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A ilha da fantasiaEngolfado
numa crise avassaladora,
Rudolfo Lago, de Brasília
É vertiginosa a cronologia de descrédito do Senado Federal. Há quase um ano, os senadores protagonizaram um dos momentos mais edificantes da Casa ao cassar o mandato de Luiz Estevão, no primeiro ato do gênero na história de 176 anos do Senado. Pouco mais de dois meses atrás, porém, em choque frontal com a opinião pública, elegeram para o comando da Casa o senador Jader Barbalho, do PMDB do Pará, um político que não consegue dar uma mísera explicação para o gigantismo de seu patrimônio pessoal e aparece cada vez mais enrolado no cipoal de fraudes da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). E, agora, outros dois senadores se acham com a cabeça na guilhotina, sob a ameaça concretíssima de sofrer um processo de cassação do mandato: o ex-tucano José Roberto Arruda, líder do governo de Fernando Henrique Cardoso até duas semanas atrás, e o ex-presidente do Senado Antonio Carlos Magalhães, do PFL baiano. A acusação que pesa contra eles é de terem violado o painel eletrônico do Senado para descobrir como votou cada colega na sessão em que foi cassado o mandato do senador Luiz Estevão. Teriam ferido, portanto, a regra central sobre a qual se baseiam as democracias: o segredo do voto. Na crise atual o que mais choca a opinião pública, no entanto, é o festival de mentiras que tomou conta do Senado da República. Na semana passada, num intervalo de apenas quatro dias, Arruda e ACM, ambos encurralados por revelações avassaladoras de funcionários que trabalhavam no setor de informática do Senado, viveram o constrangimento de vir a público desdizer o que haviam afirmado categoricamente antes. Os anais do Senado jamais registraram uma mentira de forma tão irretorquível e esmagadora. A cronologia: Quem admite uma mentira não comete, por si só, um ato de desmoralização. Pode ser um gesto de humildade, pode ser a intenção genuína de fazer triunfar a verdade. Os dois senadores, no entanto, não conseguiram passar essa impressão aos colegas ou à opinião pública. Por uma razão inequívoca: eles contaram suas verdades com a mesma ênfase, o mesmo tom emocionado, a mesma verve e o mesmo dedo em riste com que contaram suas mentiras dias antes. E pior: não conseguiram convencer seus pares de que, depois de reconhecer que mentiram, estavam agora falando a verdade inteira. Na quinta-feira, encerrado o depoimento de quase seis horas de ACM, VEJA ouviu os quinze senadores titulares que fazem parte do Conselho de Ética do Senado, onde se decidirá se deve ou não ser aberto processo de cassação. Dos quinze, seis não quiseram dar opinião ou ainda não tinham posição formada, outros seis se disseram favoráveis à cassação de ambos e apenas três pretendem inocentá-los. É um quadro que ainda pode sofrer modificações até o fim do processo, que deve durar até dois meses, mas já dá um sinal do ânimo punitivo da maioria do conselho.
São os pequenos detalhes que tornaram pouco críveis as confissões dos senadores. Arruda quer convencer a platéia de que não deu ordem alguma a Regina Borges, então diretora de informática do Senado, para violar o painel eletrônico de votação e dele extrair uma lista com o voto de cada senador. Diz apenas que, em nome de ACM, consultou Regina sobre a vulnerabilidade do painel. É difícil acreditar que, diante de uma mera consulta, uma funcionária experiente como Regina Borges tenha decidido sair ensandecida pela madrugada à cata de outros servidores de informática para, no dia seguinte, extrair do painel uma lista que ninguém lhe solicitou. ACM, por sua vez, diz que não pediu lista alguma para ninguém e, se Arruda o fez, foi por sua própria conta e risco. Também é difícil acreditar nisso. Quando Arruda entrou em seu gabinete com a lista na mão, ACM não teve a cabível reação de espanto, não teve sequer a curiosidade de saber como a lista fora produzida nem censurou o senador ou a funcionária pela violação. Ao contrário: a pedido de Arruda, ACM ligou para Regina Borges para tranqüilizá-la quanto à infração que havia cometido, conforme a versão que o senador apresentou ao Conselho de Ética. Orientado
por três advogados, com os quais se reuniu até a madrugada
de quinta-feira, ACM fez um depoimento eficiente do ponto de vista técnico.
Foi econômico na argumentação, manteve a lógica
interna de sua versão o tempo inteiro e não caiu em contradições.
Conseguiu refrear seu temperamento explosivo, que em outras ocasiões
resultou em enfrentamentos com os colegas, e chegou a ser até mesmo
sedutor, elogiando a maioria dos que lhe dirigiram perguntas. Mas o problema
nesse caso é outro. ACM não convenceu o Conselho de Ética
de que estava sendo sincero. A pergunta mais insistente dos senadores
era: se não encomendou a violação do painel eletrônico,
por que então ficou passivo ao tomar conhecimento da lista, por
que não tomou providência alguma contra Regina Borges e o
colega José Roberto Arruda? ACM conta que, mais tarde, admoestou
Regina Borges pelo que ela fizera e nada mais. Disse que preferiu
abafar o assunto por "razões de Estado", pois a revelação
de que o painel fora violado poderia resultar na anulação
da cassação de Luiz Estevão e, naturalmente, envolver
o Senado em mais um escândalo. Faz sentido que ACM tenha optado
por zelar pela imagem do Senado, mas é difícil entender
por que não tomou discretas providências mais tarde
um mês, três meses, seis meses depois contra uma funcionária
que, por conta própria, ou a pedido de Arruda, colocara sob grave
risco a cassação de Luiz Estevão e a própria
imagem da Casa. Na aparência, ACM deu à funcionária
um perdão demasiadamente generoso para quem diz não ter
tido um fiapo de envolvimento pessoal no caso.
Os especialistas em pesquisas sabem que o peso da opinião pública no comportamento dos políticos em geral é pendular. Perto de uma eleição, os políticos tendem a ser mais sensíveis aos anseios da sociedade. Uma vez eleitos, essa sensibilidade costuma cair. Na semana passada, os tucanos deram um exemplo cabal do movimento pendular. Na segunda-feira, quando Arruda fez sua dramática confissão na tribuna, seus colegas de partido no Senado passaram a absolvê-lo em conversas de corredor. Do Palácio do Planalto, Fernando Henrique mandou dizer que achou a confissão do senador um ato "corajoso e digno", uma senha inequívoca para que fosse poupado ou, ao menos, tratado com dignidade. No dia seguinte, porém, quando perceberam que o noticiário da imprensa era desfavorável a Arruda, os tucanos ignoraram a senha do presidente e deram uma guinada de 180 graus. Passaram a ameaçar Arruda de expulsão do partido, o que levou o senador, cansado de humilhações, a se antecipar pedindo seu afastamento da sigla. Em uma semana, deixou de ser líder e de ser tucano. Está entregue à própria sorte. Por que essa pressa toda em sacrificar um senador que, até dias atrás, era uma flor do ninho? A razão é que os tucanos não querem ver seu partido contaminado pela falta de ética que assola outras siglas, com destaque para o PMDB de Jader Barbalho. Mas o pêndulo dos tucanos só balançou rapidamente para a punição porque, neste momento, a opinião pública acompanha com atenção incomum o que se passa em Brasília. No início do ano passado, vieram a público provas cabais de que a fundação mantida pelo senador Teotonio Vilela Filho, presidente nacional do PSDB, se metera até a medula em desvios de verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Alguém se lembra de tucanos se atropelando para convocar reuniões e exigir providências sobre o assunto? A única diferença entre um episódio e outro, afora o fato de que desviar dinheiro do bolso de trabalhador humilde é infinitamente mais danoso que violar um painel de votação, é que a opinião pública deu pouca atenção às clamorosas tramóias da fundação do tucanão nas verbas do FAT. Com tucanos bicando-lhe os calcanhares e uma estatura política restrita ao Distrito Federal, Arruda pode deixar a cena política, com cassação ou com renúncia, sem provocar terremotos. A situação de Antonio Carlos Magalhães é diferente. Sua punição tem uma dimensão dramática: é o precipício de meio século de vida pública de um dos políticos mais poderosos do país nas últimas décadas. ACM é um caso raro de político que, antes de morrer, começa a entrar para a História. Sua biografia está sendo preparada pelo melhor escritor brasileiro do gênero, Fernando Morais, autor de Chatô e Olga. ACM também já está ganhando, em vida, as primeiras teses acadêmicas, a maior parte, naturalmente, na Universidade Federal da Bahia. Ali, o professor Albino Canelas Rubim, especialista em ACM, é orientador de vários desses trabalhos. "Antonio Carlos monopolizou de tal maneira a política do Estado que é impossível estudar a Bahia contemporânea sem fazer referência a ele", analisa Rubim. Eleito pela primeira vez em 1954, ACM projetou-se no plano nacional sem deixar de ser um político baiano, muito identificado com as coisas de sua terra. À exceção de João Goulart (1961 a 1964) e Itamar Franco (1992 a 1994), foi aliado de todos os presidentes do Brasil desde os anos 50. Conseguiu a façanha de ser um homem influente na ditadura e na democracia. Foi eminência no governo de José Sarney, do qual saiu sob acusação de promover um festival com concessões de televisão, esteve até o último minuto ao lado de Fernando Collor e, até pouco tempo atrás, era tido como primeiro-ministro informal do governo de Fernando Henrique Cardoso. ACM é uma figura política intrigante. Não é um coronel da política, já que sua trajetória é essencialmente urbana. Não é um populista, uma vez que nunca se apoiou no proletariado urbano, classe que nem existia na Bahia dos anos 50. Como todos os políticos de carreira longa, já foi dado como morto mais de uma vez em especial após perder seu filho, o deputado Luís Eduardo. Agora, aos 73 anos, depois de voltar dos escombros de sua tragédia pessoal, pode ter sobrevivido para freqüentar o próprio funeral político.
Com
reportagem de Ana d'Angelo, de Brasília,
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