Banheiros e desenvolvimento
"Muitas
vezes não conseguimos lidar com a confusão
do mundo que nos cerca. Mas, se criamos em nossa volta algum
microcosmo de ordem e arrumação, fica mais
fácil lidar construtivamente com um pedaço
maior do mundo"
Ilustração Alê
Setti
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Chateaubriand discursou
no Congresso Nacional, protestando contra os banheiros daquele
edifício. Bradava que não poderia haver democracia
se os banheiros não estivessem limpos. Tomemos um
caminho ligeiramente diferente: que relação
haverá entre banheiros e desenvolvimento econômico?
Até que há.
Vejo um nexo entre
a cabeça das pessoas e o grau de ordem do ambiente
que as cerca. Arrumação e limpeza fazem bem
à cabeça. Quantos alunos não descobriram
que após arrumar a mesa bagunçada fica mais
fácil começar a estudar?
Muitas vezes não
conseguimos lidar com a confusão do mundo que nos
cerca. Mas, se criamos em nossa volta algum microcosmo de
ordem e arrumação, fica mais fácil
lidar construtivamente com um pedaço maior do mundo.
Uma variante desse
princípio tem sido observada de forma mais sistemática.
Quando as pessoas chegam a um banheiro público e
o encontram sujo, a tendência é sujá-lo
mais ainda. Pelo contrário, quando está imaculadamente
limpo, sem sentir e sem pensar, tentam mantê-lo limpo.
O mesmo se dá com espaços públicos.
É conhecida a política do Metrô de São
Paulo de consertar e limpar tudo imediatamente. Dessa forma,
a população nem o suja nem o depreda. Sai
bem mais barato.
Durante muito tempo,
diante da confusão e da delinqüência inadministráveis,
a polícia de Nova York adotou a prática de
só cuidar dos crimes mais importantes. Mas o prefeito
Giuliani mudou radicalmente a orientação da
polícia: até o menor detalhe era para ser
fiscalizado, cuidado e punido. Para surpresa de todos, reduziram-se
não só as pequenas contravenções,
mas também as grandes, a respeito das quais não
se fez mais do que antes.
Ao cuidar do pequeno,
alguma mágica se passa na cabeça das pessoas.
Elimina-se uma primeira camada de desordem e reduz-se a
inapetência para cuidar dos problemas maiores e mais
intratáveis.
Como essa configuração
da nossa psique parece ser bastante estável, podemos
muitas vezes entender o que está acontecendo em uma
instituição observando como cuida dos detalhes.
Tive inúmeras oportunidades de visitar escolas de
todos os tipos, mas sobretudo técnicas e vocacionais.
Após a visita a todas as instalações,
posso dizer com certa segurança se são boas
escolas. Não creio que haja visitado uma só
escola de primeira linha onde os banheiros não fossem
impecáveis. Se houvesse começado a visita
pelos banheiros e, por sua limpeza, adivinhado no ato se
eram boas ou más, teria errado pouco.
Minhas visitas a fábricas
mostram as boas cuidando com desvelo de detalhes que parecem
nada ter a ver com a qualidade de sua produção.
Por que gastam dinheiro com tais inutilidades? Por que o
jardim está bem cuidado e o chão está
imaculadamente limpo? Detalhes com jeito inconseqüente
têm uma curiosa afinidade com o funcionamento das
grandes e nobres funções da instituição.
Nossa cabeça
deve ter um departamento que é siderado por limpeza,
clareza e ordem. Quando nossos sentidos enviam sinais de
bagunça no nosso entorno, esse departamento começa
a reclamar e atrapalha o funcionamento dos outros, que cuidam
de outras coisas. (Sei que essa formulação
está aquém dos padrões científicos
da psicologia, mas pelo menos é simples.) Arrumar
o pequeno não garante arrumar o grande, mas deve
ajudar, pois os dois níveis costumam andar juntos.
O mundo não será reformado por uma pessoinha
cuidando de seu jardim. Mas os bons exemplos são
imitados, e, quando muitos cuidam, as mágicas começam
a acontecer.
Mas minha teoria não
é perfeita, pois como explicar a bagunça monumental
de meu escritório? Digo sempre que há uma
ordem que não é aparente a um observador externo.
Não sei se me acreditam. Mas sei que, quando arrumo
um pouco, minha cabeça funciona melhor.
Claudio de
Moura Castro é economista (claudiomc@ibm.net)