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Lady Kate Gavron não deixou por menos. Numa declaração ao jornal londrino Daily Telegraph ela lascou: "Teria sido excelente se o príncipe Charles tivesse sido aconselhado a casar com uma negra". A respeito da família real britânica, ela disse ainda: "Eles são todos brancos, e compõem uma hierarquia nada atrativa". Lady Gavron ocupa o posto de vice-presidente da Comissão sobre o Futuro da Grã-Bretanha Multiétnica, comitê encarregado de sugerir medidas para remediar a discriminação racial no Reino Unido. No relatório tornado público no começo de outubro, a comissão propõe iniciativas visando à promoção social dos britânicos de origem africana ou asiática. Muitas das propostas suscitaram controvérsias, e a sugestão sobre o príncipe Charles pode ter parecido chacota dos trabalhistas, visto que Kate Gavron e seu marido, Lord Gavron, ex-patrão do jornal de esquerda The Guardian, foram nobilitados por Tony Blair. Mas Lady Gavron tem razão, na medida em que sugere o manejo das funções régias de representação para quebrar os preconceitos raciais nutridos pela sociedade britânica. Sobretudo, sua declaração e os trabalhos da comissão revelam ao público estrangeiro uma realidade que os britânicos constatam no cotidiano: povoada de comunidades de origem caribenha, africana ou asiática, a Inglaterra se transformou num país multiétnico. A observação vale para outros países europeus. Paris, Roma, Genebra e Berlim reúnem comunidades africanas e asiáticas que enriquecem o tecido cultural dessas cidades. No horizonte, uma evolução que deve espanar as cinzas dos cavaleiros das Cruzadas medievais e da Reconquista da Península Ibérica: no novo milênio o islã se consolida como uma das grandes religiões da Europa Ocidental. Assim, as velhas democracias européias, países de emigração e não de imigração (como os países americanos), devem agora lidar com graves dilemas políticos e culturais. Integrar as novas comunidades no molde secular, laico e ocidental, dos países de acolhimento, ou assimilar as novas culturas e religiões no respeito da especificidade de cada uma delas, assegurando a intangibilidade de seus costumes e transformando-os em direito pleno? São questões cruciais, pouco analisadas no Brasil, onde se cristalizou uma sociedade a um só tempo multicultural e profundamente desigual. Veja-se, por exemplo, o estudo do cientista social José Luís Petrucelli, do IBGE, resumido pela repórter Fernanda da Escóssia, do jornal Folha de S. Paulo. Petrucelli demonstrou que há uma proporção muito baixa de casamentos inter-raciais: em 1998, três em cada quatro casamentos do país sucederam entre pessoas da mesma raça ou cor. Essa rigidez é decorrência da discriminação que atinge mulatos e negros. Dezenas de outros estudos demonstram a persistência de barreiras raciais superpostas às desigualdades sociais. Assim, a taxa média de analfabetismo registrada pelo IBGE situa-se em 13,8%. Ora, entre os negros essa taxa é de 21,6%, entre os pardos (na terminologia do IBGE), 20,7%, e entre brancos, 8,4%. Sabe-se também que a mortalidade infantil segue essa mesma ordem: as mães negras analfabetas perdem proporcionalmente mais filhos de menos de 1 ano de idade que as mães mulatas analfabetas, e estas últimas perdem mais bebês que as mães brancas analfabetas. Um quadro desses ultrapassa os limites que configuram, no dizer de Lady Gavron, "uma hierarquia nada atrativa". É preciso estabelecer no país uma política decidida de combate às desigualdades raciais. Nesse combate há também lugar para ações simbólicas. O presidente da República parece inclinado a nomear, pela primeira vez, uma jurista como ministra do Supremo Tribunal Federal. Por que não escolher também um especialista negro de destaque há dezenas deles em todos os campos da administração para um posto eminente no governo federal? Para um posto menos óbvio que o Ministério dos Esportes, obviamente ocupado por Pelé?
Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)
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