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Bonito e com conteúdo

A autora Edith Wharton ganha
um filme à altura de sua obra

Isabela Boscov

Nove entre dez aventureiros que se dispõem a adaptar os grandes novelistas do século XIX e início do século XX – como Jane Austen, Henry James e E.M. Forster – sucumbem à mesma armadilha. Preocupam-se tanto com a reconstituição da época e dos ambientes suntuosos retratados por esses autores que deixam de dar a devida atenção ao principal: os dramas, sempre imensos, dos seus personagens. Até Martin Scorsese já patinou nesse gelo fino, com A Idade da Inocência, tirado de um livro de Edith Wharton. Pois a escritora acaba de ganhar uma versão à altura de sua obra. A Essência da Paixão (The House of Mirth, Estados Unidos/Inglaterra, 2000), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro, é um triunfo do ponto de vista dos cenários, mas sabe colocá-los em seu lugar certo – o de meros coadjuvantes. O que realmente enche a tela, aqui, é o terrível drama da protagonista.

Ambientado entre 1905 e 1907 e dirigido pelo inglês Terence Davies, o filme narra a história de Lily Bart (Gillian Anderson, da série Arquivo X), uma socialite americana que comete três pecados: é uma romântica, tem pouco dinheiro e não sabe esconder de seu círculo sua precária situação financeira. Lily precisa se casar, e rápido, antes que sua tia rica e severa saiba de suas dívidas – contraídas em jogos de bridge ou devido à má-fé alheia – e antes que sua fama de caça-dotes se espalhe mais. O problema é que Lily é péssima em golpes do baú. Acha um candidato carola demais, outro sofisticado de menos, e vai dispensando a todos. A verdade é que ela está apaixonada. E é correspondida, mas só até certo ponto. O advogado Lawrence (Eric Stoltz), seu escolhido, não tem fortuna suficiente que lhe permita casar com uma mulher sem dote nenhum a oferecer. O diretor arma essa trama como se ela fosse o tabuleiro de um jogo, no qual a hipocrisia é a principal tática e Lily, a peça que ninguém hesita em sacrificar. Com tantos flancos abertos, ela é um peão a serviço de todos os interesses imorais e escusos representados por seus "amigos". Mas, entre todos eles, é a única que parece agir de forma censurável. Como Edith Wharton e Terence Davies deixam claro, é o que basta para arruinar a vida de qualquer um. Poucos filmes expressam tão bem as opressivas convenções sociais dessa época quanto A Essência da Paixão. E poucas atrizes se sairiam tão bem no papel de Lily, tão menos esperta do que se julga, quanto Gillian Anderson. Para ela, ao menos, deve haver vida depois de Arquivo X.

 

   
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