Estou
constrangido
O senador gaúcho diz que
chegou a
hora de investigar denúncias contra
os
políticos, inclusive o presidente de
seu partido, o PMDB
Alexandre Oltramari
Liane Neves
 |
"Passei
os últimos quarenta anos na vida pública. Não fiquei um único
dia sem mandato. Posso afirmar que, hoje, tenho menos do que
meu pai me deixou" |
Nas
últimas quatro décadas, o senador Pedro Simon, do
PMDB do Rio Grande do Sul, não ficou um único dia
sem mandato e foi diante do microfone que se tornou uma unanimidade:
ninguém quer ser alvo de suas críticas muitas vezes
fatais. Nos discursos, abre os braços teatralmente, chacoalha
as mãos como se batesse em pandeiros imaginários
e carrega nas passagens irônicas. Simon já constrangeu
alvos de grosso calibre, inclusive ministros e tornou impossível
que alguns permanecessem nos cargos. Seu índice de letalidade
está no fato de conjugar uma vida pública sem máculas
com pronunciamentos cortantes como adagas. Na semana passada,
depois da revelação de VEJA de que o patrimônio
do senador Jader Barbalho cresceu 60.000% nas últimas três
décadas, Simon tomou uma decisão. Nesta semana,
subirá na tribuna do Senado para mostrar denúncias
sobre políticos publicadas na imprensa e conclamará
por investigações rigorosas. "Chegamos ao limite",
diz ele. Jader Barbalho é presidente do PMDB, partido pelo
qual Simon é pré-candidato à sucessão
do presidente Fernando Henrique Cardoso. No auge das denúncias
sobre outro peemedebista, o ex-governador paulista Orestes Quércia,
Simon também não o poupou de críticas públicas.
Hoje, reclama do efeito. "Ele não teve uma única
condenação. Eu tive de engolir tudo." Na semana
passada, Pedro Simon, 70 anos, casado pela segunda vez e pai de
um garoto de 6, antecipou em entrevista a VEJA o que pretende
falar na tribuna do Senado:
Veja O senhor ficou espantado em saber que o senador
Jader Barbalho, presidente de seu partido, conseguiu fazer fortuna
sendo político?
Simon
Estou
muito constrangido. Não apenas pelo caso do Jader, mas
também por todas as denúncias e histórias
mal explicadas envolvendo os políticos como um todo. É
por isso que vou à tribuna do Senado exigir, de uma vez
por todas, que qualquer denúncia contra homens públicos
seja investigada de imediato.
Veja O senhor pretende votar em Jader Barbalho para
a presidência do Senado?
Simon
Não
sei. Ainda não sei. Vamos nos reunir e, na hora oportuna,
a gente decide. Atualmente, o grande cabo eleitoral do Jader Barbalho
dentro do PMDB vem a ser o senador Antonio Carlos Magalhães,
do PFL.
Veja Como assim?
Simon
Se
ele não quisesse intervir no PMDB, a força do Jader
dentro do partido seria menor do que é hoje. Além
disso, casos como o do Jader existem em tudo quanto é lado.
É preciso investigar todos, não apenas um ou dois.
Veja O senhor quer dizer que existem casos parecidos
dentro ou fora do Congresso?
Simon
Dentro e fora. Mas só no Congresso deve ter uns 150.
Veja Como o senhor analisa o fato de alguém
se dedicar à vida pública e enriquecer ao mesmo
tempo?
Simon
Passei os últimos quarenta anos na vida pública.
Não fiquei um único dia sem mandato. Posso afirmar
que, hoje, tenho menos do que meu pai me deixou. De modo que,
do jeito que sou, com a vida que levo, não acho possível
alguém enriquecer como político. É por isso
que, quando existe denúncia, tem de investigar.
Veja Por que o senhor insiste em investigações
agora, se o problema não é propriamente novidade?
Simon
Venho defendendo essa tese há muito tempo, mas tenho a
impressão de que agora chegamos ao limite. Há uma
sacola cheia de denúncias graves que precisam ser investigadas.
O escândalo de hoje dura até chegar o de amanhã.
Isso não pode acontecer. Saiu o escândalo, tem de
investigar.
Veja Se não há investigação
na quantidade e na profundidade desejável é porque
há muita gente interessada em que as coisas permaneçam
do jeito que estão, não é verdade?
Simon
Investigar seria muito bom para os políticos e para a nação.
O povo brasileiro não é mais corrupto que o americano,
o francês ou o japonês. A diferença é
que em outros países existe punição. Um ex-presidente
do banco central do Japão se matou de vergonha para não
ir para a cadeia. No Brasil, descobriu-se que o Chico Lopes (ex-presidente
do Banco Central) tinha 1,6 milhão de dólares
no exterior, ele ficou duas horas na cadeia, pagou 200 reais de
fiança e foi embora. Gastou dinheiro à toa. Se Chico
Lopes tivesse um pouco mais de paciência, se tivesse esperado
pelo menos mais uma meia horinha na cadeia, um ministro do Supremo
teria mandado libertá-lo.
Veja Por que o Congresso não se empenha nas
investigações com o vigor que o senhor gostaria?
Simon
O Congresso é acomodado e irresponsável. Não
vota as leis que precisa votar. E, sobre o tema que estamos falando,
uma lei importante é a do fim da imunidade parlamentar.
Nos Estados Unidos, quando uma guriazinha fala sobre o que andou
fazendo no escurinho da Casa Branca, quase cai o presidente da
República. O que aconteceu? O Bill Clinton teve de pedir
desculpas à nação.
Veja Por que, em sua avaliação, existe
essa diferença?
Simon
No
Brasil, o que se faz? Aqui, quando um homem público, um
político qualquer é acusado, o conselho que ele
mais ouve é o seguinte: "Não fale nada. Espere que
logo aparece outro caso e você cai fora". O Luiz Estevão
foi cassado por amadorismo. Se tivesse ficado quietinho, sem aparecer,
sem querer ser relator do Orçamento, teria escapado. Mesmo
assim, não acho que o Congresso é a instituição
que mais falha. Já cassamos quinze deputados, um presidente
da República e, recentemente, o primeiro senador. E aí
eu pergunto: quantos juízes perderam o cargo? Quantos empresários
estão presos? O que os políticos podem fazer é
ter a coragem de abrir mão de algumas vantagens. Tenho
um projeto de lei que acaba com a imunidade parlamentar. Outro
põe fim ao sigilo bancário de quem, de alguma forma,
mexe com dinheiro público. É para valer do vereador
ao presidente da República. Os projetos já foram
aprovados no Senado há dois anos, mas estão parados
na Câmara dos Deputados até agora. São coisas
como essa que fazem do Brasil, ainda hoje, um paraíso da
impunidade. E, infelizmente, a impunidade favorece principalmente
os políticos desonestos.
Veja Por quê?
Simon
Porque com os políticos a Justiça nunca funciona
por causa da imunidade. A imunidade não poderia valer para
crimes comuns. Denunciei o Quércia (Orestes Quércia,
ex-governador de São Paulo e ex-presidente do PMDB)
no Senado, que era do meu partido, e tive de engolir tudo. Ele
não teve uma única condenação. A imprensa
publica, ninguém investiga e o cidadão fica sem
saber o que é mentira e o que é verdade. Isso absolve
o político ladrão porque, sem investigação,
ele nunca é punido. E o político honesto, que trabalha
duro, é penalizado e carrega o fardo da generalização,
segundo a qual "político não presta".
Veja O senhor acha que a imprensa mais erra do que
acerta?
Simon
Ao
contrário. Acho que acerta mais do que erra. A imprensa
faz o seu papel, embora eu ache que ela não é muito
simpática ao Parlamento. O problema é que, às
vezes, por insuficiência das outras instituições,
os jornalistas acabam fazendo o papel deles, o papel do Congresso,
do promotor e do juiz. Quando a imprensa publica uma denúncia,
e nada é investigado, os políticos são nivelados
por baixo. A investigação é útil para
que se possa punir culpados, mas também para que se preserve
a imagem dos inocentes. Ninguém diz, de maneira genérica,
que os médicos são desonestos. Fala-se que determinados
médicos são desonestos. Por quê? Porque eles
são investigados e os culpados, punidos.
Veja A má fama dos políticos é
uma injustiça?
Simon
Depende. Em alguns casos, sim. Em outros, injustiça é
o fato de um político estar solto. A culpa de se nivelar
todo mundo por baixo é da impunidade. Aqui, o que vale
é o "vou apurar". Quando se ouve um "vou apurar", pode
ter certeza de que dez anos se passarão sem que nada seja
feito. Está faltando ética. Não podemos começar
pelo ladrão de galinhas. Temos de começar por cima.
Investiguem a mim, ao Antonio Carlos Magalhães, ao presidente
da República. É engraçado que só depois
de seis anos o governo tenha baixado um código de ética.
Ao ter dois parentes no governo, como é o caso da própria
filha, o Fernando Henrique permite que cada deputado, cada senador,
cada vereador das cidades mais remotas se sinta autorizado a nomear
seus parentes também. Se o presidente pode, por que eu
não posso também? Falta dar o exemplo. O Ciro Gomes
disse que o "presidente não rouba, mas deixa roubar". Eu
discordo. Acho que o Fernando Henrique não rouba nem deixa
roubar, mas continuam roubando. E aí ele não apura.
Veja Por quê?
Simon
Para apurar com rigor, precisa mudar as leis, precisa ter um estado
de espírito. Como ninguém faz isso, o presidente
também não faz. É um paradoxo, porque a sociedade
quer essa limpeza. O povo está esgotado. Nunca vai deixar
de existir ladrão. Mas daí a não punir ninguém,
como ocorre no Brasil, vai uma diferença enorme. A elite
precisa ouvir a voz das ruas.
Veja Há quem diga que o país não
pode parar como se fosse uma delegacia ou um imenso tribunal.
Simon
Bobagem. Essa tese foi usada para inviabilizar a CPI dos Corruptores,
que deveria investigar quem corrompeu a turma do Collor e do PC
Farias. Na história dos grandes escândalos políticos
brasileiros sempre se pegou o corrupto. Na hora de pegar os empresários
que corromperam, aí a coisa não anda. Esse negócio
de que não se pode fazer do país uma delegacia é
conversa de quem não quer apurar. Quem pensa assim, no
fundo, acha que ser honesto ou desonesto é uma questão
secundária, é um detalhe mais ou menos periférico.
Na vida de qualquer pessoa, como na de qualquer instituição,
toda vez que surge um problema imprevisto é preciso parar
e lidar com ele. Por que a corrupção, as denúncias,
as suspeitas deveriam ter um tratamento diferente, mais benevolente?
Veja O senhor acha que, depois das mudanças
com o impeachment do ex-presidente Collor, os brasileiros voltaram
a se acostumar com a corrupção?
Simon
Acho que houve uma acomodação. Acho que as pessoas
pensam que é assim e ponto. Criou-se uma jurisprudência
segundo a qual processo envolvendo gente rica e importante não
é para acabar nunca. Não é para colocar ninguém
na cadeia. E não se pode criticar quem tem essa impressão.
Basta examinar como andam os processos de gente importante e abrir
as cadeias para ver quem está lá dentro.
Veja De quem é a falha?
Simon
É
do governo, do Congresso, da polícia, da Justiça,
da elite como um todo. Nós não fazemos um trabalho
coordenado. O policial não gosta do promotor estadual,
que por sua vez não vê com simpatia o procurador
da República, que não gosta do juiz e, assim vai.
Temos de fazer como a Operação Mãos Limpas,
na Itália, em que todos trabalhavam juntos, coordenados.
Eles conseguiram repatriar milhões e milhões de
dólares enviados ilegalmente ao exterior. Quando a coisa
não funciona bem, o Congresso acaba tendo a obrigação
de realizar uma tarefa, o combate à corrupção,
que não é propriamente sua. As instituições
não funcionam porque não querem. É que as
leis precisam ser alteradas. Temos de acabar com o inquérito
policial nos moldes como existe hoje e criar um processo no qual
trabalhem juntos o delegado, o procurador e o juiz. Ou seja, precisamos
mudar as leis. É aí que o Congresso é omisso.
Veja O senhor não acha que o Ministério
Público tem-se empenhado em fazer uma faxina na corrupção?
Simon
É um fenômeno muito interessante, pois na verdade
não se trata de um empenho de toda uma instituição,
mas de alguns de seus membros. No caso do ex-presidente do Banco
Central, os procuradores fizeram tudo certinho. Pediram um mandado
de busca e apreensão à Justiça, executaram
a apreensão na casa dele, voltaram à Justiça
e abriram os documentos na frente dos advogados de defesa. Ainda
assim, foram chamados a Brasília pelo procurador-geral
da República, Geraldo Brindeiro. Falava-se até que
os procuradores seriam punidos pelo atrevimento de entrar na casa
de um ex-presidente do Banco Central. Por que é atrevimento?
Agora o governo quer emplacar a Lei da Mordaça, que já
foi aprovada na Câmara dos Deputados. É um absurdo.
Querem o quê? Que vá tudo para debaixo do tapete?
O Ministério Público tem de agir, sim. Quando existe
uma suspeita sobre um homem público, há apenas três
caminhos aceitáveis. O procurador pode denunciar, arquivar
ou pedir mais investigação. O que não pode
é deixar na gaveta, como faz o doutor Geraldo Brindeiro.
Saiba
mais |
|
|
|