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O país dos
incluídos
Do lado
de dentro dos shopping
centers, até a economia vai bem
José
Edward
Marisa Vianna
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| Aeroclube
Plaza Show, em Salvador: área de 28 000 metros quadrados, com clima
de festa e ruas de cidade cenográfica |
Segundo a
Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), o faturamento
e o total de visitantes a esse tipo de estabelecimento triplicaram em
uma década. Isso dá ao país a décima posição
no ranking mundial do setor. Nesses dez anos, foram construídos
134 novos shoppings, que ajudaram esses empreendimentos a chegar a 434
000 empregos diretos, equivalentes aos postos de trabalho oferecidos pelos
bancos. Pode-se considerar o dobro disso se a contabilidade incluir as
pequenas galerias e os chamados shoppings ambulantes, que funcionam em
espaços alternativos. Trata-se de uma evolução que
está longe de alcançar o auge. Neste momento, há
outros 22 shoppings sendo construídos no Brasil e projetos para
a edificação de outros tantos.
Há
dezenas de razões que explicam esse crescimento uma delas
é que ele acontece à custa de uma diminuição
no comércio de rua, que junta desconforto com insegurança.
A melhor explicação, porém, está no casamento
das ofertas disponíveis nesses centros comerciais com os interesses
das pessoas que vivem do lado de fora. Não existem mais shoppings
que tenham apenas lojas de roupas nem gente que os freqüente somente
para fazer um tipo de compra. É até comum encontrar nesses
lugares indivíduos que saíram de casa sem a menor intenção
de consumir alguma coisa e que acabam consumindo lazer, uma mercadoria
cuja oferta está em alta.
Aderi Costa
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| West
Shopping, em Campo Grande, no Rio de Janeiro: seis salas de cinema
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A médica carioca Cláudia Sousa, de 38 anos, faz compras
pessoais, abastece a despensa e corta o cabelo no BarraShopping. Seus
três filhos adolescentes estudam inglês, divertem-se e encontram
os colegas de escola na lanchonete no shopping. Cláudia
e o marido, o psicólogo Carlos Oliveira, também freqüentam
os restaurantes da praça de alimentação e de vez
em quando pegam um cineminha. Somadas as visitas, a família inteira
passa mais de vinte horas por semana no shopping. "É a nossa segunda
casa", diz Cláudia.
Na pré-história
dos shoppings, eles eram construídos para ser templos do consumo
de luxo em regiões nobres das cidades, nas quais a única
alternativa para aproveitar o alto poder de consumo local era empilhar
as lojas. Foi assim com o pioneiro Shopping Iguatemi de São Paulo
e também com o Rio Sul, no Rio de Janeiro. Alguns novos ainda vão
nesse rumo, mas as possibilidades se ampliaram muito. No Shopping Taboão,
inaugurado recentemente em São Paulo, o público alvo é
a classe C. Enquanto o lojista do carioca Fashion Mall paga 10 000 reais
por metro quadrado alugado, seu colega do Taboão desembolsa um
quinto desse valor. E todos, comerciantes e clientes, seguem felizes com
seus negócios.
Em
cidades médias e também em algumas capitais, os shoppings
se incorporaram ao processo de urbanização. Construídos
em áreas distantes, praticamente vazias, a maior parte deles deu
origem a grandes bairros de classe média nos quais os moradores
não vêem nenhuma desvantagem em viver longe da igreja matriz.
Qualquer shopping tem agência bancária e postos de serviços
públicos, os últimos serviços que ainda eram capazes
de levar as pessoas a cruzar cidades. Um dos mais valorizados bairros
de Belo Horizonte, o Belvedere, foi erguido na última década
em torno do BH Shopping. "As propriedades localizadas no entorno dos shoppings
valorizam-se no mínimo quatro vezes", afirma Carlos Eduardo Gomes,
presidente da Atrium Consultoria e Planejamento de Shopping.
Engraxates
e academias de ginástica existem em dezenas de shoppings. O complexo
do BarraShopping ocupa o equivalente a oito quarteirões e tem,
além das lojas, dezenas de escritórios, trinta clínicas
médicas e um hospital para pequenas cirurgias. Em Porto Alegre,
o Moinhos Shopping, inaugurado em maio de 2000, abriga um hotel cinco-estrelas
com 174 apartamentos, com centro de convenções e centro
esportivo.
Nos últimos
cinco anos, as áreas de lazer aumentaram sua participação
no faturamento dos shoppings de 5% para 20%. Nos empreendimentos novos,
andares inteiros são reservados para os cinemas. Nas ruas, velhos
cinemas viram templos de igrejas evangélicas. Nos shoppings, em
vinte anos, o total de salas de exibição subiu de 100 para
1000 unidades mais modernas e confortáveis que os cinemões
de antigamente. Surgiram também os shoppings temáticos,
como o New York City Center, inaugurado há três anos no Rio
de Janeiro, com 4.500 poltronas distribuídas
em dezoito cinemas, além de um teatro. O Pier 21, localizado à
beira do Lago Paranoá, em Brasília, é especializado
em lazer e gastronomia e abriga uma boate com capacidade para 750 pessoas.
São Paulo tem o Mart Noivas, com dezenas de lojas de produtos para
quem vai casar do vestido aos pacotes para lua-de-mel , e
o Auto Shopping, todo ocupado por concessionárias, oficinas, lojas
de autopeças, seguradoras, financeiras, despachantes, auto-escola,
agência do departamento de trânsito e pista de test drive
com mais de 3 quilômetros.
Divulgação
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| Pátio
Higienópolis, em São Paulo: com bebedouro para cães |
Planejados como resorts de consumo, os shoppings são lugares em
que nada acontece por acaso. Para sortear um carro, pesquisa-se antes
qual modelo é o sonho dos freqüentadores. Lojas geradoras
de alto tráfego estão preferencialmente instaladas do lado
oposto às entradas, fazendo os clientes passarem antes por dezenas
de vitrines. "A maioria das pessoas compra por impulso", explica o consultor
Alberto Serrentino, especialista em varejo. Estabelecimentos de um mesmo
segmento, como o de roupas juvenis, são postos lado a lado. "Homens,
principalmente, não gostam de bater pernas nos shoppings", explica
o presidente da Abrasce, Paulo de Barros Stewart. "É aconselhável
reunir na mesma área o que pode interessá-los." Ele conta
que a rede americana de lojas de conveniência 7-Eleven descobriu
que após as 9 da noite as vendas de fraldas coincidiam com as de
cerveja. Só homens compram fraldas à noite. A rede então
passou as gôndolas de cerveja para perto das de artigos para bebês.
A
arquitetura dos shoppings é cheia de truques. Floreiras, banners
e quiosques limitam o campo de visão, impedindo que o cliente tenha
noção da limitação do espaço. Luz natural
e luz artificial se confundem, e quem não está atento pode
não se dar conta da passagem do tempo. Até provadores de
roupa têm ciência. "No provador, não pode haver lâmpadas
com luz direta, de cima para baixo", ensina a arquiteta Laura Falzoni,
especialista em ambientação de lojas. "Isso realça
marcas de celulite e também deixa a pessoa mais gorda." A nova
tendência nessa linha da chamada "experiência prazerosa de
compra" vai além do cliente. Na região de Campinas, no interior
paulista, a instalação do maior shopping da América
Latina, o Parque Dom Pedro, foi precedida de pesquisa que revelou a preocupação
ecológica da comunidade. Resultado: uma pequena floresta cerca
o conjunto. No sofisticado Pátio Higienópolis, plantado
num bairro rico e tradicional da capital paulista, há uma filial
do Museu de Arte Moderna e até um bebedouro para cães.
Construídos
para os incluídos da economia, os shoppings são criticados
por cientistas sociais por supostamente obstruírem, para quem está
do lado de dentro, também a visão de um Brasil em que a
maioria não tem nem roupa para freqüentar esse tipo de ambiente.
"Embora eles não sejam mais voltados apenas para os ricos, ainda
atendem a uma minoria", diz Rosemare Santos Maia, professora da Escola
de Serviço Social da UFRJ. Todas as pesquisas revelam, no
entanto, que, quanto menor o poder aquisitivo dos freqüentadores,
maior a quantidade de vezes que eles vão ao mesmo shopping. Donde
se conclui que a solução para mais essa divisão social
brasileira, entre os com e os sem-shopping, leva à construção
de muitos outros ainda.
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