Entrevista Pedro Simon

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Estou constrangido

O senador gaúcho diz que chegou a
hora de investigar denúncias contra
os políticos, inclusive o presidente de
seu partido, o PMDB

Alexandre Oltramari

 
Liane Neves
"Passei os últimos quarenta anos na vida pública. Não fiquei um único dia sem mandato. Posso afirmar que, hoje, tenho menos do que meu pai me deixou"

Nas últimas quatro décadas, o senador Pedro Simon, do PMDB do Rio Grande do Sul, não ficou um único dia sem mandato e foi diante do microfone que se tornou uma unanimidade: ninguém quer ser alvo de suas críticas muitas vezes fatais. Nos discursos, abre os braços teatralmente, chacoalha as mãos como se batesse em pandeiros imaginários e carrega nas passagens irônicas. Simon já constrangeu alvos de grosso calibre, inclusive ministros – e tornou impossível que alguns permanecessem nos cargos. Seu índice de letalidade está no fato de conjugar uma vida pública sem máculas com pronunciamentos cortantes como adagas. Na semana passada, depois da revelação de VEJA de que o patrimônio do senador Jader Barbalho cresceu 60.000% nas últimas três décadas, Simon tomou uma decisão. Nesta semana, subirá na tribuna do Senado para mostrar denúncias sobre políticos publicadas na imprensa e conclamará por investigações rigorosas. "Chegamos ao limite", diz ele. Jader Barbalho é presidente do PMDB, partido pelo qual Simon é pré-candidato à sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso. No auge das denúncias sobre outro peemedebista, o ex-governador paulista Orestes Quércia, Simon também não o poupou de críticas públicas. Hoje, reclama do efeito. "Ele não teve uma única condenação. Eu tive de engolir tudo." Na semana passada, Pedro Simon, 70 anos, casado pela segunda vez e pai de um garoto de 6, antecipou em entrevista a VEJA o que pretende falar na tribuna do Senado:

Veja – O senhor ficou espantado em saber que o senador Jader Barbalho, presidente de seu partido, conseguiu fazer fortuna sendo político?
Simon – Estou muito constrangido. Não apenas pelo caso do Jader, mas também por todas as denúncias e histórias mal explicadas envolvendo os políticos como um todo. É por isso que vou à tribuna do Senado exigir, de uma vez por todas, que qualquer denúncia contra homens públicos seja investigada de imediato.

Veja – O senhor pretende votar em Jader Barbalho para a presidência do Senado?
Simon – Não sei. Ainda não sei. Vamos nos reunir e, na hora oportuna, a gente decide. Atualmente, o grande cabo eleitoral do Jader Barbalho dentro do PMDB vem a ser o senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL.

Veja – Como assim?
Simon – Se ele não quisesse intervir no PMDB, a força do Jader dentro do partido seria menor do que é hoje. Além disso, casos como o do Jader existem em tudo quanto é lado. É preciso investigar todos, não apenas um ou dois.

Veja – O senhor quer dizer que existem casos parecidos dentro ou fora do Congresso?
Simon – Dentro e fora. Mas só no Congresso deve ter uns 150.

Veja – Como o senhor analisa o fato de alguém se dedicar à vida pública e enriquecer ao mesmo tempo?
Simon – Passei os últimos quarenta anos na vida pública. Não fiquei um único dia sem mandato. Posso afirmar que, hoje, tenho menos do que meu pai me deixou. De modo que, do jeito que sou, com a vida que levo, não acho possível alguém enriquecer como político. É por isso que, quando existe denúncia, tem de investigar.

Veja – Por que o senhor insiste em investigações agora, se o problema não é propriamente novidade?
Simon – Venho defendendo essa tese há muito tempo, mas tenho a impressão de que agora chegamos ao limite. Há uma sacola cheia de denúncias graves que precisam ser investigadas. O escândalo de hoje dura até chegar o de amanhã. Isso não pode acontecer. Saiu o escândalo, tem de investigar.

Veja – Se não há investigação na quantidade e na profundidade desejável é porque há muita gente interessada em que as coisas permaneçam do jeito que estão, não é verdade?
Simon – Investigar seria muito bom para os políticos e para a nação. O povo brasileiro não é mais corrupto que o americano, o francês ou o japonês. A diferença é que em outros países existe punição. Um ex-presidente do banco central do Japão se matou de vergonha para não ir para a cadeia. No Brasil, descobriu-se que o Chico Lopes (ex-presidente do Banco Central) tinha 1,6 milhão de dólares no exterior, ele ficou duas horas na cadeia, pagou 200 reais de fiança e foi embora. Gastou dinheiro à toa. Se Chico Lopes tivesse um pouco mais de paciência, se tivesse esperado pelo menos mais uma meia horinha na cadeia, um ministro do Supremo teria mandado libertá-lo.

Veja – Por que o Congresso não se empenha nas investigações com o vigor que o senhor gostaria?
Simon – O Congresso é acomodado e irresponsável. Não vota as leis que precisa votar. E, sobre o tema que estamos falando, uma lei importante é a do fim da imunidade parlamentar. Nos Estados Unidos, quando uma guriazinha fala sobre o que andou fazendo no escurinho da Casa Branca, quase cai o presidente da República. O que aconteceu? O Bill Clinton teve de pedir desculpas à nação.

Veja – Por que, em sua avaliação, existe essa diferença?
Simon – No Brasil, o que se faz? Aqui, quando um homem público, um político qualquer é acusado, o conselho que ele mais ouve é o seguinte: "Não fale nada. Espere que logo aparece outro caso e você cai fora". O Luiz Estevão foi cassado por amadorismo. Se tivesse ficado quietinho, sem aparecer, sem querer ser relator do Orçamento, teria escapado. Mesmo assim, não acho que o Congresso é a instituição que mais falha. Já cassamos quinze deputados, um presidente da República e, recentemente, o primeiro senador. E aí eu pergunto: quantos juízes perderam o cargo? Quantos empresários estão presos? O que os políticos podem fazer é ter a coragem de abrir mão de algumas vantagens. Tenho um projeto de lei que acaba com a imunidade parlamentar. Outro põe fim ao sigilo bancário de quem, de alguma forma, mexe com dinheiro público. É para valer do vereador ao presidente da República. Os projetos já foram aprovados no Senado há dois anos, mas estão parados na Câmara dos Deputados até agora. São coisas como essa que fazem do Brasil, ainda hoje, um paraíso da impunidade. E, infelizmente, a impunidade favorece principalmente os políticos desonestos.

Veja – Por quê?
Simon – Porque com os políticos a Justiça nunca funciona por causa da imunidade. A imunidade não poderia valer para crimes comuns. Denunciei o Quércia (Orestes Quércia, ex-governador de São Paulo e ex-presidente do PMDB) no Senado, que era do meu partido, e tive de engolir tudo. Ele não teve uma única condenação. A imprensa publica, ninguém investiga e o cidadão fica sem saber o que é mentira e o que é verdade. Isso absolve o político ladrão porque, sem investigação, ele nunca é punido. E o político honesto, que trabalha duro, é penalizado e carrega o fardo da generalização, segundo a qual "político não presta".

Veja – O senhor acha que a imprensa mais erra do que acerta?
Simon – Ao contrário. Acho que acerta mais do que erra. A imprensa faz o seu papel, embora eu ache que ela não é muito simpática ao Parlamento. O problema é que, às vezes, por insuficiência das outras instituições, os jornalistas acabam fazendo o papel deles, o papel do Congresso, do promotor e do juiz. Quando a imprensa publica uma denúncia, e nada é investigado, os políticos são nivelados por baixo. A investigação é útil para que se possa punir culpados, mas também para que se preserve a imagem dos inocentes. Ninguém diz, de maneira genérica, que os médicos são desonestos. Fala-se que determinados médicos são desonestos. Por quê? Porque eles são investigados e os culpados, punidos.

Veja – A má fama dos políticos é uma injustiça?
Simon – Depende. Em alguns casos, sim. Em outros, injustiça é o fato de um político estar solto. A culpa de se nivelar todo mundo por baixo é da impunidade. Aqui, o que vale é o "vou apurar". Quando se ouve um "vou apurar", pode ter certeza de que dez anos se passarão sem que nada seja feito. Está faltando ética. Não podemos começar pelo ladrão de galinhas. Temos de começar por cima. Investiguem a mim, ao Antonio Carlos Magalhães, ao presidente da República. É engraçado que só depois de seis anos o governo tenha baixado um código de ética. Ao ter dois parentes no governo, como é o caso da própria filha, o Fernando Henrique permite que cada deputado, cada senador, cada vereador das cidades mais remotas se sinta autorizado a nomear seus parentes também. Se o presidente pode, por que eu não posso também? Falta dar o exemplo. O Ciro Gomes disse que o "presidente não rouba, mas deixa roubar". Eu discordo. Acho que o Fernando Henrique não rouba nem deixa roubar, mas continuam roubando. E aí ele não apura.

Veja – Por quê?
Simon – Para apurar com rigor, precisa mudar as leis, precisa ter um estado de espírito. Como ninguém faz isso, o presidente também não faz. É um paradoxo, porque a sociedade quer essa limpeza. O povo está esgotado. Nunca vai deixar de existir ladrão. Mas daí a não punir ninguém, como ocorre no Brasil, vai uma diferença enorme. A elite precisa ouvir a voz das ruas.

Veja – Há quem diga que o país não pode parar como se fosse uma delegacia ou um imenso tribunal.
Simon – Bobagem. Essa tese foi usada para inviabilizar a CPI dos Corruptores, que deveria investigar quem corrompeu a turma do Collor e do PC Farias. Na história dos grandes escândalos políticos brasileiros sempre se pegou o corrupto. Na hora de pegar os empresários que corromperam, aí a coisa não anda. Esse negócio de que não se pode fazer do país uma delegacia é conversa de quem não quer apurar. Quem pensa assim, no fundo, acha que ser honesto ou desonesto é uma questão secundária, é um detalhe mais ou menos periférico. Na vida de qualquer pessoa, como na de qualquer instituição, toda vez que surge um problema imprevisto é preciso parar e lidar com ele. Por que a corrupção, as denúncias, as suspeitas deveriam ter um tratamento diferente, mais benevolente?

Veja – O senhor acha que, depois das mudanças com o impeachment do ex-presidente Collor, os brasileiros voltaram a se acostumar com a corrupção?
Simon – Acho que houve uma acomodação. Acho que as pessoas pensam que é assim e ponto. Criou-se uma jurisprudência segundo a qual processo envolvendo gente rica e importante não é para acabar nunca. Não é para colocar ninguém na cadeia. E não se pode criticar quem tem essa impressão. Basta examinar como andam os processos de gente importante e abrir as cadeias para ver quem está lá dentro.

Veja – De quem é a falha?
Simon – É do governo, do Congresso, da polícia, da Justiça, da elite como um todo. Nós não fazemos um trabalho coordenado. O policial não gosta do promotor estadual, que por sua vez não vê com simpatia o procurador da República, que não gosta do juiz e, assim vai. Temos de fazer como a Operação Mãos Limpas, na Itália, em que todos trabalhavam juntos, coordenados. Eles conseguiram repatriar milhões e milhões de dólares enviados ilegalmente ao exterior. Quando a coisa não funciona bem, o Congresso acaba tendo a obrigação de realizar uma tarefa, o combate à corrupção, que não é propriamente sua. As instituições não funcionam porque não querem. É que as leis precisam ser alteradas. Temos de acabar com o inquérito policial nos moldes como existe hoje e criar um processo no qual trabalhem juntos o delegado, o procurador e o juiz. Ou seja, precisamos mudar as leis. É aí que o Congresso é omisso.

Veja – O senhor não acha que o Ministério Público tem-se empenhado em fazer uma faxina na corrupção?
Simon – É um fenômeno muito interessante, pois na verdade não se trata de um empenho de toda uma instituição, mas de alguns de seus membros. No caso do ex-presidente do Banco Central, os procuradores fizeram tudo certinho. Pediram um mandado de busca e apreensão à Justiça, executaram a apreensão na casa dele, voltaram à Justiça e abriram os documentos na frente dos advogados de defesa. Ainda assim, foram chamados a Brasília pelo procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro. Falava-se até que os procuradores seriam punidos pelo atrevimento de entrar na casa de um ex-presidente do Banco Central. Por que é atrevimento? Agora o governo quer emplacar a Lei da Mordaça, que já foi aprovada na Câmara dos Deputados. É um absurdo. Querem o quê? Que vá tudo para debaixo do tapete? O Ministério Público tem de agir, sim. Quando existe uma suspeita sobre um homem público, há apenas três caminhos aceitáveis. O procurador pode denunciar, arquivar ou pedir mais investigação. O que não pode é deixar na gaveta, como faz o doutor Geraldo Brindeiro.

 
Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  O senador peregrino
  Eu digo o que penso

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco