior paulista, a instalação do maior shopping da América Latina, o Parque Dom Pedro, foi precedida de pesquisa que revelou a preocupação ecológica da comunidade. Resultado: uma pequena floresta cerca o conjunto. No sofisticado Pátio Higienópolis, plantado num bairro rico e tradicional da capital paulista, há uma filial do Museu de Arte Moderna e até um bebedouro para cães.

Construídos para os incluídos da economia, os shoppings são criticados por cientistas sociais por supostamente obstruírem, para quem está do lado de dentro, também a visão de um Brasil em que a maioria não tem nem roupa para freqüentar esse tipo de ambiente. "Embora eles não sejam mais voltados apenas para os ricos, ainda atendem a uma minoria", diz Rosemare Santos Maia, professora da Escola de Serviço Social da UFRJ. Todas as pesquisas revelam, no entanto, que, quanto menor o poder aquisitivo dos freqüentadores, maior a quantidade de vezes que eles vão ao mesmo shopping. Donde se conclui que a solução para mais essa divisão social brasileira, entre os com e os sem-shopping, leva à construção de muitos outros ainda.

   
 
   
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