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O sistema planetário
de Jader

Com amigos e familiares girando feito
satélites no universo das fraudes, o
senador corre o risco de ser o próximo
candidato a caminhar ao cadafalso

Ana d'Angelo e Lourenço Flores


Montagem sobre fotos de Dida Sampaio/AE/Paulo Jares

 
1. A MULHER DE JADER
Márcia Cristina Zahluth Centeno
É a presidente da empresa Centeno & Moreira, cujo ranário, instalado nos arredores de Belém, está sendo investigado sob suspeita de desviar 9,6 milhões de reais da Sudam. Também foi sócia, entre 1996 e 1998, de José Osmar Borges, um dos mais notórios fraudadores da Sudam

2. O FRAUDADOR
José Osmar Borges
Foi sócio da atual mulher de Jader entre 1996 e 1998 na Agropecuária Campo Maior. Encerrada a sociedade, as terras da Campo Maior foram incorporadas à área da fazenda Rio Branco, que pertence a Jader. É acusado de desviar, por meio de suas seis empresas em Mato Grosso, mais de 100 milhões de reais da Sudam. Já esteve preso pela Polícia Federal

3. O PRIMO
José Priante
É deputado federal. Nas escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal, depreende-se que mantinha negócios escusos com um dos fraudadores da Sudam, Geraldo Pinto da Silva, dono de um escritório ligado às fraudes na autarquia

4. O PAI
Laércio Barbalho
Também faz parte da lista dos que receberam dinheiro desviado do Banpará por Jader Barbalho na época em que governava o Pará

5. O INDICADO
Maurício Vasconcelos
Foi superintendente da Sudam por indicação de Jader Barbalho. Ficou no cargo menos de um ano, assumindo, em seguida, também por sugestão de Jader, a secretaria executiva do Ministério da Integração Nacional. Foi afastado sob suspeitas de envolvimento em corrupção

6. O AMIGO
José Artur
Guedes Tourinho
Amigo de Jader desde a adolescência, foi indicado pelo senador para ser o superintendente da Sudam, cargo que ocupou de 1996 a 1999. Era o chefe da autarquia na época em que se descobriram os desvios da Centeno & Moreira – e não tomou nenhuma providência. Perdeu o cargo na Sudam quando foi revelado que José Osmar Borges, o ex-sócio de Jader, fizera depósitos em sua conta bancária. Seus bens estão bloqueados por ordem da Justiça

7. A EX-MULHER

Elcione Barbalho

Recebeu, em sua conta bancária, depósitos feitos por Jader, seu então marido, de dinheiro desviado do Banpará


8. O CUNHADO

Camilo Afonso Centeno

Foi um dos sócios de José Osmar Borges, um dos maiores fraudadores da Sudam. Hoje, é diretor da emissora de TV de Jader

9. O ASSESSOR
Antônio César Pinho Brasil
Processado por irregularidades na desapropriação de uma fazenda no Pará, na época em que era assessor do então ministro Jader Barbalho, está condenado a cinco anos e quatro meses de prisão. Ainda cabe recurso contra a sentença
 


Na semana passada, ninguém acompanhou a crise da violação do painel eletrônico com alívio semelhante ao do presidente do Senado, Jader Barbalho, do PMDB do Pará. Afinal, depois de algumas semanas, foi a primeira vez que os holofotes da mídia saíram de sua cabeça. Voltaram-se, agora com insistência redobrada, para a dramática situação dos senadores José Roberto Arruda e Antonio Carlos Magalhães, cujos mandatos correm o risco de cassação. Além disso, Jader pôde contemplar seu inimigo número 1, ACM, sentado no banco dos réus, depois de tê-lo torturado durante meses com denúncias pesadas, na tentativa de barrar sua eleição para a presidência do Senado. Há outro lado nessa história. ACM e Arruda podem perder o mandato por terem mentido aos colegas no caso da violação do painel do Senado. Assim, se os senadores tomarem a iniciativa de acionar a guilhotina nos pescoços de ACM e Arruda, a próxima cabeça a rolar poderá ser a dele próprio, Jader Barbalho, e pelo mesmo motivo: as mentiras.

Até agora, há diferenças na situação dos três parlamentares. A primeira é que os outros dois já vieram a público confessar que estavam mentindo, ou ao menos admitiram parte das mentiras. Jader, não. Existem evidências de que mentiu aos colegas, mas o senador jamais assumiu ter faltado com a verdade em ponto algum. Além disso, as suspeitas que giram em torno de sua biografia são de uma gravidade abissal. Antes mesmo de ter sido eleito presidente do Senado, Jader apareceu como dono de um patrimônio pessoal de, no mínimo, 30 milhões de reais. Nunca conseguiu explicar como fez tal fortuna tendo se dedicado sempre à vida pública. Só tentou se justificar depois que estava eleito para o comando do Senado. E, num discurso proferido da tribuna, Jader subestimou a inteligência de seus pares – e as meias verdades ali ditas, para sua sorte, acabaram abafadas pelo escândalo de ACM e Arruda. Exemplos:

Jader garantiu que uma auditoria, feita pela empresa Boucinhas & Campos, concluíra que seu patrimônio era compatível com sua renda. Também pudera. Ele deu os dados à consultoria. Disse, por exemplo, que sua fortuna era equivalente a 4,4 milhões de reais no fim de 1993. Não era verdade. O próprio senador, em documento enviado ao Tribunal Regional Eleitoral do Pará naquele mesmo ano, dizia que seu patrimônio era, então, de 7 milhões de reais. Questionado sobre isso, Jader mandou dizer apenas que o dado certo é o que foi enviado ao TRE paraense. É óbvio, portanto, que, se os dados fornecidos à Boucinhas & Campos estavam errados, a conclusão da consultoria também ficou inteiramente comprometida.

Da tribuna, o senador garantiu que seu nome nem sequer é mencionado no relatório oficial do Banco Central que descobriu desvio de 10 milhões de reais no fim dos anos 80 do Banco do Pará, quando Jader governava o Estado. Seu nome aparece ali dezesseis vezes. Disse, ainda, que o ex-presidente do BC Gustavo Loyola o inocentara de qualquer envolvimento no desvio do dinheiro. Também não é verdade: Loyola mandou-lhe uma carta em que diz, apenas, que o nome de Jader não é citado na folha de rosto do relatório. Loyola já manifestou, inclusive, seu arrependimento por ter escrito a carta, dado o uso abusivo que o senador tem feito dela.

Para explicar sua sociedade na Agropecuária Campo Maior com o saqueador da Sudam José Osmar Borges, o senador recorreu a um raciocínio inimaginável na boca de um presidente do Senado da República. Alegou que o negócio fora feito em nome de sua atual mulher, Márcia Cristina Zahluth Centeno, porque estava em processo de separação da ex-mulher, a deputada Elcione Barbalho, com a qual teria de dividir as terras recém-adquiridas. Já não seria muito bonito se isso fosse verdade, pois trairia o desejo do senador de enganar a ex-mulher na partilha. Mas não era isso. Era apenas outra mentira. Jader se separou em 1994, a partilha de bens já tramitava na Justiça em 1995 e a Campo Maior só foi comprada em 1996 – portanto, não entrava na lista dos bens a ser partilhados com a ex. Para provar que a negociação foi legal, Jader desceu da tribuna depois de prometer entregar a declaração de imposto de renda de sua fazenda, que, ao final da transação, ficou com as terras da Campo Maior. Até agora, passadas duas semanas, a declaração não apareceu no Senado.


A CONTADORA
Maria Auxiliadora Barra Martins

Acusada de manter
um dos escritórios mais ativos em projetos destinados a fraudar a Sudam, era responsável pela contabilidade da Centeno & Moreira, empresa sob suspeita de ter desviado 9,6 milhões de reais da autarquia. Já esteve presa pela Polícia Federal

As relações de Jader Barbalho com o megafraudador José Osmar Borges, acusado de desviar 133 milhões de reais da Sudam, são transparentes como poço de lama. Jader garante que nunca soube de nada que desabonasse Borges até se associar a ele. Na semana passada, veio a público que as atividades de Borges eram bem mais variadas do que se imaginava. Em 1997, o empresário Gilberto Bousquet, de São Paulo, contou que pagou 2 milhões de reais para Borges a título de consultoria. O empresário diz que pretendia construir um hotel em Manaus. Conseguiu aprovar o projeto na Sudam e liberar uma parcela de 15 milhões de reais graças ao trabalho de Borges. Oficialmente, a comissão foi paga para que a empresa de Borges arrumasse investidores para dar continuidade ao projeto. Na época do negócio, Borges já era sócio da mulher de Jader na Campo Maior. Apesar dos 15 milhões de reais, as obras do hotel nunca passaram da fase de fundação.

De menino pobre, que vivia no interior de Goiás, a dono de um patrimônio que ele mesmo estima em 200 milhões de reais, Borges ainda é um enigma. Não se destacou em nenhum ramo, a não ser na habilidade em lidar com recursos públicos da Sudam, e conseguiu amealhar uma fortuna notável. Em 1991, chegou a ter um parceiro de peso em seus negócios. O Banco de Crédito Nacional (BCN), que pertencia à família Conde e acabou vendido ao Bradesco em novembro de 1997, associou-se a Borges na empresa Pyramid Confecções. É uma das seis empresas de Borges brindadas com dinheiro da Sudam e recheadas de irregularidades. O projeto previa que a Sudam despejasse, em valores da época, 5 milhões de dólares na implantação da Pyramid. O BCN, que fez a sociedade aproveitando a lei que permite a uma empresa aplicar parte de seu imposto de renda em projetos dessa natureza, permaneceu sócio do negócio até 1995. No ano seguinte, as empresas de Borges mandaram 209 milhões de dólares ao exterior por meio de uma conta aberta numa agência do próprio BCN, em Ponta Porã, cidade de Mato Grosso do Sul.

Além do tamanho do patrimônio e do escândalo do Banpará, Jader está cada vez mais enrolado na quermesse de fraudes da Sudam, em torno da qual o senador tem um verdadeiro sistema familiar. Na semana passada, depois que se descobriu que sua atual mulher, Márcia Cristina, é dona de um criadouro de rãs em Belém, suspeito de desviar 9,6 milhões de reais da Sudam, a Polícia Federal abriu inquérito para investigar o caso. Ao informar que não tinha envolvimento com o ranário, Jader saiu-se com o seguinte: disse que o ranário foi criado em 1989 e que ele só se casou com Márcia Cristina em 1994 – embora a conhecesse muito antes, já que era sobrinha de sua ex-mulher.


Paulo Amorim
Jader com a atual mulher: Polícia Federal abriu inquérito para investigar o ranário


A empresa da mulher de Jader ainda dispõe de um prazo de duas semanas para explicar onde foram parar os 9,6 milhões de reais. Uma semana atrás, com o intuito de mostrar que o ranário funciona perfeitamente, o senador mandou abrir as portas da empresa. Havia, ali, 3.000 rãs em tanques e alguns funcionários circulando. A parte principal e também mais cara do projeto no entanto – a construção de um abatedouro de rãs – ficou no papel. No local onde o abatedouro deveria ter sido erguido existe só um matagal alto. Daí por que a Sudam desconfia que os 9,6 milhões não tiveram o destino previsto. A questão que mais chama a atenção no episódio, porém, é que Maria Auxiliadora Barra Martins, uma ex-funcionária da Sudam especialista em fraudar dados contábeis de projetos apresentados à autarquia, era a responsável pela contabilidade do ranário da mulher de Jader. Sobre essa coincidência, o senador não disse uma única palavra.

Com tantos problemas a sua volta, Jader chegou a fazer, no início da semana passada, alguns acenos no sentido de convencer seus aliados a aplicar uma pena mais branda contra Arruda e ACM, evitando a cassação de seus mandatos. A estratégia, na verdade, era dirigida também à preservação do mandato do próprio Jader. No fim da semana, porém, as articulações haviam perdido o ímpeto. No Congresso, são raríssimos os parlamentares que acham possível cassar os dois senadores envolvidos na fraude do painel eletrônico e preservar por inteiro o presidente do Senado. Dá para imaginar uma sessão no plenário do Senado votando a cassação de ACM, sob a presidência do senador Jader Barbalho? É muito difícil imaginar essa cena. Nesse caso dos senadores, só há uma certeza: os próximos capítulos da crise no Congresso serão eletrizantes.

 

O CÍRCULO SE FECHA

Em outubro passado, VEJA publica reportagem mostrando que o patrimônio
visível de Jader Barbalho é de, pelo menos, 30 milhões de reais

Em março passado, vem a público a existência de um relatório do Banco Central segundo o qual Jader desviou 10 milhões de reais do Banpará na década de 80

Em abril passado, revela-se que fraudadores da Sudam, em telefonemas monitorados pela Polícia Federal, dizem que a eleição de Jader para o comando do Senado "foi boa" para suas tramóias

Há três semanas, surge a notícia de que Jader e sua mulher foram sócios de José Osmar Borges, acusado de desviar mais de 100 milhões de reais da Sudam

Há duas semanas, fica-se sabendo que a mulher de Jader, Márcia Cristina, é dona da empresa acusada de desviar 9,6 milhões de reais da Sudam, cuja contadora
é Maria Auxiliadora, grande fraudadora da autarquia

 

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