Edição 1 634 -2/2/2000

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Banheiros e desenvolvimento

"Muitas vezes não conseguimos lidar com a confusão do mundo que nos cerca. Mas, se criamos em nossa volta algum microcosmo de ordem e arrumação, fica mais fácil lidar construtivamente com um pedaço maior do mundo"

Ilustração Alê Setti

Chateaubriand discursou no Congresso Nacional, protestando contra os banheiros daquele edifício. Bradava que não poderia haver democracia se os banheiros não estivessem limpos. Tomemos um caminho ligeiramente diferente: que relação haverá entre banheiros e desenvolvimento econômico? Até que há.

Vejo um nexo entre a cabeça das pessoas e o grau de ordem do ambiente que as cerca. Arrumação e limpeza fazem bem à cabeça. Quantos alunos não descobriram que após arrumar a mesa bagunçada fica mais fácil começar a estudar?

Muitas vezes não conseguimos lidar com a confusão do mundo que nos cerca. Mas, se criamos em nossa volta algum microcosmo de ordem e arrumação, fica mais fácil lidar construtivamente com um pedaço maior do mundo.

Uma variante desse princípio tem sido observada de forma mais sistemática. Quando as pessoas chegam a um banheiro público e o encontram sujo, a tendência é sujá-lo mais ainda. Pelo contrário, quando está imaculadamente limpo, sem sentir e sem pensar, tentam mantê-lo limpo. O mesmo se dá com espaços públicos. É conhecida a política do Metrô de São Paulo de consertar e limpar tudo imediatamente. Dessa forma, a população nem o suja nem o depreda. Sai bem mais barato.

Durante muito tempo, diante da confusão e da delinqüência inadministráveis, a polícia de Nova York adotou a prática de só cuidar dos crimes mais importantes. Mas o prefeito Giuliani mudou radicalmente a orientação da polícia: até o menor detalhe era para ser fiscalizado, cuidado e punido. Para surpresa de todos, reduziram-se não só as pequenas contravenções, mas também as grandes, a respeito das quais não se fez mais do que antes.

Ao cuidar do pequeno, alguma mágica se passa na cabeça das pessoas. Elimina-se uma primeira camada de desordem e reduz-se a inapetência para cuidar dos problemas maiores e mais intratáveis.

Como essa configuração da nossa psique parece ser bastante estável, podemos muitas vezes entender o que está acontecendo em uma instituição observando como cuida dos detalhes. Tive inúmeras oportunidades de visitar escolas de todos os tipos, mas sobretudo técnicas e vocacionais. Após a visita a todas as instalações, posso dizer com certa segurança se são boas escolas. Não creio que haja visitado uma só escola de primeira linha onde os banheiros não fossem impecáveis. Se houvesse começado a visita pelos banheiros e, por sua limpeza, adivinhado no ato se eram boas ou más, teria errado pouco.

Minhas visitas a fábricas mostram as boas cuidando com desvelo de detalhes que parecem nada ter a ver com a qualidade de sua produção. Por que gastam dinheiro com tais inutilidades? Por que o jardim está bem cuidado e o chão está imaculadamente limpo? Detalhes com jeito inconseqüente têm uma curiosa afinidade com o funcionamento das grandes e nobres funções da instituição.

Nossa cabeça deve ter um departamento que é siderado por limpeza, clareza e ordem. Quando nossos sentidos enviam sinais de bagunça no nosso entorno, esse departamento começa a reclamar e atrapalha o funcionamento dos outros, que cuidam de outras coisas. (Sei que essa formulação está aquém dos padrões científicos da psicologia, mas pelo menos é simples.) Arrumar o pequeno não garante arrumar o grande, mas deve ajudar, pois os dois níveis costumam andar juntos. O mundo não será reformado por uma pessoinha cuidando de seu jardim. Mas os bons exemplos são imitados, e, quando muitos cuidam, as mágicas começam a acontecer.

Mas minha teoria não é perfeita, pois como explicar a bagunça monumental de meu escritório? Digo sempre que há uma ordem que não é aparente a um observador externo. Não sei se me acreditam. Mas sei que, quando arrumo um pouco, minha cabeça funciona melhor.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@ibm.net)