Geral Religião

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Descoberta a 17a lua de Júpiter
A estação espacial ganha mais um módulo
Mais barata, a Maserati com tecnologia de Ferrari
Viciada distribui camisinhas e seringas a drogados
Presidente Prudente prepara atletas para Sydney
O sucesso de um vestido de Versace
Sapatos seguem a moda e só servem para uma estação
Nova espécie de dinossauro descoberta no Ceará
O senador Pedro Simon caminha 136 quilômetros
Stephen King vende livro por capítulos na rede mundial
Assalto cinematográfico em prédio de São Paulo
A queda do Concorde
Economia e Negócios
Guias
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura e Castro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

O senador peregrino

O gaúcho Pedro Simon faz voto
de pobreza e anda 136 quilômetros
em penitência no Ceará


Mônica Weinberg

O senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho, realizou na semana passada um feito raro entre os políticos. Aos 70 anos, calçou um par de sandálias e percorreu a pé, em seis dias, os 136 quilômetros entre Fortaleza e Canindé, no sertão cearense, junto com outros 500 peregrinos. Dormiu sobre um colchão ao relento e viveu a pão, água e leite. A exceção foi uma sacola de bananas e maçãs que um casal de amigos doou a Simon no meio da caminhada, e que ele repartiu com outros quarenta andarilhos. Perdeu 3 quilos e torceu o pé direito. Teve de andar um terço do percurso com uma bota improvisada de gaze e a ajuda de um cajado. Tomou banho de caneca em pias de restaurantes e escolas à beira da estrada. O senador já tinha feito romarias em Lourdes (França), Guadalupe (México), Fátima (Portugal) e Jerusalém. Mas nenhuma delas se comparou à longa e fatigante jornada no Ceará. "Resolvi peregrinar porque precisava meditar", explicou. "No sertão, me senti mais perto de Deus."

Nascido em uma família de libaneses católicos de Caxias do Sul, Pedro Simon foi vereador, deputado estadual, governador do Rio Grande do Sul e ministro. Ajudou a fundar o MDB, o partido que se opunha ao regime militar, e, ao lado de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, liderou a campanha pela volta das eleições diretas, em 1984. Hoje é conhecido no Senado pela retórica inflamada e pelos gestos teatrais que usa em seus discursos. No Brasil, é muito comum políticos em véspera de eleição irem à missa e se aproximarem de bispos e pastores em busca de votos. É compreensível: num país com tantos católicos e evangélicos, a religião é um poderoso cabo eleitoral. O caso de Simon é diferente. A sua religiosidade tem raízes em duas tragédias que marcaram sua vida. A primeira foi a morte do filho caçula, Mateus, em um acidente de carro, em 1984. Um ano e meio mais tarde, ele perdeu a mulher, Tânia. Ela estava dirigindo o carro quando o filho morreu e entrou numa depressão profunda da qual nunca conseguiu recuperar-se. Tânia morreu numa clínica, vítima de infarto.

Encontro milagroso – Duas perdas, em tão pouco tempo, causaram grande impacto no senador. Segundo contam os amigos, depois da morte do filho, Simon começou a se sentir vítima de alguma injustiça divina. Muito deprimido, dizia não ter mais ânimo para viver. Foi nessa época que, segundo o relato do próprio senador, um encontro produziu o efeito de um milagre na sua vida. Na missa de sétimo dia de Mateus, o então arcebispo de Porto Alegre, dom Vicente Scherer, hoje já falecido, aproximou-se de Simon: "Pedro, tenho rezado muito para Deus olhar para ti". O cardeal ouviu uma resposta quase em tom de blasfêmia. "Agradeço, mas não peça a Deus olhar para mim porque, toda vez que isso acontece, ele me dá uma paulada", disse-lhe o hoje senador. O cardeal ficou em silêncio mas, no dia seguinte, apareceu às 6 da manhã na casa de Simon. E só saiu de lá às 10 da noite. Durante dezesseis horas, dom Vicente ouviu as queixas de Simon e procurou consolá-lo. "Ele me explicou que meu filho já havia cumprido sua passagem por aqui e que eu precisava entender e aceitar isso", lembra o senador. Simon conta que, ao final da conversa, era outro homem. Foi como uma segunda conversão. "Aquele encontro foi fundamental para me reconciliar com a fé", afirma.

Desde então, Pedro Simon tornou-se um homem profundamente religioso. Passou a rezar e a ir à igreja quase todos os dias. Seus assessores têm sempre à mão uma lista com igrejas e horários de missa em todas as cidades para onde ele viaja. Há dois anos, começou a estudar os ensinamentos de São Francisco de Assis, o santo que pregava a vida simples e o amor à natureza. Recentemente, aderiu à Ordem Terceira de São Francisco, irmandade que já abrigou em suas fileiras nomes famosos, como os imperadores dom Pedro I e dom Pedro II e os presidentes Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves (veja quadro). Dentro de três anos, Simon será alçado à categoria de professo dentro da Ordem – uma espécie de doutor franciscano. No pescoço carrega sempre o tau, a cruz de madeira que é símbolo da Ordem. Na maleta tem um livrinho chamado O Devocionário da Família Franciscana. "São Francisco é o homem do novo milênio", explica o senador. "Busco, como ele, uma vida mais singela."

"Bom preparo físico" – Ao aderir à Ordem de São Francisco, Simon também fez votos de pobreza, embora não de forma tão radical quanto à do santo de sua devoção: ele começou a distribuir seus bens entre os familiares. Às duas irmãs, Salem e Hilda, doou sua parte na sociedade em uma cadeia de lojas femininas em Porto Alegre, herança de família. Aos dois filhos, Tomás, 28 anos, e Thiago, 30, deu de presente a casa de praia em Rainha do Mar, litoral do Rio Grande do Sul, além do apartamento de três quartos em Porto Alegre, onde morou durante quarenta anos, inclusive quando era governador. Hoje, ele mora em Brasília com a segunda mulher, Ivete, de 39 anos, com quem tem um filho de 6. Os três vivem num apartamento funcional do Congresso, de três quartos. Há pouco tempo, Simon doou 3.600 reais para a compra de um vitral da igreja que freqüenta quando está em Porto Alegre. Foi uma surpresa para os fiéis, que costumavam chamá-lo de "turco pão-duro" pela escassa generosidade durante as coletas da igreja. Também parou de pintar os cabelos. "Não tem mais a ver com este momento da minha vida", explica.

A trilha de peregrinação percorrida no Ceará pelo senador gaúcho é muito popular entre os franciscanos. Todo ano atrai cerca de 100.000 romeiros. Em Canindé está situado o segundo maior santuário de São Francisco do mundo. Perde apenas para o de Assis, na Itália, a cidade onde o santo nasceu e viveu. O pátio da igreja cearense tem capacidade para alojar até 70.000 peregrinos ao mesmo tempo. Antes de se lançar à caminhada no sertão, Simon fez um check-up completo para se assegurar de que chegaria inteiro ao destino. Passou com louvores. "Ele caminha todas as manhãs e tem bom preparo físico", conta a mulher do senador. "O médico já disse que, se quiser, ele tem saúde para fazer três peregrinações como essa."

 

Outros franciscanos famosos
na história do Brasil

Fotos J. B. Perillo, Joel Maia, Antonio Andrade, Orlando Brito
Dom
Pedro II
Juscelino Kubitschek Carlos
Lacerda
 

Eurico Gaspar Dutra

Tancredo
Neves

Com reportagem de Mônica Bidese

Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  Eu digo o que penso

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco