Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Hotéis de Las Vegas reproduzem a Europa no deserto
Pacotes para o final de ano encalham nas agências
China entra para o fechado clube
Lua de Júpiter lembra passado da Terra
A importância do pai na formação dos filhos
O mineiro Jefferson, que virou Jéssica
Brasileira entre os dez melhores do surfe mundial
Amapá vira maior pólo de atração de migrantes
O Chuí, marco do extremo sul do país, está sumindo
A preocupação com a velhice começa mais cedo
O papel do capelão na assistência aos doentes

Novos municípios sugam recursos federais
O tratamento que recupera viciados em heroína
Como entrar em forma antes da virada do ano
Peixes avançam sobre menu de restaurantes finos
A dose semanal de álcool que pode evitar o infarto
Os Airbus chegam para substituir os Fokker da TAM
Gisele Bündchen, a top model brasileira
Livro fala sobre a imprensa no governo Collor
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O raio X do poder

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O capítulo VEJA
A propósito...
Livro fala de jornais, políticos
e empresários e conta os
bastidores da era Collor


Foi lançado na semana passada um livro que devassa a intimidade das catedrais onde se fabrica a imprensa brasileira. O livro se chama Notícias do Planalto – A Imprensa e Fernando Collor, e seu autor é Mario Sérgio Conti, um paulistano de 45 anos, ex-diretor de redação de VEJA, cujo trabalho se tornou nos últimos dias o assunto mais discutido nas grandes redações brasileiras. Conti fez um livro em três camadas. A primeira tenta mostrar as relações da grande imprensa com a superfície e os subterrrâneos do governo Collor. A segunda trata da imprensa em si, descrevendo a história de seus proprietários e jornalistas nos últimos cinqüenta anos. A terceira camada, mais diluída, espalhada por todo o livro e nunca analisada explicitamente pelo autor, contempla o Brasil das grandes maquinações que enriquecem empresas, elegem políticos e se infiltram nos círculos do poder por meio da compra ou troca de facilidades. No fim do livro, o autor relata um dos muitos encontros que teve com o ex-tesoureiro de Collor, Paulo César Farias, que acabara de deixar a cadeia e vivia em liberdade condicional em Maceió, enquanto Fernando Collor, afastado do cargo, levava uma vida ensolarada em Miami. Provocado pelo jornalista, PC faz esta reflexão: "Não dá para escrever a história da política brasileira sem que as grandes empreiteiras apareçam em cada página e sem dedicar um monte de capítulos aos banqueiros". É desse tipo de material que o livro é feito.

Heudes Regis
PC Farias: os empresários
do Centro-Sul paparicavam
o tesoureiro.

Poucas pessoas estariam tão equipadas para escrever um trabalho como esse. Conti trabalhou em VEJA durante 14 anos, os últimos sete como diretor de redação. Conviveu com caciques da Rede Globo, como José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que se tornaria seu amigo, e Roberto Marinho, o presidente do conglomerado, que o recebia na mansão do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, ou na casa de praia, em Angra dos Reis. Dava-se bem com Silvio Santos, o dono do SBT. Talvez tenha sido o jornalista brasileiro que mais entrevistou Fernando Collor de Mello e PC Farias. Desvenda em Collor, através de declarações de entrevistados, um político com o gênio teatral de um Jânio Quadros, intuição suficiente para se vender como um produto inédito e moderno, além da sorte de contar com o adversário Luís Inácio Lula da Silva, que assustava o patronato nacional, do qual saem as doações para as campanhas eleitorais. O aparecimento do fenômeno PC é tão vertiginoso quanto o de seu chefe. "Com a posse do amigo na Presidência, Farias radicalizou seu plano de ascensão social. A fina flor do empresariado o paparicava e propunha negócios", escreve Conti. PC Farias achava que o grupo alagoano se manteria encastelado no poder durante vinte anos. Para isso, ele teria de eleger governadores e uma bancada formidável em 1990. "Agiria nas sombras, azeitando concorrências públicas, privatizações e promovendo meganegócios – sempre em consonância com os interesses de Collor. Agiria no sentido de pôr de pé uma companhia de aviação que se contrapusesse ao poderio da Varig. Começaria por participar da privatização da companhia aérea do governo paulista, a Vasp. Tentaria comprar um jornal e talvez montasse uma rede de televisão. A sua autoconfiança se transformara em megalomania."



Fotos: Orlando Brito

Collor: o político teatral fixa a imagem
de jovem e moderno


É preciso notar que a megalomania se apoiava numa sólida mala de dinheiro, 160 milhões de dólares arrecadados na campanha de 1989, dos quais sobraram 60 milhões para gastar depois, segundo as estimativas obtidas pelo autor. PC comprou jatos para criar uma empresa de transporte aéreo e contribuiu com Wagner Canhedo na compra da Vasp. Entrou com dinheiro para que o empresário paranaense José Carlos Martinez pudesse montar uma rede de televisão. Ofereceu 120 milhões de dólares a Manoel Francisco do Nascimento Brito pelo Jornal do Brasil, acerto que não se concretizou. Criou um jornal em Maceió, onde tinha planos de estabelecer uma teia local de rádios e televisão. Esse dinheiro todo foi extraído por PC Farias de empresários ricos, conhecidos e respeitados do Centro-Sul, ávidos por adular o caixa de Collor, a fim de ser recompensados com favores oficiais.

Mario Sérgio Conti pesquisou muito em arquivos e ouviu 141 pessoas, como nota no livro. Notícias do Planalto, editado pela Companhia das Letras, ficou com 719 páginas, apresenta 1.200 personagens e custa 35 reais. Na semana passada, muitos dos personagens que freqüentam suas páginas queixavam-se, principalmente pelas redações, da irrelevância que o autor teria conferido a seus papéis em determinados episódios, nos quais ele próprio apareceria com realce. Ouviram-se também críticas a respeito da descrição preconceituosa, contra e também a favor, que Mario Sérgio teria dado a muitos personagens. Talvez seja inevitável, num calhamaço que coloca em cena 1.200 figurantes, cada um deles com a expectativa natural de aparecer bem. E muita gente aparece mal nesse livro sobre jornalistas e donos de jornais, revistas e estações de TV. Esse também foi o motivo pelo qual o livro despertou tanto interesse nas redações.

Sobre VEJA, há farto material, especialmente em relação às dezenas de denúncias que a revista publicou sobre Collor, PC Farias e outros personagens do grupo alagoano, culminando com os bastidores da entrevista que Pedro Collor, irmão do presidente, concedeu à revista, um dos elementos impulsionadores de seu impeachment. Há ainda, a respeito de VEJA, a sugestão de Conti de que a revista teria publicado em duas ocasiões, mediante pagamento, matérias favoráveis a Iris Rezende, na época em que ele era pré-candidato a presidente pelo PMDB, em 1989, e candidato a governador de Goiás, em 1990 (veja quadro). O jornalista não faz uma acusação frontal. Diz que nem mesmo insinua. "Eu não consegui apurar, apenas registrei fatos isolados que descobri durante a apuração do material do livro e considerei significativos", afirma Conti. Também é volumoso o material sobre jornais como Folha de S.Paulo, Estadão, JB e Globo. Entra-se pelos gabinetes de comando desses órgãos e conhecem-se seus ocupantes ao ponto das manias de cada um. A excursão também passa pela revista IstoÉ, pela Rede Bandeirantes e pela TV Globo.

Numa passagem sobre a Globo, Tancredo Neves, recém-eleito presidente, pergunta a Antonio Carlos Magalhães, que ele havia chamado para ser ministro das Comunicações, se o baiano se incomodaria de receber o convite diretamente de Roberto Marinho. Tancredo queria agradar ao dono da Globo. "Não, não me incomodo. Ele é meu amigo", respondeu ACM. Antes de ser nomeado ministro da Fazenda de José Sarney, Mailson da Nóbrega encontrou-se com Roberto Marinho, a pedido do presidente, e foi sabatinado sobre temas econômicos. Saiu do encontro aprovado no teste e soube de sua nomeação pelo plantão do Jornal Nacional, antes que Sarney o avisasse.

Ainda em torno da Rede Globo, há um capítulo mostrando como o debate entre Collor e Lula foi editado às vésperas da eleição para que, no Jornal Nacional, o candidato favorito do eleitorado e vitorioso no debate parecesse massacrar com mais força ainda o adversário diante das câmaras. Não é novidade, mas há detalhes copiosos sobre o episódio, entrelaçados com a briga pelo poder no departamento de jornalismo da emissora, de onde foi ejetado Armando Nogueira, para que lá pudesse reinar Alberico de Souza Cruz, apontado por Conti como o responsável pela edição do debate entre Collor e Lula. "Não li o livro, mas, se ele realmente diz que a responsabilidade pela edição foi minha, então está mentindo. A edição foi correta, mas não fui eu quem a fez", diz Alberico. Por reações como a de Alberico, pode-se dizer que a história escrita em 719 páginas continua e continuará a se desenrolar fora do livro.