Abaixo da cintura
No
vale-tudo das eleições, os candidatos
apelaram para trapaças, mentiras e baixarias

Maurício
Lima
Fotos Ricardo Benichio

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eleições em São Paulo foram marcadas por
jogadas não convencionais. O candidato Paulo Maluf, do
PPB, espalhou outdoors apelativos, insinuou que Marta tinha
problemas na esfera pessoal e encheu as ruas da cidade com cartazes
da adversária em companhia de drag queens. São
formas que dizem muito do estilo Paulo Maluf de fazer política
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| Ed Viggiani/Folha
Imagem |
Agliberto
Lima/AE |
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A campanha
eleitoral acabou e uma triste constatação pode ser
feita: desde 1989, quando Luís Inácio Lula da Silva
foi à televisão ao lado da filha para responder a
acusações pessoais de Fernando Collor, o eleitorado
não assistia a um festival tão explícito de
golpes baixos. No Recife, o prefeito Roberto Magalhães, do
PFL, usou o programa de rádio para falar de uma suposta amante
do candidato do PT, João Paulo, que, em resposta, apresentou
o depoimento de uma mulher dizendo que fora agredida por Magalhães.
Em Curitiba, a coligação do prefeito Cassio Taniguchi,
do PFL, apelou para ofensas que misturam racismo com preconceito:
disse que o candidato a vice do PT, José Maurino, que é
negro, era "analfabeto". Maurino tem até mestrado. Em Maringá,
no Paraná, dois camelôs foram clandestinamente contratados
para fazer baderna como se fossem petistas. Presos, confessaram
a tramóia.
Mas
lama pesada, mesmo, tomou conta de São Paulo. O candidato
do PPB, Paulo Maluf, fez de tudo para derrotar a petista Marta Suplicy.
Numa de suas tentativas de atacar a adversária, Maluf sugeriu
que ela tinha problemas inconfessáveis na vida particular.
Chegou a referir-se, numa oportunidade, às "perigosas relações
da dona Marta do PT". Na semana passada, o comando de campanha de
Maluf mandou espalhar outdoors usando um tom emocional para tentar
vincular Marta à defesa do aborto e ao uso de drogas: "Mamãe,
vote em quem é contra o aborto", apela um outdoor. "Papai,
não quero drogas nas escolas", diz outro. Apareceram, ainda,
cartazes de Marta ao lado de uma drag queen, com a sugestão
subliminar de que a petista transformaria a prefeitura paulistana
num templo de licenciosidade.
Se
fôssemos transpor para os desenhos infantis, a disputa em
São Paulo foi uma reprise da luta do Dick Vigarista, que
apela para qualquer golpe para evitar a vitória da Penélope
Charmosa", compara o ex-ministro Mailson da Nóbrega, da consultoria
Tendências. A questão principal, no entanto, é
outra. As rasteiras malufistas não têm nenhuma relação
com a administração da cidade de São Paulo,
ou de qualquer cidade. Prefeitos não legislam sobre aborto,
drogas ou tamanho da pena que condenados cumprem outro tema
que Maluf desvirtuou para sugerir que sua adversária defende
a libertação de criminosos. Discussões de ordem
ideológica são outra coisa e normais. Quando
Maluf diz que Marta Suplicy é do partido que defende o MST,
não está mentindo. Se isso lhe traz votos, está
dentro da regra do jogo.
"Exportadora
de v..." Havia muito que não se fazia tanta baixaria.
As eleições municipais de 1992 foram marcadas pelo
debate da moralidade provocado pela forçada saída
de Collor da Presidência. No pleito de 1994, a grande discussão
foi o real. Em 1996, um dos debates principais das campanhas era
sobre a continuidade administrativa. Várias capitais acabaram
elegendo políticos ligados aos prefeitos que ocupavam o cargo.
Dois anos depois, o medo de algum choque externo marcou as eleições
presidenciais de 1998. A grande diferença desta eleição
em relação às anteriores foi o aparecimento
de candidatos de esquerda com chances reais em várias capitais.
Esta é a eleição em que partidos de esquerda
chegaram bem em pelo menos oito das onze capitais onde houve segundo
turno. Inclusive em algumas cidades onde a presença dos partidos
de oposição não vinha sendo muito freqüente
em pleitos anteriores. O clima de confronto ideológico, assim
como em 1989, favorece esse tipo de conduta dos candidatos.
Fotos Eduardo Queiroga/Ag. Lumiar
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| No
Recife, a disputa entre PT e PFL causou feridas. Os candidatos
usaram os programas de TV para ofensas pessoais e agressões |
A baixaria na política é uma estratégia muito
utilizada por dois motivos. O primeiro é que realmente pode
render votos para quem a pratica. Há quem decida o voto com
base na vida pessoal dos candidatos. Portanto, a revelação
de que determinado político tem uma amante secreta o descredencia
entre uma parcela do eleitorado. Quando a disputa é acirrada,
uma pequena parcela pode fazer toda a diferença na contagem
final dos votos. Outro motivo é que o adversário fica
evidentemente atordoado com manifestações desse tipo.
Em Pelotas, no Rio Grande do Sul, adversários do deputado
federal e líder na disputa pela prefeitura Fernando Marroni,
do PT, estão usando um vídeo no qual ele conversa
com Lula em Brasília. "Pelotas é uma cidade pólo,
né", diz Lula. "Claro", responde Marroni. Lula olha para
a câmara, ri e brinca: "Exportadora de v...". Marroni fica
constrangido com a brincadeira e responde dando o tamanho da cidade:
"Trezentos e vinte mil habitantes, tudo Lula-lá". O diálogo
acaba por sugerir que o candidato à prefeitura afirma que
todos os habitantes de sua cidade são exportáveis.
É claro que tudo não passa de uma brincadeira
mas a conversa, na semana passada, já tinha aparecido nas
campanhas gaúchas dos adversários do PT. No jogo abaixo
da cintura das eleições, táticas assim podem
render votos. Mas desqualificam quem deles se vale. E dão
uma idéia de como se comportarão no poder se ganharem
a eleição. Jogando baixo.
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