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Na semana
passada, ninguém acompanhou a crise da violação do
painel eletrônico com alívio semelhante ao do presidente
do Senado, Jader Barbalho, do PMDB do Pará. Afinal, depois de algumas
semanas, foi a primeira vez que os holofotes da mídia saíram
de sua cabeça. Voltaram-se, agora com insistência redobrada,
para a dramática situação dos senadores José
Roberto Arruda e Antonio Carlos Magalhães, cujos mandatos correm
o risco de cassação. Além disso, Jader pôde
contemplar seu inimigo número 1, ACM, sentado no banco dos réus,
depois de tê-lo torturado durante meses com denúncias pesadas,
na tentativa de barrar sua eleição para a presidência
do Senado. Há outro lado nessa história. ACM e Arruda podem
perder o mandato por terem mentido aos colegas no caso da violação
do painel do Senado. Assim, se os senadores tomarem a iniciativa de acionar
a guilhotina nos pescoços de ACM e Arruda, a próxima cabeça
a rolar poderá ser a dele próprio, Jader Barbalho, e pelo
mesmo motivo: as mentiras.
Até agora, há diferenças na situação dos três parlamentares. A primeira é que os outros dois já vieram a público confessar que estavam mentindo, ou ao menos admitiram parte das mentiras. Jader, não. Existem evidências de que mentiu aos colegas, mas o senador jamais assumiu ter faltado com a verdade em ponto algum. Além disso, as suspeitas que giram em torno de sua biografia são de uma gravidade abissal. Antes mesmo de ter sido eleito presidente do Senado, Jader apareceu como dono de um patrimônio pessoal de, no mínimo, 30 milhões de reais. Nunca conseguiu explicar como fez tal fortuna tendo se dedicado sempre à vida pública. Só tentou se justificar depois que estava eleito para o comando do Senado. E, num discurso proferido da tribuna, Jader subestimou a inteligência de seus pares e as meias verdades ali ditas, para sua sorte, acabaram abafadas pelo escândalo de ACM e Arruda. Exemplos:
Jader garantiu que uma auditoria, feita pela empresa Boucinhas & Campos,
concluíra que seu patrimônio era compatível com sua
renda. Também pudera. Ele deu os dados à consultoria. Disse,
por exemplo, que sua fortuna era equivalente a 4,4 milhões de reais
no fim de 1993. Não era verdade. O próprio senador, em documento
enviado ao Tribunal Regional Eleitoral do Pará naquele mesmo ano,
dizia que seu patrimônio era, então, de 7 milhões
de reais. Questionado sobre isso, Jader mandou dizer apenas que o dado
certo é o que foi enviado ao TRE paraense. É óbvio,
portanto, que, se os dados fornecidos à Boucinhas & Campos
estavam errados, a conclusão da consultoria também ficou
inteiramente comprometida.
Da tribuna, o senador garantiu que seu nome nem sequer é mencionado
no relatório oficial do Banco Central que descobriu desvio de 10
milhões de reais no fim dos anos 80 do Banco do Pará, quando
Jader governava o Estado. Seu nome aparece ali dezesseis vezes. Disse,
ainda, que o ex-presidente do BC Gustavo Loyola o inocentara de qualquer
envolvimento no desvio do dinheiro. Também não é
verdade: Loyola mandou-lhe uma carta em que diz, apenas, que o nome de
Jader não é citado na folha de rosto do relatório.
Loyola já manifestou, inclusive, seu arrependimento por ter escrito
a carta, dado o uso abusivo que o senador tem feito dela.
Para explicar sua sociedade na Agropecuária Campo Maior com o saqueador
da Sudam José Osmar Borges, o senador recorreu a um raciocínio
inimaginável na boca de um presidente do Senado da República.
Alegou que o negócio fora feito em nome de sua atual mulher, Márcia
Cristina Zahluth Centeno, porque estava em processo de separação
da ex-mulher, a deputada Elcione Barbalho, com a qual teria de dividir
as terras recém-adquiridas. Já não seria muito bonito
se isso fosse verdade, pois trairia o desejo do senador de enganar a ex-mulher
na partilha. Mas não era isso. Era apenas outra mentira. Jader
se separou em 1994, a partilha de bens já tramitava na Justiça
em 1995 e a Campo Maior só foi comprada em 1996 portanto,
não entrava na lista dos bens a ser partilhados com a ex. Para
provar que a negociação foi legal, Jader desceu da tribuna
depois de prometer entregar a declaração de imposto de renda
de sua fazenda, que, ao final da transação, ficou com as
terras da Campo Maior. Até agora, passadas duas semanas, a declaração
não apareceu no Senado.
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| A
CONTADORA Maria Auxiliadora Barra Martins Acusada de manter um dos escritórios mais ativos em projetos destinados a fraudar a Sudam, era responsável pela contabilidade da Centeno & Moreira, empresa sob suspeita de ter desviado 9,6 milhões de reais da autarquia. Já esteve presa pela Polícia Federal |
As relações de Jader Barbalho com o megafraudador José Osmar Borges, acusado de desviar 133 milhões de reais da Sudam, são transparentes como poço de lama. Jader garante que nunca soube de nada que desabonasse Borges até se associar a ele. Na semana passada, veio a público que as atividades de Borges eram bem mais variadas do que se imaginava. Em 1997, o empresário Gilberto Bousquet, de São Paulo, contou que pagou 2 milhões de reais para Borges a título de consultoria. O empresário diz que pretendia construir um hotel em Manaus. Conseguiu aprovar o projeto na Sudam e liberar uma parcela de 15 milhões de reais graças ao trabalho de Borges. Oficialmente, a comissão foi paga para que a empresa de Borges arrumasse investidores para dar continuidade ao projeto. Na época do negócio, Borges já era sócio da mulher de Jader na Campo Maior. Apesar dos 15 milhões de reais, as obras do hotel nunca passaram da fase de fundação.
De menino pobre, que vivia no interior de Goiás, a dono de um patrimônio que ele mesmo estima em 200 milhões de reais, Borges ainda é um enigma. Não se destacou em nenhum ramo, a não ser na habilidade em lidar com recursos públicos da Sudam, e conseguiu amealhar uma fortuna notável. Em 1991, chegou a ter um parceiro de peso em seus negócios. O Banco de Crédito Nacional (BCN), que pertencia à família Conde e acabou vendido ao Bradesco em novembro de 1997, associou-se a Borges na empresa Pyramid Confecções. É uma das seis empresas de Borges brindadas com dinheiro da Sudam e recheadas de irregularidades. O projeto previa que a Sudam despejasse, em valores da época, 5 milhões de dólares na implantação da Pyramid. O BCN, que fez a sociedade aproveitando a lei que permite a uma empresa aplicar parte de seu imposto de renda em projetos dessa natureza, permaneceu sócio do negócio até 1995. No ano seguinte, as empresas de Borges mandaram 209 milhões de dólares ao exterior por meio de uma conta aberta numa agência do próprio BCN, em Ponta Porã, cidade de Mato Grosso do Sul.
Além
do tamanho do patrimônio e do escândalo do Banpará,
Jader está cada vez mais enrolado na quermesse de fraudes da Sudam,
em torno da qual o senador tem um verdadeiro sistema familiar. Na
semana passada, depois que se descobriu que sua atual mulher, Márcia
Cristina, é dona de um criadouro de rãs em Belém,
suspeito de desviar 9,6 milhões de reais da Sudam, a Polícia
Federal abriu inquérito para investigar o caso. Ao informar que
não tinha envolvimento com o ranário, Jader saiu-se com
o seguinte: disse que o ranário foi criado em 1989 e que ele só
se casou com Márcia Cristina em 1994 embora a conhecesse
muito antes, já que era sobrinha de sua ex-mulher.
Paulo Amorim![]() |
| Jader com a atual mulher: Polícia Federal abriu inquérito para investigar o ranário |
A empresa da mulher de Jader ainda dispõe de um prazo de duas semanas
para explicar onde foram parar os 9,6 milhões de reais. Uma semana
atrás, com o intuito de mostrar que o ranário funciona perfeitamente,
o senador mandou abrir as portas da empresa. Havia, ali, 3.000
rãs em tanques e alguns funcionários circulando. A parte
principal e também mais cara do projeto no entanto a construção
de um abatedouro de rãs ficou no papel. No local onde o
abatedouro deveria ter sido erguido existe só um matagal alto.
Daí por que a Sudam desconfia que os 9,6 milhões não
tiveram o destino previsto. A questão que mais chama a atenção
no episódio, porém, é que Maria Auxiliadora Barra
Martins, uma ex-funcionária da Sudam especialista em fraudar dados
contábeis de projetos apresentados à autarquia, era a responsável
pela contabilidade do ranário da mulher de Jader. Sobre essa coincidência,
o senador não disse uma única palavra.
Com tantos problemas a sua volta, Jader chegou a fazer, no início da semana passada, alguns acenos no sentido de convencer seus aliados a aplicar uma pena mais branda contra Arruda e ACM, evitando a cassação de seus mandatos. A estratégia, na verdade, era dirigida também à preservação do mandato do próprio Jader. No fim da semana, porém, as articulações haviam perdido o ímpeto. No Congresso, são raríssimos os parlamentares que acham possível cassar os dois senadores envolvidos na fraude do painel eletrônico e preservar por inteiro o presidente do Senado. Dá para imaginar uma sessão no plenário do Senado votando a cassação de ACM, sob a presidência do senador Jader Barbalho? É muito difícil imaginar essa cena. Nesse caso dos senadores, só há uma certeza: os próximos capítulos da crise no Congresso serão eletrizantes.
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