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Vozes no divã

Filhos de cantores famosos adotam a
profissão dos pais. É um caso para Freud

Marcelo Marthe

 
Fernanda Fernandes/ AE
Moreno Veloso: ele faz tudo igualzinho ao paizão Caetano

A psicanálise sempre se interessou pelo mundo das artes. Sigmund Freud escreveu sobre escultura, teatro, poesia e romances. Outros teóricos fizeram do cinema um importante objeto de estudo. Mas parece que ninguém, até agora, deitou a música pop no divã. É uma pena. Esse campo é dos mais promissores, principalmente para quem deseja analisar as relações entre pais e filhos. Veja-se o caso dos jovens músicos Sean Lennon, Jakob Dylan e Moreno Veloso. O primeiro é rebento de um ex-beatle, o segundo é filho de um ícone do rock americano e o terceiro é o primogênito de um dos mais destacados compositores brasileiros. Os três não fariam feio num compêndio de psicanálise, sobretudo num capítulo a respeito do "processo de individuação", que explica como os rapazes precisam desvencilhar-se da influência paterna antes de assumir identidade própria.

Desse grupo, Jakob Dylan é o mais "resolvido". Numa entrevista recente para a revista Rolling Stone, ele deixou bem claro que é fã de seu pai, Bob Dylan, mas também disse que não pretende ser apenas uma nota de rodapé nas biografias do ídolo. Parece estar no caminho certo. O penúltimo CD de sua banda, chamada Wallflowers, vendeu 6 milhões de cópias em todo o mundo. O novo trabalho, Breach, foi lançado há quinze dias e chega nesta semana ao Brasil. Tem recebido resenhas elogiosas, que ressaltam inclusive as letras "maduras" do rapaz. Sean Lennon, enquanto isso, é um caso clássico de rebeldia. Atração do último Free Jazz, o cantor de 25 anos faz tudo para se desvincular do legado musical de John Lennon. Costuma cantar uma música dos Beach Boys, rivais dos Beatles nos anos 60. E adora dizer que seus discos – que misturam pop, jazz e bossa nova – causariam espanto no paizão roqueiro.

Mas quem inspira mais cuidados talvez seja Moreno Veloso. O recém-lançado CD de estréia de seu grupo, o Moreno+2, tem na obra de Caetano sua estrela guia. Caetano está por todos os lados: no timbre de voz de Moreno, ao cantar em falsete. No estilo "cabeça" das letras. Na escolha do repertório, que deixa espaço para músicas em inglês e espanhol. "Se ele tentar ser igual ao pai, vai fracassar", acredita a psicóloga Lídia Aratangy. Resta torcer para que Moreno, como diziam os analistas de outrora, consiga "matar" seu genitor nos próximos tempos. Simbolicamente, é claro.

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