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"Os advogados vetaram a palavra 'ativismo' por temer confusão com 'terrorismo'. Não só continuei a usá-la como criei um perfume, o Activist" |
Foi em frascos de plástico, como os usados para coletar urina, que a inglesa Anita Roddick, filha de imigrantes italianos, começou a vender cosméticos naturais numa cidadezinha da Inglaterra, em 1976. Ela tinha 33 anos e duas filhas. Hoje, sua empresa, The Body Shop, tem mais de 1 900 lojas em cinqüenta países e faturou 1 bilhão de dólares no ano passado. O Wall Street Journal colocou Anita, agora com 59 anos, entre as trinta mulheres mais influentes no mundo dos negócios na Europa. The Body Shop é uma marca-símbolo do politicamente correto contribui para causas verdes, faz campanha antiglobalização e jamais testa seus produtos em animais. Como mulher, Anita odeia a indústria da beleza e despreza a cirurgia plástica. Em fevereiro deste ano, ela deixou a presidência de sua empresa. "Estava me sentindo isolada", diz. "Fico cada vez mais radical à medida que envelheço." Nesta semana ela estará no Brasil para lançar seu livro Meu Jeito de Fazer Negócios (Negócio Editora). Anita falou a VEJA em Littlehampton, sua cidade natal, a duas horas de Londres. É ali que se refugia com o escocês Gordon Roddick, marido e sócio, numa casa magnífica no meio de uma floresta.
Veja A senhora se desiludiu com a Body Shop?
Anita
Não é isso. Sou a maior acionista, continuo no conselho
administrativo e sou consultora da empresa oitenta dias por ano. Mas deixei
a presidência porque o que estou fazendo agora é muito político.
Meu último livro, Take It Personally, é um libelo
contra a globalização e contra o trabalho infantil. Eu não
queria ficar na Body Shop me sentindo como uma metralhadora velha, atirando
em todas as direções. Abaixo o tédio e a chatice.
Há três anos eu me lembro de ter dito que "nós temos
de ser a companhia internacional que desafia a globalização".
Temos de fazer com que todos os nossos consumidores assinem petições
para descobrir quem está por trás da Organização
Mundial do Comércio.
Veja Antes, quando a empresa era menor, seu controle sobre
ela era maior?
Anita
Nós tínhamos mais lucros quando agíamos de forma
não convencional. Quando transformávamos nossas lojas em
lugares polêmicos, tínhamos humor no trabalho e desafiávamos
os governos, as pessoas tinham curiosidade em saber o que estávamos
aprontando, sentiam-se parte de um projeto, tanto os funcionários
quanto os clientes. E isso não era uma estratégia de marketing.
A Body Shop era uma empresa de comunicação, com especialidade
no ramo de cosméticos, que fazia dinheiro com seus projetos e reinvestia
em campanhas pelos direitos humanos. Agora se tornou uma companhia que
vende produtos e que extrai parte dos lucros para investir em questões
importantes para a humanidade.
Veja Para quem a senhora escreveu Meu Jeito de Fazer
Negócios?
Anita
Especialmente para mulheres que querem abrir o próprio negócio.
Porque, se eu pude construir o que consegui, sem jamais ter freqüentado
uma escola de administração ou de economia, então
qualquer mulher pode, desde que seja empreendedora, criativa e determinada.
O livro é dedicado aos marqueteiros, que vão perguntar-se
como é que eu consegui construir a 27ª marca mais respeitada
no mundo sem pagar um centavo em campanhas de publicidade.
Veja Que conselho a senhora daria a quem está abrindo
um negócio?
Anita
Uma área que está aí para ser explorada é
qualquer serviço ou produto que amenize a solidão. Em todo
lugar, percebo entre os mais velhos, ou entre mães e pais solteiros,
uma enorme onda de solidão. As pessoas estão sós,
vendo televisão, reunindo-se pouco com amigos. Há uma carência
de negócios voltados para essa necessidade vital de relacionamento.
Muitas doenças são causadas pela depressão de seres
sozinhos. Mulheres têm vivido mais que homens. Nós já
redefinimos todas as idades, 50, 60, 70 e, agora, 80. Essas pessoas querem,
por exemplo, aprender a usar o computador. E não têm como.
Turismo é mais uma área mal explorada. Outro conselho: peçam
ajuda e orientação.
Veja Algumas de suas frustrações resultaram
do confronto com outros ambientes. O que deu errado com os caiapós,
índios brasileiros que a senhora tanto apoiou?
Anita
Tudo
deu certo com os caiapós no que se refere ao negócio da
extração de castanhas. Mas eu não gosto dos caiapós.
É difícil gostar deles, porque são um grupo machista.
Eles adoram testosterona. (Meu marido) Gordon chega lá e
eles fazem festa, bajulam. Comigo é diferente. E, além disso,
eles são gananciosos, gostam demasiadamente de dinheiro, de consumo.
Mas o importante é que nós não os abandonamos. Estamos
há treze anos financiando projetos de uma comunidade frágil,
entre eles um de turismo, auto-sustentável. Gastamos milhões
para ajudá-los, pegamos dinheiro de nossa fundação,
só para manter a comunidade viva e autônoma.
Veja Não foram uma decepção o escândalo
e a condenação do cacique caiapó Paulinho Paiakan
por estupro, nos anos 90?
Anita
Nós
nunca conseguimos saber toda a verdade. Foi um pesadelo. Claro que precisamos
tirar das prateleiras os braceletes caiapós nos quais tínhamos
investido muito dinheiro, mas o importante é que a gente conseguiu
separar o que está contaminado da parte pura da comunidade.
Veja Entre os erros internos que a senhora diz que cometeu
no comando da Body Shop está a contratação de consultores.
Por quê?
Anita
Perdemos 2 milhões de dólares e dezoito meses com um consultor
famoso. Toda empresa é precipitada demais ao contratar consultores.
Afinal, para um casamento dar certo, você tem de ir para a cama
antes para saber se gosta. O certo seria dizer o seguinte: vamos passar
seis meses juntos na empresa e ver se dá certo. E oferecer ao consultor
uma lista de questões inegociáveis. E essa mania de pesquisas
qualitativas? Você paga a pessoas para dizer o que elas pensam que
você quer ouvir. Não existe desperdício maior de tempo
e dinheiro.
Veja Se a Body Shop nascesse agora, teria o mesmo êxito?
Anita
Acho que sim. Nos anos 80, quando crescia a Body Shop, ela se beneficiou
de uma conscientização maior sobre a ecologia, a ascensão
dos verdes na Europa. Agora há outra coisa. As pessoas estão
odiando as grandes marcas. Existe uma rebeldia contra as enormes corporações,
contra o abuso de poder do capital, contra os outdoors que roubam o espaço
civil do cidadão. O grande movimento, hoje, baseia-se nos negócios
locais, regionais. As pessoas querem comprar legumes e frutas da estação,
em vez de encontrar nas prateleiras morangos o ano inteiro. As famílias
buscam férias ecológicas.
Veja A militância política pode conviver tranqüilamente
com o comércio?
Anita
Não
só pode, mas deve. O consumidor consciente quer saber o que está
por trás do que ele está comprando, se há exploração,
se há materiais danosos para o ambiente, se existe ética
ou não. As pessoas estão mais conscientes agora. Quando
o departamento jurídico da Body Shop vetou a palavra "ativismo"
no relatório anual da empresa, argumentando que podia ser associada
a terrorismo, eu não só disse que a usaria sempre que quisesse
como criei um perfume, o Activist.
Veja A senhora está arrependida de ter aberto o capital
de sua empresa, em 1985?
Anita
Foi uma decisão política. Não queríamos ser
vistos como uma empresa bizarra. Foi maravilhoso nos primeiros dez anos.
Enquanto as ações só sobem vertiginosamente, tudo
vai bem. O preço da entrada na bolsa é que, de repente,
a empresa se viu diante de "imposições", como a de dobrar
os lucros em um ano. É aquela pressão constante por um desempenho
financeiro. E a definição de lucro, apenas em cima de fatias
do mercado ou em cifras? Por que não definir lucros com base em
critérios mais subjetivos e idealistas, como a criação
de uma melhor qualidade de vida? Com o capital aberto, é mais difícil
ousar, arriscar. Como uma empresa fechada, eu podia dar o dinheiro que
quisesse ao Greenpeace ou a alguma organização de direitos
humanos e ninguém ficava sabendo.
Veja Existem qualidades femininas na condução
de uma empresa ou isso é um mito?
Anita
Os valores femininos são o diálogo, a abertura, a não-hierarquia,
uma linguagem que transcende puramente o trabalho e a gentileza. As mulheres
desconfiam do poder e de suas armadilhas. As metáforas do sucesso,
o carro último tipo, a secretária faz-tudo, o escritório
luxuoso seduzem muito mais o homem. Mas é claro que existem mulheres
que, infelizmente, assumem o lado masculino quando estão no poder.
Veja Existe algum creme em sua cabeceira?
Anita
Claro que sim, mas naturais. A indústria da beleza, eu odeio. Porque
mente. É uma estupidez gastar 60 dólares num creme anti-rugas.
Eu uso três produtos da Body Shop. Sal, óleo e mel. Esfrego
para renovar as células e hidrato. Só. Porque a pele da
gente fica mais seca e precisa de hidratação. E a outra
coisa que eu faço é pintar o cabelo. Não consigo
me acostumar à idéia de permitir que meu cabelo fique grisalho
ou branco. Mas este rosto que você está vendo é um
rosto de 60 anos, não é de 20 nem de 30.
Veja Qual é sua opinião sobre cirurgia plástica?
Anita
Tenho
amigas inteligentes que fazem e dizem se sentir bem. Mas eu não
quero chegar aos 70 como uma figura exótica, com aquela cara sem
expressão, deixar uma faca entrar no meu rosto para me esticar,
enquanto tem tantas partes do meu corpo, como os cotovelos, as mãos,
os joelhos, que denunciam a idade. Não faz sentido.
Veja Toda revista feminina sabe que celulite na capa aumenta
as vendas. É uma maluquice das mulheres?
Anita
Para mim, foi a Itália que começou com essa mania. Mulheres
retêm líquido, não tem jeito. Magras ou gordas, acabam
com celulite em maior ou menor grau. A única coisa a fazer é
esfregar, massagear a pele com um pano áspero e sal para ativar
a circulação. E a mídia alimenta, sim, essa obsessão,
tirando fotos com uma luz tal que salienta a celulite. Nenhuma revista
ressalta a pele envelhecida dos homens, só a das mulheres.
Veja Qual foi o papel de seu marido na Body Shop e qual o
segredo de 32 anos de casamento bem-sucedido, mesmo tendo sido sócios
e parceiros a vida inteira?
Anita
É muito difícil dar certo se só a mulher se torna
uma personalidade no mundo dos negócios. Gordon sempre foi respeitado
pelas instituições financeiras, sempre foi o grande planejador
e estrategista e, além disso, ele tem os próprios projetos.
Veja É possível ensinar alguém a ser
um empreendedor?
Anita
Não se ensina a obsessão nem a ficar sintonizado o tempo
todo. Dificilmente algum rico pode virar empreendedor. Eles não
têm a fome necessária, nunca estiveram à margem. Por
isso imigrantes conseguem grandes fortunas, tornam-se empresários
de sucesso. Conhecem a sensação de não pertencer
à comunidade. Eu vim de uma família de classe baixa, trabalhadora.
Éramos os únicos italianos na cidade. E toda a minha vida
foi sinônimo de trabalho. Nada de lazer nem de divertimento. Eu
trabalhava na cafeteria de minha mãe. Nunca tirei férias
com a família. O empreendedor é movido pela mesma paixão
de um artista ou de um escritor.
Veja Sua convicção é de que um código
de ética será implementado globalmente pelas grandes empresas.
Não é uma utopia?
Anita
Vai acontecer. E estamos vendo só a ponta do iceberg. Toda essa
desilusão com consultores, com a maneira de administrar, com seu
papel na sociedade. A reputação do negócio será
discutida nos escritórios centrais dos conglomerados como um valor
essencial. A melhor imagem é a honestidade. A população
pressionará por isso. Reputação, reputação,
reputação, é a única parte imortal do homem.
É uma citação emprestada de Otelo (de William
Shakespeare).
Veja Quando a senhora lançou produtos à base
de cânhamo, planta da família da maconha, foi acusada de
estimular o uso de drogas. Em sua opinião, o consumo e o comércio
da maconha deveriam ser legalizados?
Anita
A marijuana não é uma droga, em minha opinião. Deveria
estar no mesmo nível do álcool e do fumo, com a ressalva
de que estes dois últimos vícios matam. Claro que é
necessário advertir contra o uso excessivo. Se você fuma
muita maconha, fica bobão, estúpido. Se bebe muito álcool,
além de ficar bobo, passa mal e morre. E, se fuma muito cigarro,
você morre.
Veja A senhora já foi considerada uma das mulheres
mais ricas da Inglaterra, em 1993. Ainda é?
Anita
Isso depende do valor de minhas ações. No momento, valem
aproximadamente 1 libra cada uma. Já valeram o triplo.
Veja Por que, na contratação de funcionários,
uma das perguntas do questionário-padrão é "como
você gostaria de morrer"?
Anita
Quem me inspirou foi Marcel Proust, o grande filósofo francês.
Meu funeral será ao ar livre, a música, de Bruce Springsteen.
Os detalhes já estão todos definidos. E minhas filhas não
herdarão nada da empresa. Foi uma decisão de comum acordo
na família. Temos uma casa incrível aqui em Littlehampton,
outra na Califórnia, elas têm os próprios negócios,
suas casas. Minhas filhas também querem que as ações
da Body Shop beneficiem grupos de direitos humanos, comunidades de base
e teólogos da libertação.
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