A culpa é
do bug
"As
autoridades têm estado muito ocupadas
impondo diretrizes a fim de garantir uma transição
tranqüila para o ano 2000. Todavia, o esforço
colocado nesse tema tem sido de tal ordem que
o preparativo começou a
gerar tanta confusão
e despesa quanto o problema do bug em si"
Ilustração
Ale Setti
 |
O San Jose
Mercury News é
um dos mais prestigiados jornais locais dos EUA. A cidade
está no epicentro desse verdadeiro terremoto
tecnológico e econômico conhecido como
Vale do Silício. Compreende-se, portanto, por
que a editoria de ciência e tecnologia do SJMN
esteja
entre as melhores do país. No mês passado,
o jornal publicou um caderno especial sobre o bug do
milênio a partir do qual se pode medir a ansiedade
que existe quanto ao assunto nessa região. O
caderno sugeria aos leitores um kit de trinta coisas
essenciais para toda família ter à mão
na passagem do ano. Desse kit constam, dentre outros
itens, água (um galão por pessoa/dia),
comida em lata, abridor de lata (é claro), sacos
de dormir, rádio de pilha, fósforos, velas,
papel de alumínio, sacos de lixo, extintores
de incêndio, lanternas, martelo, pregos, luvas,
chapéu, óculos escuros, botas, luvas de
trabalho, apitos, sabão e papel higiênico.
A julgar pela lista, o leitor (de lá e daqui)
está autorizado a acreditar que o bug do milênio
fará com o Vale do Silício mais ou menos
o que o Plano Collor fez com o Brasil.
Como
existem ainda muitas pessoas que não têm
tantas afinidades com computadores, imagino que grande
número de leitores não saiba exatamente
no que consiste essa catástrofe com data marcada.
É simples: em antigos programas de computador,
onde eram alocados apenas dois dígitos para o ano,
a virada de 99 para 00 fará com que a máquina
entenda que estamos em 1/1/00, ou seja, que passamos para
uma data passada, o ano da graça de 1900. Esse
entendimento, ou desentendimento, poderá fazer
com que comandos indesejáveis sejam executados.
Por exemplo: algumas caixas-fortes do Banco Central do
Brasil se abrem automaticamente uma vez por mês.
A não-correção desse programa provocaria
a abertura automática na meia-noite de 1999 para
2000, e, se esses cofres-fortes falassem, ainda pediriam
desculpas pelo atraso de mais de um século.
Coisas muito piores podem acontecer com computadores de
aviões, de companhias de eletricidade e de telefonia.
O desempenho recente destas últimas, em particular,
deve motivar o leitor a acrescentar a seu kit algum dispositivo
mais primitivo de comunicação, como pombos-correios
ou tambores.
Autoridades
regulatórias mundo afora têm estado muito
ocupadas impondo diretrizes às entidades sob sua
influência a fim de garantir uma transição
tranqüila. O que, muito provavelmente, ocorrerá.
Todavia, o esforço colocado nesse tema tem sido
de tal ordem que o preparativo começou a gerar
tanta confusão, ou pelo menos tanta despesa, quanto
o problema em si. Essa conjectura é firmemente
apoiada pela disparada no preço da hora de trabalho
dos programadores que mexem com antigas linguagens de
computador. Subitamente, o bug se tornou um problema,
ou pelo menos um pretexto. Quem está em dúvida
sobre um investimento sempre poderá dizer que,
antes do réveillon, nada feito. As exportações
não estão reagindo à ultra-maxidesvalorização,
ou as entradas de capital estão fracas, a culpa
é do bug. Depois do réveillon, tudo se normaliza.
Bem, deve-se também notar que existe um movimento
de "bug-céticos" que, sem prejuízo do profundo
respeito que todos devemos ter pelas possíveis
conseqüências do bug (e da máxi), já
há algum tempo acham que as coisas estão
indo longe demais. Alguns fundadores do movimento, no
capítulo brasileiro, alegavam que num país
que já passou por tantos choques econômicos,
geralmente fazendo as empresas reinventar suas atividades
durante um fim de semana ou num exíguo feriado
bancário, o bug era, para usar uma expressão
antiga e low tech, café pequeno. Outros
acrescentavam que o Brasil havia entrado atrasado na era
da computação e não existiam muitos
programas antigos, feitos com os tais dois dígitos.
Outros, mais bem informados, diziam que bugs semelhantes
haviam passado sem que ninguém notasse. A data
9/9/99, por exemplo, era perigosíssima, pois muitos
programas antigos usavam 9999 como sinalizador de "fim
de arquivo". Passou e não aconteceu nada.
De toda
maneira, tanto o bug quanto o medo do bug terão
passado em pouco mais de um mês, após o que
tudo se normaliza, ou não.
Gustavo
Franco
é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)