Odisséia
à moda
americana
Os
irmãos Coen, de Fargo, baseiam-se no
poema de Homero para fazer uma comédia
Isabela
Boscov
Fotos 2000 Universal Pictures
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| Clooney
(à dir.) e seus comparsas: cegos e sereias |
Os irmãos americanos Joel e Ethan Coen adoram pregar peças
na platéia. Em seus filmes é comum haver defuntos
que não morreram direito, personagens que confundem a imaginação
com a realidade e ângulos de câmara tão estranhos
que a gravidade parece ter sido virada pelo avesso. Em Fargo,
de 1996, eles foram ainda mais longe. Joel e Ethan garantiam que
a trama sobre um assassinato nas planícies geladas
do Estado de Dakota do Norte se baseava num fato verídico,
quando ela não passava da mais completa ficção
(ótima ficção, aliás, premiada com o
Oscar de roteiro). Por isso é impossível não
desconfiar quando, na abertura de E Aí, Meu Irmão,
Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?,
Estados Unidos, 2000), eles dizem que seu filme se inspira na Odisséia
do poeta grego Homero. Pasmem: é a mais pura verdade.
Na
nova comédia, que começa a ser exibida nesta quinta-feira
no país, George Clooney é Everett Ulysses McGill,
um salafrário bom de papo, que adora brilhantina e usa um
bigodinho idêntico ao do astro Clark Gable. Em plena Depressão
dos anos 30, ele escapa da prisão juntamente com dois sujeitos
meio aparvalhados (os excelentes John Turturro e Tim Blake Nelson)
e põe-se a procurar um tesouro que teria enterrado antes
de ir para trás das grades. Mal os amigos caem na estrada,
encontram um velho cego que profetiza que o trio irá viver
grandes aventuras. O oráculo é uma versão disfarçada
de Tirésias, que anunciava destino semelhante para Ulisses
na Odisséia.
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| Joel
e Ethan Coen: fãs de lorotas e da velha- guarda de Hollywood
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Muitos
outros personagens de Homero estão no filme. O grandalhão
John Goodman, por exemplo, interpreta um vendedor de Bíblias
que usa um tapa-olho, em referência ao Cíclope do poema
grego. Há ainda três lavadeiras que tentam seduzir
os amigos com seu canto em substituição às
sereias do original e um sem-número de homens com
problemas de visão. Mal que, presume-se, teria afligido Homero.
Sem falar que o verdadeiro propósito da jornada do protagonista
é reencontrar sua mulher, Penny (apelido de Penélope,
claro), e evitar que ela aceite outros pretendentes. Mas o que torna
esta comédia realmente diferente é que, de embrulhada,
os irmãos Coen transformam em mitologia todos aqueles personagens
típicos do velho sul americano, da Ku Klux Klan a um guitarrista
negro que vendeu a alma ao diabo como o célebre Robert
Johnson alegava ter feito. Joel e Ethan flertam também com
o musical ao longo de todo o filme. Uma das cenas mais inspiradas
é aquela em que, em troca de uns caraminguás, os fugitivos
gravam uma canção de bluegrass o country
"raízes" e, sem querer, viram coqueluche do rádio.
O
resultado de tanta mistura é absolutamente delicioso, ainda
que os espectadores mais irrequietos possam implicar com o ritmo
um tanto episódico de E Aí, Meu Irmão, Cadê
Você? Só não adianta tentar buscar significados
ocultos ou crítica social no filme, como gostam de fazer
os cinéfilos xiitas. Os Coen juram que não "plantam"
simbolismos em suas fitas e fazem apenas o que a intuição
dita. No fundo, dizem, nunca deixaram de ser aqueles nerds do centro-oeste
americano, que passaram a adolescência devorando os filmes
produzidos na era de ouro de Hollywood. "Somos uns quadradões",
define Frances McDormand, estrela de Fargo e mulher de Joel.
O título E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?,
por exemplo, é uma brincadeira tirada da comédia Contrastes
Humanos, dirigida por Preston Sturges em 1942.
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