Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Direto do mundinho

Livro faz a crônica dos clubbers e de sua
influência entre os jovens urbanos

Gloria Kalil

 

Vamos ver se você acerta: quem é que se veste como um clubber, dança a noite toda ao som do tecno em pistas de clubes, amanhece em festas raves e sabe tudo sobre música? Outro clubber, o.k. Mas não só. Pode muito bem ser uma finíssima patricinha, garota bem-nascida, sem um pingo de rebeldia no sangue, mas que, mesmo assim, adotou para seu visual os principais elementos do povo da noite, como plumas, paetês, brilhos e cores fluorescentes. Tribo que nasceu na Europa, os clubbers, com sua música eletrônica, sua moda extravagante e sua atitude festeira e descompromissada, influenciam hoje em dia modos e costumes de jovens por toda parte. A crônica desse movimento alternativo que chegou ao Brasil no começo dos anos 90 e aos poucos, meio sem querer, desembarcou nos shoppings e nas butiques chiques é contada no livro Babado Forte, da jornalista Erika Palomino, 31 anos, ela mesma uma clubber de primeira hora que virou meio madrinha do "mundinho". Montado, para usar o vocabulário da turma, com paixão de protagonista, o livro, que tem lançamento oficial neste domingo (com, claro, uma festança), faz uma panorâmica do comportamento da vanguarda da juventude paulistana e carioca nesta década. "Gosto especialmente do capítulo da moda. A noite e as pistas de dança sempre foram um palco de experiências para as inovações dos estilistas", diz Erika.

Pronta para
dançar: o look
radical dos
clubbers
em versão
suavizada
Johnny Luxo, o ícone: ironia e bom humor nas plumas, paetês
e bolsinhas de Barbie e Mickey
No cenário clubber, roupa sempre foi um fator de diversão, ironia e expressão. O ícone dessa atitude, presente em Babado Forte do começo ao fim, é o paulista "Johnny Luxo", 26 anos, nascido João Marcelo Rolim, que da noite para o dia (ou melhor, da noite para a noite) virou celebridade simplesmente pela maneira – nada simples, diga-se – de se vestir, andar, olhar e falar. Hoje em dia, Johnny é convidado para desfiles, festas e apresentações no Brasil inteiro. Dá autógrafos em aeroportos, é reconhecido nas ruas e até tem clones Brasil afora. Durante seus anos clubber, acumulou uma respeitável coleção de roupas, que vão de Courrèges a Denner, passando por uniformes de aeromoças ("da Vasp", esclarece) e invenções e misturas que ele mesmo faz.
 
Drags "montadas" – A passagem da moda que os jovens vestiam na rua, inclusive o visual clubber, para as passarelas que ditam o que todo mundo vai usar se deu aos poucos, e com algum tropeço. Em 1993, o americano Marc Jacobs, hoje estilista da Louis Vuitton, fez para a grife em que então trabalhava, a Perry Ellis, uma coleção totalmente inspirada no jeito desleixado-com-capricho da meninada grunge surgida em Seattle, nos Estados Unidos. Foi despedido no ato. Um ano depois, Donna Karan, já à frente de um grupo poderoso, lançou uma coleção calcada na roupa dos jovens freqüentadores dos clubes nova-iorquinos, os clubkidz. A tendência fincou raízes com a ajuda da cantora Madonna e seus modelos desenhados pelo estilista francês Jean-Paul Gaultier, entre eles o famosíssimo sutiã-cone.

O pulo do visual das pistas noturnas para a moda comercial é fenômeno que se repete em toda parte. A poderosa Dior tem no clubber John Galliano seu criador responsável. O alternativíssimo inglês Alexander McQueen responde pelo estilo da maison Givenchy. Nomes importantes da moda nacional saíram dos clubes, como Alexandre Herchcovitch e Walter Rodrigues, dois talentos hoje integrados ao mundo da moda comercial: Herchcovitch cuida de estilo na Zoomp, uma das maiores marcas do país, e Rodrigues cria em seu ateliê disputados vestidos de festa. As drag queens, homens travestidos de mulher em produções luxuosas e ousadas, viraram estrelas de shows, filmes e programas de TV. Sempre montadíssimas, claro. "Montação é a gíria que sai do universo dos travestis de rua para significar também um modo mais extravagante, fashion ou caprichado de se vestir", explica Erika.
 

Mudança de atitude – Mas não foi só no jeito de se vestir que o que era um clubinho fechado foi se enchendo de gente "de fora". As raves, festas ao ar livre que começam de madrugada e terminam com dia claro, ganharam freqüentadores que antes só se sacudiam em boates e danceterias. Para o bem ou para o mal, não existe mais festa sem DJ, o tecno é tocado em rádios comerciais e os clubes improvisados descritos nos primeiros capítulos de Babado Forte, onde uma turminha de iniciados se reunia para consumir drogas, exibir-se e dançar, agora abrigam jovens de todas as tribos em busca de diversão. Com isso, música, moda e comportamento do final do milênio tornam-se múltiplos, cheios de propostas diferentes, para todos os tipos de vida e identidade – uma conquista que tem tudo a ver com os modos e costumes da chamada cena noturna. "Sinto as pessoas mais receptivas, mais tolerantes, mais respeitosas com o mundo clubber. Elas ficaram menos tensas diante dos valores alternativos", alegra-se Erika.

 

De lá pra cá

Tatuagens: preferência pelas de
hena, que se apagam em
poucos dias

 


Piercings: furos, argolas e
pingentes se espalharam pelo corpo dos mais ousados

 

 



Presilhas:
quanto mais,
melhor, no cabelo curtinho
ou comprido

 

 


Óculos amarelos e escuros: para usar à noite, nas pistas dos clubes enfumaçados

 

Pulseiras: muita
cor e brilho,
combinando com o
visual divertido das

roupas e sapatos

 

 

 

Fotos: Renata Ursaia, Everton Ballardin, Frederico Busch, Andrea Zahra, Thomas Kremer, Jorge Butsuen