Edição 1 626 - 1º/12/1999

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A universidade do
distrito federal

"Mesmo no país mais rico do mundo
e um dos berços da democracia moderna,
muitas administrações derrapam e afundam.
Contudo, mais relevante é a capacidade
de recuperação de uma sociedade"

Ilustração: Alê Setti
N
a capital do país havia três faculdades. Foram fundidas e transformadas na universidade do distrito federal. Mas a politicagem e o empreguismo levaram a melhor. Por exemplo, cada biblioteca tinha sua bibliotecária-chefe. Com a fusão, ficaram três bibliotecárias-chefes. Coisa de subdesenvolvido.

Pela legislação arcaica, para receber os favores fiscais havia que ter uma estação agrícola. Assim, para um terreno desocupado mandou-se uma pessoa que estava sendo processada por desfalque. Com um salário elevadíssimo, planta salsa e cebolinha, para estimular o cultivo de temperinhos nas jardineiras da cidade. Igualmente, há uma comissão permanente para receber reclamações de criadores de carneiro – bicho que na cidade jamais se criou.

Os custos são altíssimos, os salários são elevados e a qualidade do ensino é deplorável. Certos cursos estão a ponto de perder o credenciamento. A corrupção e a politicagem na escolha dos dirigentes são generalizadas. Boa parte dos recursos vai para a creche dos filhos dos alunos. O clima é de desânimo e desmoralização. Muitos querem fechar sumariamente a universidade, consideram-na uma instituição sem salvação.

O tecido político da cidade se esgarçou, sendo eleito um prefeito que em sua gestão anterior havia sido preso por uso de drogas. A polícia contratou mais de 2.000 novos policiais, sem verificar a sua folha corrida. Sem controle, bandidos viraram policiais. O diretor de Operações Especiais da Polícia, amigo íntimo do chefe, foi apanhado fazendo chantagem contra gays. O serviço de exterminação de ratos foi fechado. Quem caminha à noite perto da residência presidencial pode ver as ratazanas passeando.

Com a desordem, a qualidade do ensino público primário e secundário também afundou. As escolas da capital estão em penúltimo lugar nos testes, apesar de serem das mais caras. As graduações no secundário também estão na rabeira.

O Corpo de Bombeiros condenou várias escolas públicas por falta de segurança. Quando buscaram o dinheiro separado para sua reforma, verificou-se que havia sido gasto na preparação de uma festa para comemorar a visita do antigo secretário. A diretora do Conselho de Educação pediu um carro com chofer, para visitar as escolas. Coisa de subdesenvolvido.

O clima das escolas é tão envenenado que quando enguiça o aparelho de raio X ou o detector de metais, pelos quais têm de passar todos os alunos que entram, costuma haver tiroteio na escola. De resto, é considerável o número de alunos assassinados nas escolas ou na sua vizinhança. Em desespero de causa, foi contratado um general do Exército como secretário de Educação. Formaram seu time oficiais especializados em logística militar e segurança.

Que país é esse que tolera tamanho descalabro na sua capital? Trata-se dos Estados Unidos, cuja capital viveu uma década de caos.

Não há como deixar de sentir uma ponta de vingança, ao ver tão destramelada a capital de um país dado a passar lições de moral nos outros. Mas os últimos dois anos nos trazem uma nova lição. Washington está sendo consertada. Quase tudo está melhorando. A administração pública está sendo remendada. O general da Educação se foi, depois de desbastar os erros mais grosseiros. O empreguismo endêmico está sendo controlado.

A moral da história: mesmo no país mais rico do mundo e um dos berços da democracia moderna, muitas administrações derrapam e afundam. A capital do país desabou administrativamente. Contudo, ainda mais relevante é a capacidade de recuperação de uma sociedade. O teste do desenvolvimento não é ser à prova de desastre, mas ser capaz de dar a volta por cima e consertar o estrago. E Washington renasce, mostrando que a musculatura do Império ainda é sólida.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@ibm.net)