Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Notas para um dicionário
brasileiro de política (3)

Cândidas definições de verbetes que,
embora
de origem internacional,
têm ampla
circulação no Brasil

 

Consenso de Washington – Convergência dos governos de diferentes países em torno das políticas recomendadas pelo governo americano e agências internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. A expressão foi cunhada pelo economista inglês John Williamson, numa conferência do Institute for International Economics, em Washington, em 1989. Na ocasião os EUA preparavam-se para lançar o Plano Brady (do nome do então secretário do Tesouro, Nicholas Brady) para refinanciar a dívida dos países pobres. Por "consenso de Washington" entendia-se a adesão às medidas que se pediam em troca, tais como privatização, abertura de mercado e desregulamentação. No Brasil, a expressão é invocada quando se quer denunciar o que se vê como submissão do governo aos interesses americanos. Pense-se na Monica que seduz Bill, que engana Hillary, que fustiga Bush, que bate em Bradley, que desafia Al Gore, ou então no Senado que desmoraliza o Executivo, ao derrubar o tratado de proibição dos testes nucleares longamente acalentado pelo governo Clinton, e conclui-se que, se há um consenso de Washington, ainda falta consenso em Washington.

Pensamento único – A convergência, ou suposta convergência, dos governos, partidos e atores políticos em geral em torno dos princípios da economia dita de mercado, depois da derrocada do comunismo. É quase sinônimo de "consenso de Washington" (vide verbete). A expressão nasceu na França, como título de um livro lançado em 1991 pelo jornalista e cientista político Jean-François Kahn: La Pensée Unique ("O Pensamento Único), e foi aprimorada, para alcançar seu sentido de denúncia de um horizonte político marcado pela subserviência e pelo conformismo, num artigo publicado por outro francês, Ignacio Ramonet, no Le Monde Diplomatique. No Brasil, como "consenso de Washington", é usada para hostilizar o governo. Observe-se como, entre os partidos da chamada base aliada, o PSDB espicaça o PMDB, que esmigalha o PFL, que espedaça o PMDB, que esmurra o PSDB, ou como o presidente da Câmara escaramuça o presidente do Senado, que esfola o presidente, cujos ministros se escangalham entre si, e conclui-se que, se o pensamento entre eles é único, imagine-se se não fosse.

Primeiro Mundo – O conjunto de países que, regidos pela democracia e pelo capitalismo, formam o bloco mais rico e tecnologicamente avançado do planeta. Fruto de uma classificação elaborada, nos anos 50, pelo demógrafo francês Alfred Sauvy, o Primeiro Mundo constitui-se basicamente dos países da Europa Ocidental e da América do Norte, exceto o México, mais o Japão. No Brasil, "Primeiro Mundo" virou sinônimo de excelência. Se um produto é bom, é de "Primeiro Mundo". Um empreendimento econômico de porte é de "Primeiro Mundo". Uma ação social eficaz é de "Primeiro Mundo". Em parte alguma o Primeiro Mundo detém tanto prestígio como no Brasil. Nem no Primeiro Mundo.

Terceira Via – Opção política situada entre a pura obediência aos ditames do mercado, de um lado, e o puro alinhamento com o estado do bem-estar social, de outro. Forjada pelo sociólogo inglês Anthony Giddens, a expressão aplica-se sobretudo ao governo do primeiro-ministro Tony Blair, de quem Giddens é conselheiro, e é vista com agrado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Nas palavras de Giddens, a terceira via seria "o esforço de modernização da social-democracia perante a nova influência dominante em nossas vidas: a globalização e a revolução da informação". Seria uma resposta ao pensamento único e ao consenso de Washington (vide verbetes). Em décadas passadas, a expressão terceira via caracterizava a tentativa de encontrar um meio-termo entre o capitalismo e o comunismo. Foi tentada por exemplo pela democracia cristã, em vários países. Fracassou, mas era mais fácil identificar as diferenças em jogo. Hoje só com uma lupa se distinguirá na prática a terceira via da primeira (se é que alguém confessa segui-la) e da segunda (se é que alguém insiste em adotá-la).

Terceiro Mundo – O conjunto dos países menos aquinhoados do planeta. A classificação do francês Alfred Sauvy dividia o mundo entre um Primeiro Mundo (vide verbete) desenvolvido e capitalista, um Segundo constituído pelos países comunistas e um Terceiro abrangendo os demais – os atrasados, enjeitados e oprimidos. O Segundo Mundo desapareceu, mas o Terceiro continuou Terceiro. Numa corrida, se o segundo colocado cai fora, o terceiro passa a segundo. Só por absurdo se continuará a chamá-lo de terceiro. No entanto é isso o que ocorre com o Terceiro Mundo, numa indicação talvez de que se trata de uma corrida a que está condenado a não vencer jamais. Antes da classificação de Sauvy, o mundo era um só. Ninguém era primeiro, segundo ou terceiro. Já éramos infelizes, pois a pobreza e o atraso já não faltavam, mas não sabíamos.