Edição 1 634 -2/2/2000

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DISCOS

Pirão de Peixe com Pimenta, Sá & Guarabyra (Som Livre) — Se você já acampou pelo menos uma vez na vida, com certeza se cansou de ouvir Espanhola e Sobradinho, clássicos do violão em volta da fogueira. Pois acredite: quando não são assassinadas por músicos de final de semana, essas canções são até inspiradas. É só conferir em Pirão de Peixe com Pimenta, terceiro e melhor disco da dupla Sá & Guarabyra, que sai agora pela primeira vez em CD. O mérito da dupla é ter traduzido o rock caipira americano para a linguagem rural brasileira. Sá & Guarabyra estão entre os grandes injustiçados da MPB. Eles foram imitados à exaustão pelos cantores mineiros dos anos 70, como Lô Borges e Beto Guedes. Os originais, no entanto, são muito melhores. Tocam bem, cantam bem e, ao contrário de suas cópias, escrevem letras que fazem sentido.

Burn to Shine, Ben Harper (Virgin) — Eis aí um raro cantor de protesto que não é chato. Versão anos 90 de Joan Baez, Ben Harper não aborrece o ouvinte como sua predecessora por dois motivos. Primeiro, porque foge da fórmula violão e voz. Em vez disso, exercita sua competência em vários estilos da música americana, como o jazz, o reggae, a soul music e até o heavy metal. Segundo, porque suas letras contra o sistema fogem dos slogans fáceis. Ele prefere escrever pequenos contos musicados, como no sucesso Mama's Got a Girlfriend Now, que fala de uma mulher que trocou o marido alcoólatra e violento por uma namorada. Harper também não é nada modesto. Ele se define como uma mistura entre o virtuosismo musical de Jimi Hendrix e a competência como letrista de Bob Dylan. Há um certo exagero nisso, claro. Mas no deserto de boas idéias do pop atual ele se destaca.

LIVRO

A Forma da Água, de Andrea Camilleri (tradução de Joana Angélica D'Avila Melo; Record; 143 páginas; 20 reais) — Nos anos 90, Andrea Camilleri popularizou o "spaghetti noir", ou seja, a versão italiana do romance policial. Protagonizados pelo impagável comissário Montalbano, os livros de Camilleri são ágeis e engraçados e se tornaram um fenômeno de vendas no país do autor e em outras partes da Europa. A Forma da Água se passa na Sicília, terra dos mafiosos, e começa quando dois lixeiros encontram um figurão assassinado num terreno baldio. Aos poucos, Montalbano vai desvendando o mistério — não sem antes tropeçar em outros cadáveres.

TELEVISÃO

100 Anos Luis Buñuel (de 2 de fevereiro a 1º de março, às quartas-feiras, às 22h, com reapresentações, no Eurochannel) — Perto do diretor Luis Buñuel, até seu compatriota Pedro Almodóvar parece comportado. Amigo de figuras polêmicas da Espanha das primeiras décadas do século, como o pintor Salvador Dalí, Buñuel tornou-se o pai do surrealismo no cinema quando lançou o curta-metragem Um Cão Andaluz, em 1929. Durante seus quase cinqüenta anos atrás das câmaras, dedicou-se a atacar impiedosamente a Igreja e os valores burgueses, ora em obras trágicas, ora em comédias cáusticas. Para comemorar o centenário de seu nascimento (em 22 de fevereiro), o Eurochannel exibe cinco trabalhos estupendos da última fase de sua carreira, em parceria afinada com o roteirista francês Jean-Claude Carrière. O ciclo será inaugurado com O Diário de uma Camareira (1964) e inclui o clássico A Bela da Tarde (1967). Nesta fita que até virou nome de motel em São Paulo, uma dona de casa entediada (Catherine Deneuve) cumpre meio expediente num bordel, onde se dá o direito de viver as fantasias sexuais que não se anima a compartilhar com o marido certinho. Completam o cardápio os três últimos filmes do diretor, nos quais sua veia surrealista corre solta: O Discreto Charme da Burguesia (1972), O Fantasma da Liberdade (1974) e Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977).

FILME

O Marido Ideal (An Ideal Husband, Estados sUnidos/Inglaterra, 1999. Estréia nesta sexta-feira em circuito nacional) — O ator inglês Rupert Everett fez sucesso na comédia romântica O Casamento do Meu Melhor Amigo, em que contracenava com Julia Roberts. Agora ele dá novas mostras de seu carisma. Na comédia de costumes O Marido Ideal, adaptada da peça homônima de Oscar Wilde, ele rouba a cena na pele do indolente lorde Goring, que tenta se esquivar de uma jovem casadoira enquanto livra o maior amigo de uma chantagista. Everett tem o traquejo perfeito para dar vida aos diálogos reluzentes de Wilde. Um exemplo impagável: "Prefiro falar sobre nada, pois é o único assunto sobre o qual sei alguma coisa".