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O raio X do
poder
Livro
fala de jornais, políticos
e empresários e conta os
bastidores da era Collor
Foi
lançado na semana passada um livro que devassa
a intimidade das catedrais onde se fabrica a imprensa
brasileira. O livro se chama Notícias
do Planalto A Imprensa e Fernando Collor,
e seu autor é Mario Sérgio Conti, um paulistano
de 45 anos, ex-diretor de redação de VEJA,
cujo trabalho se tornou nos últimos dias o assunto
mais discutido nas grandes redações brasileiras.
Conti fez um livro em três camadas. A primeira
tenta mostrar as relações da grande imprensa
com a superfície e os subterrrâneos do
governo Collor. A segunda trata da imprensa em si, descrevendo
a história de seus proprietários e jornalistas
nos últimos cinqüenta anos. A terceira camada,
mais diluída, espalhada por todo o livro e nunca
analisada explicitamente pelo autor, contempla o Brasil
das grandes maquinações que enriquecem
empresas, elegem políticos e se infiltram nos
círculos do poder por meio da compra ou troca
de facilidades. No fim do livro, o autor relata um dos
muitos encontros que teve com o ex-tesoureiro de Collor,
Paulo César Farias, que acabara de deixar a cadeia
e vivia em liberdade condicional em Maceió, enquanto
Fernando Collor, afastado do cargo, levava uma vida
ensolarada em Miami. Provocado pelo jornalista, PC faz
esta reflexão: "Não dá para escrever
a história da política brasileira sem
que as grandes empreiteiras apareçam em cada
página e sem dedicar um monte de capítulos
aos banqueiros". É desse tipo de material que
o livro é feito.
Heudes Regis
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PC
Farias: os empresários
do Centro-Sul paparicavam
o tesoureiro.
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Poucas pessoas estariam tão equipadas para escrever
um trabalho como esse. Conti trabalhou em VEJA durante
14 anos, os últimos sete como diretor de redação.
Conviveu com caciques da Rede Globo, como José
Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que se
tornaria seu amigo, e Roberto Marinho, o presidente do
conglomerado, que o recebia na mansão do Cosme
Velho, no Rio de Janeiro, ou na casa de praia, em Angra
dos Reis. Dava-se bem com Silvio Santos, o dono do SBT.
Talvez tenha sido o jornalista brasileiro que mais entrevistou
Fernando Collor de Mello e PC Farias. Desvenda em Collor,
através de declarações de entrevistados,
um político com o gênio teatral de um Jânio
Quadros, intuição suficiente para se vender
como um produto inédito e moderno, além
da sorte de contar com o adversário Luís
Inácio Lula da Silva, que assustava o patronato
nacional, do qual saem as doações para as
campanhas eleitorais. O aparecimento do fenômeno
PC é tão vertiginoso quanto o de seu chefe.
"Com a posse do amigo na Presidência, Farias radicalizou
seu plano de ascensão social. A fina flor do empresariado
o paparicava e propunha negócios", escreve Conti.
PC Farias achava que o grupo alagoano se manteria encastelado
no poder durante vinte anos. Para isso, ele teria de eleger
governadores e uma bancada formidável em 1990.
"Agiria nas sombras, azeitando concorrências públicas,
privatizações e promovendo meganegócios
sempre em consonância com os interesses de
Collor. Agiria no sentido de pôr de pé uma
companhia de aviação que se contrapusesse
ao poderio da Varig. Começaria por participar da
privatização da companhia aérea do
governo paulista, a Vasp. Tentaria comprar um jornal e
talvez montasse uma rede de televisão. A sua autoconfiança
se transformara em megalomania."
Fotos: Orlando Brito
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Collor:
o político teatral fixa a
imagem
de jovem e moderno
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É
preciso notar que a megalomania se apoiava numa sólida
mala de dinheiro, 160 milhões de dólares
arrecadados na campanha de 1989, dos quais sobraram
60 milhões para gastar depois, segundo as estimativas
obtidas pelo autor. PC comprou jatos para criar uma
empresa de transporte aéreo e contribuiu com
Wagner Canhedo na compra da Vasp. Entrou com dinheiro
para que o empresário paranaense José
Carlos Martinez pudesse montar uma rede de televisão.
Ofereceu 120 milhões de dólares a Manoel
Francisco do Nascimento Brito pelo Jornal
do Brasil,
acerto que não se concretizou. Criou um jornal
em Maceió, onde tinha planos de estabelecer uma
teia local de rádios e televisão. Esse
dinheiro todo foi extraído por PC Farias de empresários
ricos, conhecidos e respeitados do Centro-Sul, ávidos
por adular o caixa de Collor, a fim de ser recompensados
com favores oficiais.
Mario
Sérgio Conti pesquisou muito em arquivos e ouviu
141 pessoas, como nota no livro. Notícias
do Planalto,
editado pela Companhia das Letras, ficou com 719 páginas,
apresenta 1.200
personagens e custa 35 reais. Na semana passada, muitos
dos personagens que freqüentam suas páginas
queixavam-se, principalmente pelas redações,
da irrelevância que o autor teria conferido a
seus papéis em determinados episódios,
nos quais ele próprio apareceria com realce.
Ouviram-se também críticas a respeito
da descrição preconceituosa, contra e
também a favor, que Mario Sérgio teria
dado a muitos personagens. Talvez seja inevitável,
num calhamaço que coloca em cena 1.200
figurantes, cada um deles com a expectativa natural
de aparecer bem. E muita gente aparece mal nesse livro
sobre jornalistas e donos de jornais, revistas e estações
de TV. Esse também foi o motivo pelo qual o livro
despertou tanto interesse nas redações.
Sobre
VEJA, há farto material, especialmente em relação
às dezenas de denúncias que a revista
publicou sobre Collor, PC Farias e outros personagens
do grupo alagoano, culminando com os bastidores da entrevista
que Pedro Collor, irmão do presidente, concedeu
à revista, um dos elementos impulsionadores de
seu impeachment. Há ainda, a respeito de VEJA,
a sugestão de Conti de que a revista teria publicado
em duas ocasiões, mediante pagamento, matérias
favoráveis a Iris Rezende, na época em
que ele era pré-candidato a presidente pelo PMDB,
em 1989, e candidato a governador de Goiás, em
1990 (veja
quadro).
O jornalista não faz uma acusação
frontal. Diz que nem mesmo insinua. "Eu não consegui
apurar, apenas registrei fatos isolados que descobri
durante a apuração do material do livro
e considerei significativos", afirma Conti. Também
é volumoso o material sobre jornais como Folha
de S.Paulo, Estadão, JB
e Globo.
Entra-se pelos gabinetes de comando desses órgãos
e conhecem-se seus ocupantes ao ponto das manias de
cada um. A excursão também passa pela
revista IstoÉ,
pela Rede Bandeirantes e pela TV Globo.
Numa
passagem sobre a Globo, Tancredo Neves, recém-eleito
presidente, pergunta a Antonio Carlos Magalhães,
que ele havia chamado para ser ministro das Comunicações,
se o baiano se incomodaria de receber o convite diretamente
de Roberto Marinho. Tancredo queria agradar ao dono
da Globo. "Não, não me incomodo. Ele é
meu amigo", respondeu ACM. Antes de ser nomeado ministro
da Fazenda de José Sarney, Mailson da Nóbrega
encontrou-se com Roberto Marinho, a pedido do presidente,
e foi sabatinado sobre temas econômicos. Saiu
do encontro aprovado no teste e soube de sua nomeação
pelo plantão do Jornal
Nacional,
antes que Sarney o avisasse.
Ainda
em torno da Rede Globo, há um capítulo mostrando
como o debate entre Collor e Lula foi editado às
vésperas da eleição para que, no
Jornal Nacional,
o candidato favorito do eleitorado e vitorioso no debate
parecesse massacrar com mais força ainda o adversário
diante das câmaras. Não é novidade,
mas há detalhes copiosos sobre o episódio,
entrelaçados com a briga pelo poder no departamento
de jornalismo da emissora, de onde foi ejetado Armando
Nogueira, para que lá pudesse reinar Alberico de
Souza Cruz, apontado por Conti como o responsável
pela edição do debate entre Collor e Lula.
"Não li o livro, mas, se ele realmente diz que
a responsabilidade pela edição foi minha,
então está mentindo. A edição
foi correta, mas não fui eu quem a fez", diz Alberico.
Por reações como a de Alberico, pode-se
dizer que a história escrita em 719 páginas
continua e continuará a se desenrolar fora do livro.
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