A universidade
do
distrito federal
"Mesmo
no país mais rico do mundo
e um dos berços da democracia moderna,
muitas administrações derrapam e afundam.
Contudo, mais relevante é a capacidade
de recuperação de uma sociedade"
Ilustração:
Alê Setti
Na
capital do país havia três faculdades.
Foram fundidas e transformadas na universidade do distrito
federal. Mas a politicagem e o empreguismo levaram a
melhor. Por exemplo, cada biblioteca tinha sua bibliotecária-chefe.
Com a fusão, ficaram três bibliotecárias-chefes.
Coisa de subdesenvolvido.
Pela
legislação arcaica, para receber os favores
fiscais havia que ter uma estação agrícola.
Assim, para um terreno desocupado mandou-se uma pessoa
que estava sendo processada por desfalque. Com um salário
elevadíssimo, planta salsa e cebolinha, para
estimular o cultivo de temperinhos nas jardineiras da
cidade. Igualmente, há uma comissão permanente
para receber reclamações de criadores
de carneiro bicho que na cidade jamais se criou.
Os custos
são altíssimos, os salários são
elevados e a qualidade do ensino é deplorável.
Certos cursos estão a ponto de perder o credenciamento.
A corrupção e a politicagem na escolha
dos dirigentes são generalizadas. Boa parte dos
recursos vai para a creche dos filhos dos alunos. O
clima é de desânimo e desmoralização.
Muitos querem fechar sumariamente a universidade, consideram-na
uma instituição sem salvação.
O tecido
político da cidade se esgarçou, sendo
eleito um prefeito que em sua gestão anterior
havia sido preso por uso de drogas. A polícia
contratou mais de 2.000 novos
policiais, sem verificar a sua folha corrida. Sem controle,
bandidos viraram policiais. O diretor de Operações
Especiais da Polícia, amigo íntimo do
chefe, foi apanhado fazendo chantagem contra gays. O
serviço de exterminação de ratos
foi fechado. Quem caminha à noite perto da residência
presidencial pode ver as ratazanas passeando.
Com
a desordem, a qualidade do ensino público primário
e secundário também afundou. As escolas
da capital estão em penúltimo lugar nos
testes, apesar de serem das mais caras. As graduações
no secundário também estão na rabeira.
O Corpo
de Bombeiros condenou várias escolas públicas
por falta de segurança. Quando buscaram o dinheiro
separado para sua reforma, verificou-se que havia sido
gasto na preparação de uma festa para
comemorar a visita do antigo secretário. A diretora
do Conselho de Educação pediu um carro
com chofer, para visitar as escolas. Coisa de subdesenvolvido.
O clima
das escolas é tão envenenado que quando
enguiça o aparelho de raio X ou o detector de
metais, pelos quais têm de passar todos os alunos
que entram, costuma haver tiroteio na escola. De resto,
é considerável o número de alunos
assassinados nas escolas ou na sua vizinhança.
Em desespero de causa, foi contratado um general do
Exército como secretário de Educação.
Formaram seu time oficiais especializados em logística
militar e segurança.
Que
país é esse que tolera tamanho descalabro
na sua capital? Trata-se dos Estados Unidos, cuja capital
viveu uma década de caos.
Não
há como deixar de sentir uma ponta de vingança,
ao ver tão destramelada a capital de um país
dado a passar lições de moral nos outros.
Mas os últimos dois anos nos trazem uma nova
lição. Washington está sendo consertada.
Quase tudo está melhorando. A administração
pública está sendo remendada. O general
da Educação se foi, depois de desbastar
os erros mais grosseiros. O empreguismo endêmico
está sendo controlado.
A moral
da história: mesmo no país mais rico do
mundo e um dos berços da democracia moderna,
muitas administrações derrapam e afundam.
A capital do país desabou administrativamente.
Contudo, ainda mais relevante é a capacidade
de recuperação de uma sociedade. O teste
do desenvolvimento não é ser à
prova de desastre, mas ser capaz de dar a volta por
cima e consertar o estrago. E Washington renasce, mostrando
que a musculatura do Império ainda é sólida.
Claudio
de Moura Castro
é economista (claudiomc@ibm.net)