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Depois do sucatão

O que mudou no vôo presidencial e
o manual para
que a tripulação não
cometa gafes diante de FHC

Cristine Prestes

 
Fotos Antonio Milena
A tripulação do vôo presidencial aprende como se comportar no vôo presidencial: esquecer tudo que ouvir e não estender a mão para cumprimentos

O Ministério das Relações Exteriores preparou uma cartilha para orientar os pilotos e as aeromoças da companhia aérea TAM como se comportar diante do presidente Fernando Henrique Cardoso, da primeira-dama e dos demais integrantes da comitiva oficial. Desde fevereiro deste ano, quando venceu uma licitação, a TAM é a empresa encarregada de fazer os vôos internacionais da Presidência. É natural, portanto, que lhe sejam repassadas algumas regras da etiqueta do Palácio do Planalto. De acordo com as instruções recebidas, os comissários não devem estender a mão ao presidente e à primeira-dama. Só retribuem o cumprimento se chamados a fazê-lo. O texto informa que FHC deve ser tratado por "senhor presidente", e a primeira-dama, por "senhora Ruth" (e não "dona Ruth", tratamento que ela odeia). O manual contém um breve perfil do casal e informa que os dois são dotados de grande cultura. Fernando Henrique Cardoso, diz o texto, fala inglês, francês e espanhol. Sobre a "senhora Ruth", o Itamaraty avisa: ela é uma pessoa calada. A última recomendação recebida pela tripulação é, seguramente, a mais interessante. Determina que todos esqueçam as conversas que, eventualmente, escutem a bordo. Afinal, mesmo os bate-papos presidenciais tornam-se questão de Estado quando divulgados.

Ana Araujo
Ana Araujo
Ana Araujo
FHC ganhou em segurança, mas perdeu em conforto: o antigo avião presidencial tinha cama de casal, banho quente e trinta anos de uso. O novo Airbus é um dos mais modernos do mundo

Para a tranqüilidade do governo (e de toda a população), os vetustos Boeing 707, conhecidos como sucatões, já não operam mais como primeiras-aeronaves. Em seu lugar, FHC viaja a bordo de moderníssimos Airbus A 330, que possuem joystick em lugar de manche. Justiça seja feita, em termos de conforto e mobiliário o sucatão dava de 10 a zero no Airbus. Oferecia cama de casal, chuveiro com água quente, sala de reuniões, tudo separado com paredes de madeira e portas com chave. No Airbus, o casal ocupa duas poltronas em um compartimento isolado por cortinas de pano na primeira classe. FHC viaja na janela, a primeira-dama, no corredor. O banheiro é privativo, mas não tem chuveiro. Os travesseiros são personalizados por um bordado com inscrição "vôo presidencial". Os velhos sucatões eram mais espaçosos e aconchegantes, como os antigos trens de luxo. Mas, por uma ironia criada pelos hábitos estatais, o presidente da República viajava num jato, o Boeing 707, que nenhum outro brasileiro usava mais, já que as companhias comerciais os aposentaram há anos.


Primeira classe reformada: poltronas reclináveis com telas de TV no lugar de camas, pijamas e travesseiros bordados

Com a troca de aviões, o experiente time da Força Aérea Brasileira que pilotava os sucatões foi substituído por uma tripulação de alto gabarito técnico, mas nenhum traquejo protocolar. Nesse ponto, a cartilha é muito útil. Na semana passada, FHC e sua comitiva decolaram com destino à Espanha. No programa, encontros com o primeiro-ministro José María Aznar e com o presidente da Argentina, Fernando de la Rúa, para discutir saídas para a crise política e econômica da Argentina. FHC também recebeu um prêmio, o Príncipe de Astúrias, de cooperação internacional. Foi o quinto vôo presidencial na TAM. Nos primeiros, uma equipe do cerimonial chegava a provar com antecedência a comida a ser servida. Hoje, limita-se a olhar os pratos. A refeição da comitiva é a mesma servida aos outros passageiros da primeira classe nos vôos regulares. O casal presidencial introduziu apenas algumas alterações no menu. No primeiro vôo, FHC pediu mandioquinha. Dona (ops!), a senhora Ruth encomendou pão de queijo.

 
O menu tem caviar e champanhe. FHC fez incluir mandioquinha e a "senhora" Ruth quis pão de queijo

A TAM coloca nos vôos presidenciais sua melhor equipe, obviamente. Os comandantes do vôo não são pilotos comuns da companhia. Na TAM, eles são os chefes dos demais pilotos. Viajam junto dois co-pilotos, três mecânicos de vôo, e uma equipe auxiliar formada por outras dezenove pessoas. O presidente embarcou para a Espanha na noite de terça-feira, mas os preparativos da viagem começaram duas semanas antes. Cerca de trinta funcionários da TAM trabalharam para mudar a configuração da primeira classe, como ocorre sempre antes dos vôos do presidente. Levam dez horas para promover a adaptação, enquanto no mesmo período um grupo faz a checagem de todos os sistemas do avião. Antes do vôo, seis militares carregando malas pretas realizam a vistoria final de segurança. E o jato decola para Brasília, em busca de seu passageiro especial. Este é sempre um vôo de teste, apelidado de "vôo da bomba", durante o qual todos os sistemas são checados. Depois, é só colocar o tapete vermelho, abrir o sorriso e abrir alas para a caravana palaciana subir a bordo.

 

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