Edição 1 626 - 1º/12/1999

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A culpa é do bug

"As autoridades têm estado muito ocupadas
impondo diretrizes a fim de garantir uma transição
tranqüila para o ano 2000. Todavia, o esforço
colocado nesse tema tem sido de tal ordem que
o preparativo começou
a gerar tanta confusão
e despesa quanto o problema do bug em si"

Ilustração Ale Setti


O
San Jose Mercury News é um dos mais prestigiados jornais locais dos EUA. A cidade está no epicentro desse verdadeiro terremoto tecnológico e econômico conhecido como Vale do Silício. Compreende-se, portanto, por que a editoria de ciência e tecnologia do SJMN esteja entre as melhores do país. No mês passado, o jornal publicou um caderno especial sobre o bug do milênio a partir do qual se pode medir a ansiedade que existe quanto ao assunto nessa região. O caderno sugeria aos leitores um kit de trinta coisas essenciais para toda família ter à mão na passagem do ano. Desse kit constam, dentre outros itens, água (um galão por pessoa/dia), comida em lata, abridor de lata (é claro), sacos de dormir, rádio de pilha, fósforos, velas, papel de alumínio, sacos de lixo, extintores de incêndio, lanternas, martelo, pregos, luvas, chapéu, óculos escuros, botas, luvas de trabalho, apitos, sabão e papel higiênico. A julgar pela lista, o leitor (de lá e daqui) está autorizado a acreditar que o bug do milênio fará com o Vale do Silício mais ou menos o que o Plano Collor fez com o Brasil.

Como existem ainda muitas pessoas que não têm tantas afinidades com computadores, imagino que grande número de leitores não saiba exatamente no que consiste essa catástrofe com data marcada. É simples: em antigos programas de computador, onde eram alocados apenas dois dígitos para o ano, a virada de 99 para 00 fará com que a máquina entenda que estamos em 1/1/00, ou seja, que passamos para uma data passada, o ano da graça de 1900. Esse entendimento, ou desentendimento, poderá fazer com que comandos indesejáveis sejam executados. Por exemplo: algumas caixas-fortes do Banco Central do Brasil se abrem automaticamente uma vez por mês. A não-correção desse programa provocaria a abertura automática na meia-noite de 1999 para 2000, e, se esses cofres-fortes falassem, ainda pediriam desculpas pelo atraso de mais de um século.

Coisas muito piores podem acontecer com computadores de aviões, de companhias de eletricidade e de telefonia. O desempenho recente destas últimas, em particular, deve motivar o leitor a acrescentar a seu kit algum dispositivo mais primitivo de comunicação, como pombos-correios ou tambores.
Autoridades regulatórias mundo afora têm estado muito ocupadas impondo diretrizes às entidades sob sua influência a fim de garantir uma transição tranqüila. O que, muito provavelmente, ocorrerá. Todavia, o esforço colocado nesse tema tem sido de tal ordem que o preparativo começou a gerar tanta confusão, ou pelo menos tanta despesa, quanto o problema em si. Essa conjectura é firmemente apoiada pela disparada no preço da hora de trabalho dos programadores que mexem com antigas linguagens de computador. Subitamente, o bug se tornou um problema, ou pelo menos um pretexto. Quem está em dúvida sobre um investimento sempre poderá dizer que, antes do réveillon, nada feito. As exportações não estão reagindo à ultra-maxidesvalorização, ou as entradas de capital estão fracas, a culpa é do bug. Depois do réveillon, tudo se normaliza.

Bem, deve-se também notar que existe um movimento de "bug-céticos" que, sem prejuízo do profundo respeito que todos devemos ter pelas possíveis conseqüências do bug (e da máxi), já há algum tempo acham que as coisas estão indo longe demais. Alguns fundadores do movimento, no capítulo brasileiro, alegavam que num país que já passou por tantos choques econômicos, geralmente fazendo as empresas reinventar suas atividades durante um fim de semana ou num exíguo feriado bancário, o bug era, para usar uma expressão antiga e low tech, café pequeno. Outros acrescentavam que o Brasil havia entrado atrasado na era da computação e não existiam muitos programas antigos, feitos com os tais dois dígitos. Outros, mais bem informados, diziam que bugs semelhantes haviam passado sem que ninguém notasse. A data 9/9/99, por exemplo, era perigosíssima, pois muitos programas antigos usavam 9999 como sinalizador de "fim de arquivo". Passou e não aconteceu nada.
De toda maneira, tanto o bug quanto o medo do bug terão passado em pouco mais de um mês, após o que tudo se normaliza, ou não.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)