O senador peregrino
O
gaúcho Pedro Simon faz voto
de pobreza e anda 136 quilômetros
em penitência no Ceará

Mônica
Weinberg
O senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho, realizou na semana
passada um feito raro entre os políticos. Aos 70 anos, calçou
um par de sandálias e percorreu a pé, em seis dias,
os 136 quilômetros entre Fortaleza e Canindé, no sertão
cearense, junto com outros 500 peregrinos. Dormiu sobre um colchão
ao relento e viveu a pão, água e leite. A exceção
foi uma sacola de bananas e maçãs que um casal de
amigos doou a Simon no meio da caminhada, e que ele repartiu com
outros quarenta andarilhos. Perdeu 3 quilos e torceu o pé
direito. Teve de andar um terço do percurso com uma bota
improvisada de gaze e a ajuda de um cajado. Tomou banho de caneca
em pias de restaurantes e escolas à beira da estrada. O senador
já tinha feito romarias em Lourdes (França), Guadalupe
(México), Fátima (Portugal) e Jerusalém. Mas
nenhuma delas se comparou à longa e fatigante jornada no
Ceará. "Resolvi peregrinar porque precisava meditar", explicou.
"No sertão, me senti mais perto de Deus."
Nascido
em uma família de libaneses católicos de Caxias do
Sul, Pedro Simon foi vereador, deputado estadual, governador do
Rio Grande do Sul e ministro. Ajudou a fundar o MDB, o partido que
se opunha ao regime militar, e, ao lado de Ulysses Guimarães
e Tancredo Neves, liderou a campanha pela volta das eleições
diretas, em 1984. Hoje é conhecido no Senado pela retórica
inflamada e pelos gestos teatrais que usa em seus discursos. No
Brasil, é muito comum políticos em véspera
de eleição irem à missa e se aproximarem de
bispos e pastores em busca de votos. É compreensível:
num país com tantos católicos e evangélicos,
a religião é um poderoso cabo eleitoral. O caso de
Simon é diferente. A sua religiosidade tem raízes
em duas tragédias que marcaram sua vida. A primeira foi a
morte do filho caçula, Mateus, em um acidente de carro, em
1984. Um ano e meio mais tarde, ele perdeu a mulher, Tânia.
Ela estava dirigindo o carro quando o filho morreu e entrou numa
depressão profunda da qual nunca conseguiu recuperar-se.
Tânia morreu numa clínica, vítima de infarto.
Encontro
milagroso Duas perdas, em tão pouco tempo, causaram
grande impacto no senador. Segundo contam os amigos, depois da morte
do filho, Simon começou a se sentir vítima de alguma
injustiça divina. Muito deprimido, dizia não ter mais
ânimo para viver. Foi nessa época que, segundo o relato
do próprio senador, um encontro produziu o efeito de um milagre
na sua vida. Na missa de sétimo dia de Mateus, o então
arcebispo de Porto Alegre, dom Vicente Scherer, hoje já falecido,
aproximou-se de Simon: "Pedro, tenho rezado muito para Deus olhar
para ti". O cardeal ouviu uma resposta quase em tom de blasfêmia.
"Agradeço, mas não peça a Deus olhar para mim
porque, toda vez que isso acontece, ele me dá uma paulada",
disse-lhe o hoje senador. O cardeal ficou em silêncio mas,
no dia seguinte, apareceu às 6 da manhã na casa de
Simon. E só saiu de lá às 10 da noite. Durante
dezesseis horas, dom Vicente ouviu as queixas de Simon e procurou
consolá-lo. "Ele me explicou que meu filho já havia
cumprido sua passagem por aqui e que eu precisava entender e aceitar
isso", lembra o senador. Simon conta que, ao final da conversa,
era outro homem. Foi como uma segunda conversão. "Aquele
encontro foi fundamental para me reconciliar com a fé", afirma.
Desde
então, Pedro Simon tornou-se um homem profundamente religioso.
Passou a rezar e a ir à igreja quase todos os dias. Seus
assessores têm sempre à mão uma lista com igrejas
e horários de missa em todas as cidades para onde ele viaja.
Há dois anos, começou a estudar os ensinamentos de
São Francisco de Assis, o santo que pregava a vida simples
e o amor à natureza. Recentemente, aderiu à Ordem
Terceira de São Francisco, irmandade que já abrigou
em suas fileiras nomes famosos, como os imperadores dom Pedro I
e dom Pedro II e os presidentes Juscelino Kubitschek e Tancredo
Neves (veja quadro). Dentro de três
anos, Simon será alçado à categoria de professo
dentro da Ordem uma espécie de doutor franciscano.
No pescoço carrega sempre o tau, a cruz de madeira que é
símbolo da Ordem. Na maleta tem um livrinho chamado O
Devocionário da Família Franciscana. "São
Francisco é o homem do novo milênio", explica o senador.
"Busco, como ele, uma vida mais singela."
"Bom
preparo físico" Ao aderir à Ordem de São
Francisco, Simon também fez votos de pobreza, embora não
de forma tão radical quanto à do santo de sua devoção:
ele começou a distribuir seus bens entre os familiares. Às
duas irmãs, Salem e Hilda, doou sua parte na sociedade em
uma cadeia de lojas femininas em Porto Alegre, herança de
família. Aos dois filhos, Tomás, 28 anos, e Thiago,
30, deu de presente a casa de praia em Rainha do Mar, litoral do
Rio Grande do Sul, além do apartamento de três quartos
em Porto Alegre, onde morou durante quarenta anos, inclusive quando
era governador. Hoje, ele mora em Brasília com a segunda
mulher, Ivete, de 39 anos, com quem tem um filho de 6. Os três
vivem num apartamento funcional do Congresso, de três quartos.
Há pouco tempo, Simon doou 3.600
reais para a compra de um vitral da igreja que freqüenta quando
está em Porto Alegre. Foi uma surpresa para os fiéis,
que costumavam chamá-lo de "turco pão-duro" pela escassa
generosidade durante as coletas da igreja. Também parou de
pintar os cabelos. "Não tem mais a ver com este momento da
minha vida", explica.
A
trilha de peregrinação percorrida no Ceará
pelo senador gaúcho é muito popular entre os franciscanos.
Todo ano atrai cerca de 100.000 romeiros.
Em Canindé está situado o segundo maior santuário
de São Francisco do mundo. Perde apenas para o de Assis,
na Itália, a cidade onde o santo nasceu e viveu. O pátio
da igreja cearense tem capacidade para alojar até 70.000
peregrinos ao mesmo tempo. Antes de se lançar à caminhada
no sertão, Simon fez um check-up completo para se assegurar
de que chegaria inteiro ao destino. Passou com louvores. "Ele caminha
todas as manhãs e tem bom preparo físico", conta a
mulher do senador. "O médico já disse que, se quiser,
ele tem saúde para fazer três peregrinações
como essa."
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Com
reportagem de Mônica Bidese
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