|
|
Notas para um
dicionário
brasileiro
de política (3)
Cândidas
definições
de
verbetes que,
embora de
origem internacional,
têm ampla circulação
no
Brasil
Consenso
de Washington
Convergência dos governos de diferentes países
em torno das políticas recomendadas pelo governo
americano e agências internacionais como o Fundo
Monetário Internacional e o Banco Mundial. A expressão
foi cunhada pelo economista inglês John Williamson,
numa conferência do Institute for International
Economics, em Washington, em 1989. Na ocasião os
EUA preparavam-se para lançar o Plano Brady (do
nome do então secretário do Tesouro, Nicholas
Brady) para refinanciar a dívida dos países
pobres. Por "consenso de Washington" entendia-se a adesão
às medidas que se pediam em troca, tais como privatização,
abertura de mercado e desregulamentação.
No Brasil, a expressão é invocada quando
se quer denunciar o que se vê como submissão
do governo aos interesses americanos. Pense-se na Monica
que seduz Bill, que engana Hillary, que fustiga Bush,
que bate em Bradley, que desafia Al Gore, ou então
no Senado que desmoraliza o Executivo, ao derrubar o tratado
de proibição dos testes nucleares longamente
acalentado pelo governo Clinton, e conclui-se que, se
há um consenso de Washington, ainda falta
consenso em Washington.
Pensamento
único A
convergência, ou suposta convergência, dos
governos, partidos e atores políticos em geral
em torno dos princípios da economia dita de mercado,
depois da derrocada do comunismo. É quase sinônimo
de "consenso de Washington" (vide
verbete). A expressão nasceu na França,
como título de um livro lançado em 1991
pelo jornalista e cientista político Jean-François
Kahn: La Pensée Unique ("O Pensamento Único),
e foi aprimorada, para alcançar seu sentido de
denúncia de um horizonte político marcado
pela subserviência e pelo conformismo, num artigo
publicado por outro francês, Ignacio Ramonet, no
Le Monde Diplomatique. No Brasil, como "consenso
de Washington", é usada para hostilizar o governo.
Observe-se como, entre os partidos da chamada base aliada,
o PSDB espicaça o PMDB, que esmigalha o PFL, que
espedaça o PMDB, que esmurra o PSDB, ou como o
presidente da Câmara escaramuça o presidente
do Senado, que esfola o presidente, cujos ministros se
escangalham entre si, e conclui-se que, se o pensamento
entre eles é único, imagine-se se não
fosse.
Primeiro
Mundo O
conjunto de países que, regidos pela democracia
e pelo capitalismo, formam o bloco mais rico e tecnologicamente
avançado do planeta. Fruto de uma classificação
elaborada, nos anos 50, pelo demógrafo francês
Alfred Sauvy, o Primeiro Mundo constitui-se basicamente
dos países da Europa Ocidental e da América
do Norte, exceto o México, mais o Japão.
No Brasil, "Primeiro Mundo" virou sinônimo de excelência.
Se um produto é bom, é de "Primeiro Mundo".
Um empreendimento econômico de porte é de
"Primeiro Mundo". Uma ação social eficaz
é de "Primeiro Mundo". Em parte alguma o Primeiro
Mundo detém tanto prestígio como no Brasil.
Nem no Primeiro Mundo.
Terceira
Via
Opção política situada entre a pura
obediência aos ditames do mercado, de um lado, e
o puro alinhamento com o estado do bem-estar social, de
outro. Forjada pelo sociólogo inglês Anthony
Giddens, a expressão aplica-se sobretudo ao governo
do primeiro-ministro Tony Blair, de quem Giddens é
conselheiro, e é vista com agrado pelo presidente
Fernando Henrique Cardoso. Nas palavras de Giddens, a
terceira via seria "o esforço de modernização
da social-democracia perante a nova influência dominante
em nossas vidas: a globalização e a revolução
da informação". Seria uma resposta ao pensamento
único e ao consenso de Washington (vide verbetes).
Em décadas passadas, a expressão terceira
via caracterizava a tentativa de encontrar um meio-termo
entre o capitalismo e o comunismo. Foi tentada por exemplo
pela democracia cristã, em vários países.
Fracassou, mas era mais fácil identificar as diferenças
em jogo. Hoje só com uma lupa se distinguirá
na prática a terceira via da primeira (se é
que alguém confessa segui-la) e da segunda (se
é que alguém insiste em adotá-la).
Terceiro
Mundo O
conjunto dos países menos aquinhoados do planeta.
A classificação do francês Alfred Sauvy
dividia o mundo entre um Primeiro Mundo (vide
verbete) desenvolvido e capitalista, um Segundo constituído
pelos países comunistas e um Terceiro abrangendo
os demais os atrasados, enjeitados e oprimidos. O
Segundo Mundo desapareceu, mas o Terceiro continuou Terceiro.
Numa corrida, se o segundo colocado cai fora, o terceiro
passa a segundo. Só por absurdo se continuará
a chamá-lo de terceiro. No entanto é isso
o que ocorre com o Terceiro Mundo, numa indicação
talvez de que se trata de uma corrida a que está
condenado a não vencer jamais. Antes da classificação
de Sauvy, o mundo era um só. Ninguém era primeiro,
segundo ou terceiro. Já éramos infelizes,
pois a pobreza e o atraso já não faltavam,
mas não sabíamos.
|