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Stephen
Kanitz
A
crise do Senado
"Dizia-se
que o Parlamento alemão sob
Bismarck era fraco porque era constituído
por parlamentares ineptos. Para Max Weber,
era a fraqueza política do Parlamento que
atraía para seu seio políticos medíocres"
A
quebra do sigilo da votação dos senadores e o descrédito do atual presidente
do Senado e de seu antecessor deixarão marcas mais profundas que as arestas
dos fatos apontados nas últimas semanas. A perspectiva de destituição
de mandatos induz os principais acusados de fraude e improbidade a anunciar
retaliações contra seus adversários. No final da linha desenha-se o enfraquecimento
do Senado em particular e do Congresso em geral.
O
papel do Senado na política brasileira evoluiu consideravelmente nas últimas
décadas. Quando a ditadura suprimiu as principais eleições diretas no
nível federal, estadual e municipal, a escolha senatorial se transformou
na maior eleição de voto majoritário realizada no país. Nesse contexto,
no pleito de novembro de 1974, ao carregar a maioria de seus votos nos
candidatos do MDB ao Senado, a oposição democrática iniciou a derrocada
do autoritarismo. Diante de biônicos de todo calibre e de presidentes-generais
armados de quatro estrelas, os senadores detinham a plena legitimidade
do sufrágio direto. No meio tempo, e até as primeiras eleições diretas
para governador, em 1982, o Senado atingiu o auge de seu prestígio na
história republicana. Em seguida, ao lado dos novos governadores, os senadores
ajudaram a assegurar a estabilidade governamental nas presidências malandantes
e malogradas que se sucederam.
Ocorre
que o reeleitoralismo presidencial veio juntar-se à prática insidiosa
das medidas provisórias para desequilibrar o quadro institucional em detrimento
do Senado, do Congresso e em favor do Executivo. Afora o ônus financeiro
da sustentação do real numa taxa de câmbio eleitoreira, a campanha reeleitoralista
deixou outras bombas de retardamento, na medida em que gerou relações
de clientelismo escuso entre a Presidência da República e sua base parlamentar.
O cenário da crise no Senado propicia represálias que trarão de volta
aos jornais episódios mal resolvidos do atual governo. A alegada compra
de votos para a aprovação da emenda constitucional sobre a reeleição,
em 1997, é um desses episódios. Geralmente filiados ao PFL na época dos
fatos, vários parlamentares, o ex-governador do Acre Orleir Cameli e o
governador do Amazonas, Amazonino Mendes, devem ser interrogados pela
Polícia Federal sobre as denúncias. O pivô do caso, o ex-deputado Ronivon
Santiago, já ameaçou "contar tudo" a respeito da emenda da reeleição.
O
eleitorado brasileiro, que em novembro de 1974 e noutras ocasiões utilizou
magistralmente o direito do voto para escolher senadores e deputados que
honraram a democracia e encheram de orgulho toda uma geração, assiste
agora ao espetáculo constrangedor proporcionado por membros da Câmara
alta. O exame rigoroso da crise atual pressupõe a revisão da prática das
medidas provisórias e dos procedimentos que viciam as relações entre o
Congresso e o Executivo. O presidente da República e seu partido são adeptos
do parlamentarismo (embora seja patético constatar que o próprio líder
do governo no Senado desonra as atividades parlamentares). A maioria esmagadora
do eleitorado brasileiro votou a favor do presidencialismo. Ninguém, entretanto,
tem interesse no aviltamento do Congresso.
Sociólogo
lido e apreciado no Palácio do Planalto, Max Weber deixou estudos notáveis
sobre o papel do Legislativo nas democracias contemporâneas. Escrevendo
sobre o Parlamento alemão sob o chanceler Bismarck (1871-1890), Weber
apontava o problema de fundo. Dizia-se que o Parlamento alemão era fraco
porque era constituído por parlamentares ineptos. Para Weber, a relação
de causalidade devia ser invertida: era a fraqueza política do Parlamento
que atraía para seu seio políticos medíocres. A norma weberiana também
vale para o Brasil: só um Congresso plenamente responsável de suas atribuições
constitucionais poderá libertar os senadores e os deputados do clientelismo
e da mediocridade.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador
(lfa@workmail.com)
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