Edição 1 634 -2/2/2000

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Santas causas, efeitos nem tanto

Em dois episódios, crianças são feitas de santos para defender certas causas. Mas há um problema...

São dois episódios distintos, ocorridos cada um de um lado do mundo. Um teve lugar, ou está tendo, na Flórida e em Cuba. O outro, na fronteira entre Mianmar, a antiga Birmânia, e a Tailândia, no sudeste da Ásia. O primeiro tem a ver com a disputa, velha de quarenta anos, entre os Estados Unidos e Cuba, bem como entre os grupos anticastristas exilados nos Estados Unidos e os partidários de Fidel Castro. O segundo, com grupos guerrilheiros que lutam contra o regime ditatorial de Mianmar e, em busca de reforço para a causa, com freqüência estendem suas ações à vizinha Tailândia. O primeiro tem um pé, pelo menos um, no mundo desenvolvido. Conecta-se com os interesses e a política dos Estados Unidos. O outro tem os dois pés mergulhados na lama do Terceiro Mundo. Não se conecta senão com a miséria, o desespero e a opressão. Os dois episódios são diferentes em muito, mas possuem um ponto comum: ambos envolvem crianças.

O caso cubano-americano é o do menino Elian. Salvo de um naufrágio em que morreu sua mãe, ao tentar a fuga de Cuba para os Estados Unidos, Elian, de 6 anos, foi acolhido por parentes na Flórida que se recusam a devolvê-lo ao pai, que ficou em Cuba. Descrito assim, em sua expressão mais simples, até parece um caso de disputa de guarda. É mesmo, mas não entre pais, ou avôs, ou tios. É uma disputa de guarda entre duas comunidades, a anticastrista da Flórida e a castrista. Por extensão, entre Estados Unidos e Cuba. E, por extensão, entre duas ideologias, a capitalista e o que resta da socialista.

O caso de Mianmar envolve dois meninos gêmeos que, aos 12 anos, são apresentados como chefes guerrilheiros. O mundo tomou conhecimento deles quando um comando invadiu um hospital da Tailândia, apoderou-se de suas instalações, manteve como reféns médicos, enfermeiros e pacientes e fez um certo número de exigências. Tudo acabou mal para os guerrilheiros, que foram todos mortos. Nas poucas horas que durou a operação, no entanto, o grupo teve a oportunidade de propagar sua causa e a si próprio, merecendo a imediata atenção da mídia ao dizer-se comandado pelas duas crianças. Filmes com os dois meninos, que felizmente, para sua integridade, não participaram da operação, permanecendo nos refúgios do grupo em Mianmar, foram exibidos pela televisão mundo afora.

Nos dois episódios, as crianças são objetos de manipulação para fins políticos. Mas há mais: num como no outro, ousou-se forçar a passagem, perigosa entre todas, que separa a política da religião. As crianças, não contentes seus respectivos patronos com serem elas crianças, tiveram sua preeminência reforçada pela condição de entidades sagradas. No mais bizarro desdobramento do caso do menino cubano deu-se um momento em que setores da comunidade anticastrista começaram a tê-lo como ungido pela divindade. Não é à toa que teria sobrevivido dois dias e meio no mar, antes de ser achado por dois pescadores americanos. Elian virou objeto de devoção. Sua intercessão realizaria desejos, tocá-lo quem sabe pudesse curar.

No caso dos meninos de Mianmar, a sacralização não ocorre por iniciativa apenas de setores do grupo a que pertencem – é, digamos assim, "oficial". O grupo de guerrilheiros, descritos pela imprensa internacional como "cristãos fundamentalistas", chama-se Exército de Deus, nada menos do que isso. E as crianças, cujos nomes são Johnny e Luther Htoo – ou seja, Joãozinho e Lutero Htoo –, são apresentadas como "crianças de Deus". No filme exibido pelas TVs, os dois aparecem armados e fumando. Enquanto o cubaninho Elian tem cara de anjo e a graça do filho que se queria ter, os gêmeos de Mianmar mais pareceriam, a uma sensibilidade convencional, encarnações do maligno. Mas vá lá – há diferentes maneiras de representar as emanações do divino. Elas variam conforme a cultura e o gosto de cada um.

Há uma lógica que conduz uma causa política a encarnar-se numa criança e, em seguida, saltar à religião. A criança tem a vantagem de conferir inocência e pureza à causa. Quando já se tem a pureza e a inocência, o passo seguinte é revesti-las de religião. Não é a primeira vez, nem será a última, que tal estratagema dá o ar de sua graça, na história do mundo. Lembre-se de Joana d'Arc, que aos 16 anos assumiu o comando do exército que salvaria a França e a fé. O problema, o grande e grave problema, é que não há nada pior, para a solução de um problema político, do que revesti-lo de religião. Tome-se o caso que opõe Cuba e Estados Unidos, castristas e anticastristas. Na verdade, há muito que, de um lado e de outro, o furor é de cruzados. A santificação de Elian é apenas a conseqüência de um combate que se trava com o fanatismo de defensores das verdades últimas e da virtude suprema. Ora, quando uma causa política se traveste de religião, acaba-se trocando o melhor da política pelo pior da religião. Perdem-se a conversa, a transigência e a negociação, que são o melhor da política. Fica-se com a intolerância, que é o pior da religião.